
Pinguins-papua, espécie que apresentou maior antecipação no ciclo reprodutivo
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Pesquisadores identificaram mudanças aceleradas no calendário reprodutivo de três espécies de pinguins que vivem em colônias compartilhadas na Antártica, indicando que o aquecimento global já está alterando o ritmo biológico dessas aves em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
O artigo, publicado na terça passada (20) no "Journal of Animal Ecology", analisou dados de reprodução de pinguins-adélia (Pygoscelis adeliae), gentoo (P. papua) e barbicha (P. antarcticus) coletados entre 2012 e 2022, a partir do monitoramento contínuo de colônias distribuídas pelo continente.
Segundo os autores, as três espécies passaram a iniciar a postura de ovos cada vez mais cedo em anos mais quentes. As áreas de nidificação analisadas apresentaram uma taxa de aquecimento significativamente superior à média da Antártica, com aumentos próximos de 0,3 °C por ano, frente a cerca de 0,07 °C no restante do continente.
A aceleração térmica teve impacto direto sobre a fenologia, isto é, o tempo dos eventos biológicos. A maior mudança foi observada entre os pinguins-papua, que anteciparam a temporada reprodutiva em 13 dias, em média, ao longo de uma década, chegando a até 24 dias em algumas colônias. Entre os pinguins-adélia e barbicha, o adiantamento médio foi de cerca de dez dias.
Os pesquisadores afirmam que a magnitude e a rapidez dessas alterações superaram as expectativas iniciais. Segundo o autor principal do estudo, o ecólogo espanhol Ignacio Juárez Martínez, os cientistas esperavam uma antecipação mais discreta do ciclo reprodutivo, mas se surpreenderam com a escala do fenômeno, que em diversas regiões já ultrapassa qualquer registro histórico conhecido.
Tradicionalmente, as três espécies apresentavam temporadas reprodutivas escalonadas. A antecipação generalizada, porém, passou a provocar sobreposições entre os ciclos, o que pode ampliar a disputa por áreas de nidificação livres de neve e por recursos alimentares. A reprodução dos pinguins está fortemente ligada à disponibilidade de alimento, e mudanças no gelo marinho tendem a afetar esse equilíbrio.
De acordo com os autores, o fenômeno pode favorecer os pinguins-papua, considerados mais adaptáveis a condições climáticas relativamente mais amenas, enquanto representa um desafio maior para espécies mais dependentes do gelo, como os pinguins-adélia e barbicha.
Observações de campo indicam que papua já ocupam ninhos anteriormente utilizados por outras espécies em algumas colônias, embora os impactos populacionais de longo prazo ainda não estejam determinados.
O estudo se baseou em imagens obtidas por 77 câmeras automáticas instaladas em 37 colônias, permitindo acompanhar o comportamento reprodutivo das aves ao longo de uma década, com mínima interferência humana. Segundo os pesquisadores, trata-se da mudança mais rápida já registrada na temporada reprodutiva de aves, com poucos paralelos conhecidos entre vertebrados.
Os cientistas ressaltam que ainda é cedo para avaliar se a antecipação do ciclo reprodutivo representa uma adaptação bem-sucedida às novas condições ambientais ou uma resposta forçada, com possíveis consequências negativas para o sucesso reprodutivo no médio e no longo prazo.
O próximo passo da pesquisa é avaliar a capacidade de cada espécie de garantir a sobrevivência dos filhotes em um cenário de aquecimento acelerado na Antártica.

