Ciência e Tecnologia

Como veneno do monstro-de-gila foi essencial na criação de canetas emagrecedoras? Conheça

A jornada do veneno do deserto até as prateleiras das farmácias é um poderoso lembrete da importância de preservar a biodiversidade

Da redação
DA REDAÇÃO

16/11/2025 • 17:58 • Atualizado em 16/11/2025 • 17:58

Lagarto e medicamento para emagrecer: conheça a relação entre eles

Lagarto e medicamento para emagrecer: conheça a relação entre eles

Reprodução/NPS e Reuters

Resumo

Descoberta do monstro-de-gila, lagarto do deserto dos EUA e México, revelou um peptídeo chamado Exendin-4 em sua saliva, semelhante ao hormônio humano GLP-1, fundamental para regulação do açúcar no sangue e do apetite.

Pesquisa liderada pelo Dr. John Eng nos anos 90 isolou o Exendin-4, que demonstrou maior resistência à degradação em comparação ao GLP-1 humano, permitindo desenvolvimento do medicamento sintético exenatida, aprovado em 2005 para tratamento do diabetes tipo 2.

Evolução farmacêutica resultou na criação da semaglutida, princípio ativo de remédios como Ozempic e Wegovy, comprovados em estudos clínicos para controle do diabetes e redução de até 15% do peso em pessoas com obesidade, utilizando versão sintética inspirada no hormônio do monstro-de-gila.

Na segunda prova do Enem 2025 uma questão chamou a atenção: ela citava um lagarto do deserto dos EUA, famoso por produzir um hormônio que inspirou os medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras. A história dessa relação é um exemplo de como a natureza ajuda a ciência.

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Monstro-de-gila

Nos áridos desertos do sudoeste dos Estados Unidos e do México, vive uma criatura de movimentos lentos e aparência intimidadora: o monstro-de-gila (Heloderma suspectum).

Conhecido por sua mordida venenosa e por passar até 95% de sua vida escondido em tocas, este lagarto guardava em sua saliva um segredo bioquímico que mudaria a vida de milhões de pessoas.

A história que conecta o réptil às modernas "canetas emagrecedoras" é um exemplo brilhante de como a natureza inspira a inovação farmacêutica.

Hormônio superpotente na saliva

A chave para essa conexão foi descoberta nos anos 90 pelo Dr. John Eng, um endocrinologista no Veterans Affairs Medical Center no Bronx, em Nova York. Intrigado pela biologia do monstro-de-gila, que pode sobreviver com apenas três ou quatro grandes refeições por ano, Dr. Eng decidiu investigar os componentes de seu veneno.

Monstro-de-gila (Foto: Reprodução/Nacional Park Service)

Monstro-de-gila (Foto: Reprodução/Nacional Park Service)

Ele isolou um peptídeo (uma pequena proteína) que chamou de Exendin-4. A grande surpresa, conforme detalhado em seus estudos publicados, foi que o Exendin-4 era notavelmente semelhante a um hormônio intestinal humano chamado GLP-1 (peptídeo-1 semelhante ao glucagon).

O GLP-1 é um hormônio crucial para a regulação do açúcar no sangue e do apetite. Liberado após uma refeição, ele:

  1. Estimula o pâncreas a liberar insulina.
  2. Suprime a produção de glucagon, um hormônio que eleva o açúcar no sangue.
  3. Retarda o esvaziamento do estômago, promovendo a saciedade.
  4. Atua em receptores no cérebro para reduzir a fome.

O problema? O GLP-1 humano é extremamente frágil, sendo degradado no corpo em poucos minutos. A descoberta do Dr. Eng foi revolucionária porque o Exendin-4 do monstro-de-gila fazia o mesmo trabalho do GLP-1, mas com uma vantagem crucial: ele resistia à degradação por horas.

A evolução havia dotado o lagarto de uma versão superpotente do hormônio para maximizar a digestão de suas raras refeições.

Do veneno ao medicamento

A indústria farmacêutica rapidamente viu o potencial. Cientistas criaram uma versão sintética do Exendin-4, chamada exenatida. Este foi o primeiro medicamento de uma nova classe, os "agonistas do receptor de GLP-1".

De acordo com o National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK), parte do National Institutes of Health (NIH) dos EUA, esses medicamentos se tornaram uma ferramenta fundamental no controle do diabetes tipo 2.

O primeiro a ser aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) foi o Byetta (exenatida), em 2005.

Semaglutida e a nova geração

Canetas emagrecedoras revolucionaram o tratamento da obesidade (Foto: Reuters)

Canetas emagrecedoras revolucionaram o tratamento da obesidade (Foto: Reuters)

A pesquisa não parou. Os cientistas refinaram a molécula para torná-la ainda mais duradoura, permitindo aplicações semanais em vez de diárias. Isso levou à criação da semaglutida, o princípio ativo de medicamentos famosos como Ozempic (aprovado para diabetes) e Wegovy (aprovado em dose mais alta para perda de peso crônica).

Estudos clínicos de grande escala, como o publicado no New England Journal of Medicine e conduzido por pesquisadores de instituições de ponta, incluindo a Northwestern University Feinberg School of Medicine, demonstraram que a semaglutida não só controlava o açúcar no sangue, mas também levava a uma perda de peso média de cerca de 15% em participantes com obesidade.

"O que começou como uma busca para entender a biologia de um animal único levou a uma das maiores ferramentas que temos hoje para combater as epidemias gêmeas de diabetes e obesidade", afirma a documentação da Yale Medicine, o braço clínico da Universidade de Yale.

É crucial entender: as canetas de Ozempic e Wegovy não contêm veneno de lagarto. Elas contêm uma substância sintética, projetada em laboratório, que foi inspirada na estrutura molecular encontrada na saliva do monstro-de-gila.

A jornada do veneno do deserto até as prateleiras das farmácias é um poderoso lembrete da importância de preservar a biodiversidade.

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