
Donald Trump
Nathan Howard/Reuters
O médico infectologista Álvaro Furtado, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, classifica como "irresponsável" e uma "grande confusão" a recente declaração do ex-presidente americano Donald Trump, que associou o uso de paracetamol (Tylenol) durante a gravidez ao desenvolvimento de autismo em crianças.
Durante a coluna Olhar Clínico no BandNews Station desta quarta-feira (24), o médico afirma que não há nenhuma comprovação científica séria que sustente essa alegação e faz um apelo para que gestantes não abandonem o tratamento para febre e dor.
A fala de Trump, que também incluiu críticas ao cronograma vacinal infantil, gerou um alerta global e foi prontamente rebatida por órgãos de saúde. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já se posicionou, afirmando não existir, até o momento, nenhum vínculo comprovado entre o uso do medicamento e o transtorno do espectro autista.
Um 'desserviço' à saúde pública
Para Álvaro Furtado, a disseminação de informações sem respaldo científico por figuras públicas representa um "desserviço" à população. Ele explica que a declaração gera uma dúvida perigosa na cabeça de uma gestante, que precisa de tratamento para condições comuns como febre e dor, mas fica com medo de prejudicar o bebê.
"Uma mulher grávida que tem dor e tem febre precisa ser medicada", ressalta o médico. Ele esclarece que a dipirona, outro analgésico comum, não é autorizada na gestação por conta de problemas comprovados. "Existe o paracetamol, que é a medicação que classicamente a gente utiliza para tratar a febre e dor durante a gestação", completa.
O especialista critica a fragilidade dos supostos estudos que associam o medicamento ao autismo, afirmando que eles possuem muitos vieses e não são controlados. Furtado também compara a situação à disseminação de informações falsas sobre a cloroquina durante a pandemia de Covid-19, baseadas em estudos publicados em revistas de baixa credibilidade.
Riscos da febre e a falta de alternativas
Questionado sobre os riscos de uma febre alta não tratada, o infectologista é claro: "Ter febre muito alta também não é legal. Você tem que se medicar porque você pode desnaturar proteína, dependendo da temperatura". Ele reforça que a febre é um sintoma desconfortável e um sinal de que algo está errado no organismo, geralmente uma infecção, e precisa de atenção.
O maior perigo da desinformação, segundo Furtado, é que ela deixa a gestante sem opções seguras. Além da dipirona, medicamentos anti-inflamatórios também não são recomendados durante a gravidez. Ao criar pânico em torno do paracetamol, a gestante pode ser levada a tomar uma medicação de risco real ou simplesmente não tratar a febre, o que também é perigoso.
"Você tira a possibilidade de praticamente um dos únicos medicamentos seguros que a gente até agora utiliza para tratar a febre durante a gestação. Outros não são seguros", alerta.
A recomendação final do médico é direta e enfática. "Não há nenhuma evidência em estudos controlados, sérios, de que paracetamol vai causar autismo em criança", conclui, lembrando que a consulta ao obstetra antes de usar qualquer substância é sempre indispensável.
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