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Taxa da farinha: tráfico cria "central de distribuição de alimentos" em favelas da Zona Norte

A logística montada pelo Terceiro Comando Puro conta com vendedores e entregadores, com a adoção da "taxa da farinha"

CLARA NERY

14/05/2025 • 17:40 • Atualizado em 14/05/2025 • 17:40

Os criminosos também cobram uma taxa de 10% em cima de materiais comprados por empresas maiores na região

Os criminosos também cobram uma taxa de 10% em cima de materiais comprados por empresas maiores na região

Reprodução

Traficantes criam uma espécie de central de distribuição para controlar a venda de alimentos em favelas da Zona Norte do Rio. A logística montada por criminosos do Terceiro Comando Puro conta com vendedores e entregadores, a partir da adoção da "taxa da farinha" pelo grupo.

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A existência da taxa, que começou em áreas de milícia, foi revelada pela Rádio BandNews FM, no mês passado.

Em Acari, o tráfico controla a venda da farinha e de várias outras matérias-primas. É o que conta essa testemunha, que teve a voz distorcida e a identidade preservada.

Eu não tenho essa opção, ou você compra com eles ou você não faz e vende o seu produto. Se você comprar fora, se eles pegarem, com certeza eles vão fechar o teu comércio. O vendedor, né, manda mensagem para falar sobre a farinha, sobre os pedidos. Quem não está comprando eles ficam em cima, entendeu? Fora o “gatonet, né? Fora Internet, fora o gás, gelo e a água. A água é R$ 14,00 um galão de água, tudo que você quiser comprar é tudo deles, diz a testemunha.

Ela ainda detalha como funciona o fornecimento do produto, com pedidos on-line e entregas de caminhão.

Nós fazemos os pedidos, as farinhas, tudo pelo WhatsApp, e quem entrega é o pessoal do tráfico, entendeu? Eles têm um caminhão próprio que vai entregando nos comércios, aqui tem muita padaria. Na verdade, aqui é como se fosse um centro de distribuição de alimentos, tudo dele.

Os criminosos também cobram uma taxa de 10% em cima de materiais comprados por empresas maiores na região.

Em Fazenda Botafogo, bairro vizinho, a cobrança também é feita aos comerciantes. Já os moradores são obrigados a pagar R$ 150,00 por apartamento.

Estão cobrando tudo daqui agora, todos os comércios estão pagando. Farinha, água, vassoura, gás e outros materiais que só podem comprar com eles. O apartamento vazio, eles estão invadindo, trocando a fechadura e tomando posse. Cada morador, cada apartamento tem que pagar R$ 150,00 de taxa e eles não pagam nem mais água, nem mais luz. É tudo na mão deles agora.

Já no Complexo da Maré, esse comerciante explica que chega a pagar R$ 120 por um saco de farinha, nas favelas dominadas pelo TCP.

Vila do Pinheiro, Baixa do Sapateiro, Morro do Timbal. É proibido comprar farinha de supermercado, de hipermercado, de loja atacados. A farinha tem que ser comprada na mão dos bandidos. Enquanto custa R$ 84,00, R$ 80,00 uma saca de farinha custa R$ 120,00.

TH da Maré, chefe do Terceiro Comando Puro no conjunto de favelas, foi morto durante operação policial nessa terça feira (13). Segundo a polícia, ele era responsável pela gestão de imóveis e comércio nas favelas da região.

Os moradores eram obrigados a pagar taxas para o tráfico ao comprar ou vender propriedades construídas por eles. Além disso, o comércio em dias de bailes só podia vender produtos definidos pelo tráfico.

A cobrança da "taxa da farinha" veio à tona após a denúncia de comerciantes da Vila Sapê, em Curicica, na Zona Oeste.

Na mesma região, em Paciência, um dono de uma padaria chegou a ser assassinado ao se recusar a pagar pelo produto da milícia, que é mais caro e de qualidade inferior.

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