Ameba que vive a 63 °C redefine limite conhecido da vida complexa
Organismo descoberto em fonte termal consegue se reproduzir sob calor extremo

Uma ameba microscópica encontrada em águas geotérmicas da Califórnia mostrou que a vida complexa suporta temperaturas maiores do que os registros anteriores indicavam. A Incendiamoeba cascadensis consegue se alimentar, crescer e completar sua divisão celular a 63 °C, estabelecendo um novo recorde conhecido para a reprodução de eucariotos, organismos formados por células que possuem núcleo.
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Pesquisadores da Syracuse University encontraram a espécie no Parque Nacional Vulcânico Lassen, região de fontes termais no norte da Califórnia. Amostras coletadas em diferentes pontos foram cultivadas em laboratório e submetidas a temperaturas progressivamente maiores. O comportamento da ameba revelou que o calor não é apenas tolerado pelo organismo. Ele faz parte das condições necessárias para seu desenvolvimento.
Os testes permitiram estabelecer diferentes limites para a nova espécie:
- 42 °C: faixa aproximada a partir da qual o crescimento se torna possível
- 63 °C: temperatura máxima registrada para reprodução
- 64 °C: a divisão celular para, mas a ameba continua ativa
- 66 °C: ainda foram observados sinais de movimento
- 70 °C: algumas células sobreviveram após exposição de cinco minutos
- 80 °C: não houve recuperação após a exposição
Até essa descoberta, temperaturas próximas de 60 °C marcavam a fronteira conhecida para o crescimento de eucariotos. Poucos graus podem parecer uma diferença pequena, mas representam uma mudança importante para células complexas. Proteínas, membranas e demais estruturas precisam permanecer funcionais em um ambiente no qual o calor pode alterar moléculas essenciais à sobrevivência. A pesquisa foi publicada na revista Cell em 22 de setembro.
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O nome Incendiamoeba faz referência ao fogo, enquanto cascadensis remete à região das Cascatas, onde o organismo foi identificado. A capacidade de enfrentar altas temperaturas também inclui uma estratégia de proteção. Sob condições extremas, a ameba pode assumir uma forma dormente envolvida por uma estrutura externa, aumentando sua resistência temporária ao ambiente.
A descoberta interessa à astrobiologia porque conhecer os extremos suportados por organismos terrestres ajuda a estabelecer parâmetros para investigar ambientes potencialmente habitáveis fora do planeta. A pesquisa sobre os limites da vida em altas temperaturas também permite compreender melhor quais características celulares tornam possível sobreviver onde a maioria dos eucariotos não consegue manter suas funções.
A equipe agora pretende investigar os mecanismos moleculares usados pela espécie para proteger DNA, proteínas e membranas. Esse conhecimento pode ultrapassar a questão do recorde térmico e contribuir para estudos de enzimas resistentes ao calor e processos biotecnológicos. Uma criatura microscópica encontrada em uma fonte termal passou, assim, a oferecer pistas sobre até onde uma célula complexa consegue funcionar.
