
O enredo, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira, aposta em uma celebração da magia e da fé
Acadêmicos do Salgueiro
De Corpo Fechado, o Acadêmicos do Salgueiro vai pedir proteção para atravessar a maior encruzilhada do mundo no Carnaval de 2025. Em um sinal de fé, a Vermelho e Branco promete resgatar as raízes espirituais para fazer uma viagem por rituais de proteção de diferentes culturas na Sapucaí.
Das crenças africanas aos ritos indígenas, passando ainda por figuras emblemáticas das culturas brasileira e carioca, a missão do Salgueiro é apresentar, na Avenida, a diversidade da cultura religiosa no país.
O enredo, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira, aposta em uma celebração da magia e da fé para buscar o décimo título do Carnaval carioca para a Academia do Samba.
A tradicional escola da Zona Norte, que vai ser a terceira a se apresentar na segunda-feira de Carnaval, promete deixar sua marca logo na comissão de frente, como conta o coreógrafo Paulo Pinna.
Todo o desfile a gente considera como um livro e a comissão de frente é a capa. Então, eu sempre acho que a comissão de frente precisa fazer um resumo ali, 'né'? Sintetizar o que a gente quer falar durante todo o desfile. É um desafio muito grande, sempre. Você resumir um enredo e você resumir um desfile como um todo ali na comissão em dois, três minutos, mas é um desafio bacana, 'né'? Porque a gente consegue viajar na criatividade e buscar essa associação direta de quem está assistindo.
O desfile vai começar com um pedido de proteção à própria escola, para que as energias negativas sejam afastadas e a apresentação transcorra conforme o planejado. Para isso, o enredista Igor Ricardo explica que o Salgueiro vai invocar entidades e pessoas que têm ligação com a agremiação, como os Pretos Velhos.
O corpo Salgueiro, que nada mais é escola de samba, é um corpo, né? É a gente criar esse corpo Salgueiro, entrar na Avenida de corpo fechado, de forma extremamente protegida. Então, a gente abre o desfile invocando entidades, invocando pessoas que protegem esse corpo Salgueiro. Quem são essas pessoas? O salgueiro tem o Xangô, que é o padroeiro da escola, o Salgueiro tem os Pretos Velhos, que na umbanda, também são entidades muito poderosas de fechamento de corpo.
A crença na invulnerabilidade do corpo chegou ao Brasil através dos mandingos escravizados, do antigo Império Mali, trazidos para a Bahia. Eles eram, ao mesmo tempo, guerreiros, feiticeiros e seguidores do islamismo. Segundo a tradição, o fundador do Império Mali teria poderes mágicos vindos dos amuletos que utilizava.
Foi a partir do nome desse povo, inclusive, que surgiu o termo "mandinga", no sentido de magia, feitiço. No Brasil, a crença se misturou ao catolicismo e se popularizou, principalmente nas camadas mais populares da sociedade.
A cultura de proteção do corpo era, também, seguida pelos cangaceiros, que acreditavam estar magicamente fechados e protegidos contra armas e munição. O Salgueiro vai entrar no sertão nordestino para contar essa história, com um tom cômico, ao falar sobre as práticas de Moreno, o feiticeiro do bando de Lampião.
O samba do Salgueiro fala que 'feito Moreno, eu vou viver por mais de cem anos o meu Salgueiro'. E Moreno é um desses personagens do cangaço, ele fazia parte do bando de Lampião, e ele era considerado o feiticeiro do bando. Nos relatos que a gente estudou, ele pegava os anéis dos cangaceiros, ele benzia esses anéis, ele pegava as facas do cangaço e também benzia essas facas, e ele confeccionava objetos para esses cangaceiros.
O enredo também vai contar a relação de outros povos e religiões com as práticas de fechamento do corpo. A escola vai mostrar que, entre os indígenas, a cura vem do poder da mata. No Candomblé, banhos de ervas e palavras encantadas garantem a proteção.
Para falar da Umbanda, o Salgueiro vai exaltar Seu Zé, um mestre curador que atua como protetor. Tido como advogado dos pobres e doutor das doenças da alma, do corpo e do espírito, a entidade tem forte ligação com a comunidade. É com ele, inclusive, que a escola abre o samba enredo, pedindo que Seu Zé alumie o morro e estenda o chapéu a quem pede socorro.
O enredista Igor Ricardo destaca a importância do orador para o salgueirense.
A umbanda acaba aglutinando várias religiões em uma só. E dentro dessa umbanda a gente tem uma figura específica, que é o Seu Zé Pilintra, que é uma entidade com quem o Salgueiro já tem uma certa intimidade, a gente já fez um enredo sobre os malandros em 2016. Então, é uma entidade que protege, sim, o Salgueiro, é uma entidade que o salgueirense gosta de falar, que o salgueirense tem gosto de cantar, então a gente encerra o desfile exaltando esse povo da umbanda, principalmente na figura do Seu Zé Pilintra, que é um protetor do Salgueiro.
Com a presença de ciganas da sorte, pombas-gira e o malandro batuqueiro, a Vermelho e Branco também vai apresentar figuras icônicas da cultura popular carioca ao longo do desfile. Tudo isso para confirmar que, no Carnaval, há espaço para tudo, menos para o preconceito.
OUÇA O SAMBA: https://www.youtube.com/watch?v=RQ-XEebeKGc
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