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'Taxa da farinha' imposta por milicianos se espalha por favelas dominadas pelo tráfico

Comerciantes de áreas controladas pela facção Terceiro Comando Puro, na Zona Norte, denunciam que são obrigados a comprar o produto das mãos dos criminosos

CLARA NERY

14/05/2025 • 10:50 • Atualizado em 14/05/2025 • 10:50

A “taxa da farinha” criada por milicianos na Zona Oeste já é registrada também em favelas dominadas por traficantes em outras regiões do Rio de Janeiro.

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Comerciantes de áreas controladas pela facção Terceiro Comando Puro, na Zona Norte, denunciam que são obrigados a comprar o produto das mãos dos criminosos. A existência da taxa foi revelada com exclusividade pela Rádio BandNews FM.

Em Acari, o crime organizado controla a venda da farinha e de várias outras matérias-primas usados por estabelecimentos comerciais e barraquinhas de rua. É o que conta essa testemunha, que teve a voz distorcida e a identidade preservada.

Eu não tenho essa opção, ou você compra com eles ou você não faz e vende o seu produto. Se você comprar fora, se eles pegarem, com certeza eles vão fechar o teu comércio. O vendedor, né, manda mensagem para falar sobre a farinha, sobre os pedidos. Quem não está comprando eles ficam em cima, entendeu? Fora o “gatonet, né? Fora Internet, fora o gás, gelo e a água. A água é R$ 14,00 um galão de água, tudo que você quiser comprar é tudo deles, diz a testemunha.

Ela ainda detalha como funciona o fornecimento da farinha pelos traficantes, que criaram uma espécie de "central de abastecimento" da própria comunidade.

Nós fazemos os pedidos, as farinhas, tudo pelo WhatsApp, e quem entrega é o pessoal do tráfico, entendeu? Eles têm um caminhão próprio que vai entregando nos comércios, aqui tem muita padaria. Na verdade, aqui é como se fosse um centro de distribuição de alimentos, tudo dele.

A denúncia ainda revela que se os traficantes não possuem a matéria-prima, exigem do comerciante uma nota fiscal informando o valor total gasto fora da favela. Em cima do montante é cobrado um pagamento de uma taxa de 10%.

Policiais da Delegacia de Repressão a Entorpecentes prenderam, no ano passado, Leonardo Alves da Silva, o Mustang, apontado como o gerente-geral do tráfico do complexo de favelas do Acari.

Ele foi localizado na Paraíba, onde mesmo a distância continuava ordenando. Mustang é acusado de ser o mandante da morte do inspetor da DRE, Ellery Ramos de Lemos, de 51 anos, em 2018.

No bairro vizinho de Fazenda Botafogo, a cobrança também passou a ser feita. No Complexo da Pedreira, os comerciantes são submetidos a várias taxas, e os moradores são obrigados a pagar R$ 150,00 por apartamento. Os que não pagam podem perder os imóveis em invasões ordenadas pelos criminosos.

Estão cobrando tudo daqui agora, todos os comércios estão pagando. Farinha, água, vassoura, gás e outros materiais que só podem comprar com eles. O apartamento vazio, eles estão invadindo, trocando a fechadura e tomando posse. Cada morador, cada apartamento tem que pagar R$ 150,00 de taxa e eles não pagam nem mais água, nem mais luz. É tudo na mão deles agora.

Já no Complexo da Maré, esse comerciante explica que chega a pagar R$ 120 por um saco de farinha.

Vila do Pinheiro, Baixa do Sapateiro, Morro do Timbal. É proibido comprar farinha de supermercado, de hipermercado, de loja atacados. A farinha tem que ser comprada na mão dos bandidos. Enquanto custa R$ 84,00, R$ 80,00 uma saca de farinha custa R$ 120,00.

TH da Maré, chefe do Terceiro Comando Puro no conjunto de favelas, foi morto durante operação policial nessa terça feira (13). Segundo a polícia, ele era responsável pela gestão de imóveis e comércio nas favelas da região.

Os moradores eram obrigados a pagar taxas para o tráfico ao comprar ou vender propriedades construídas por eles. Além disso, o comércio em dias de bailes só podia vender produtos definidos pelo tráfico.

A existência da "taxa da farinha" veio à tona após a denúncia de comerciantes da Vila Sapê, em Curicica, no fim de abril.

Na mesma região, em Paciência, um dono de uma padaria chegou a ser assassinado ao se recusar a pagar pelo produto da milícia, que é mais caro e de qualidade inferior.

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