Ciência e tecnologia

Seu hálito pode revelar quando o corpo entra em cetose

Soprar em um pequeno aparelho pode fornecer uma pista sobre a maneira como o organismo está produzindo energia. O alvo não é o oxigênio nem o gás carbônico,

3 min

11/09/2026 07:00 • Atualizado há 7 horas

Seu hálito pode revelar quando o corpo entra em cetose

Soprar em um pequeno aparelho pode fornecer uma pista sobre a maneira como o organismo está produzindo energia. O alvo não é o oxigênio nem o gás carbônico, mas a acetona presente na respiração. Esse composto aumenta quando há maior produção de corpos cetônicos e pode ser medido sem agulhas, tiras de urina ou coleta de sangue.

Continua depois da publicidade

A explicação começa no metabolismo. Com menor disponibilidade de carboidratos, o fígado aumenta a produção de corpos cetônicos a partir de ácidos graxos. Entre eles estão o beta hidroxibutirato, geralmente medido no sangue, o acetoacetato e a acetona. Por ser volátil, parte da acetona chega aos pulmões e deixa o organismo na expiração. Sua concentração passa, então, a funcionar como um indicador indireto da cetose.

Levar essa medição para fora do laboratório é a parte tecnológica da história. Um detector portátil desenvolvido por pesquisadores ligados à ETH Zurich reúne sensor, controle da amostra respiratória e orientação por smartphone em um equipamento pensado para acompanhamento metabólico. O dispositivo foi validado com voluntários submetidos a exercícios e diferentes dietas. A proposta enfrenta uma dificuldade prática importante: detectar quantidades muito pequenas de acetona mesmo com a elevada umidade do ar expirado.

Não é necessário transformar o resultado em um número equivalente ao obtido no sangue para que a informação seja útil. Em um acompanhamento de 21 pessoas por 14 dias, medições simultâneas de acetona no hálito e beta hidroxibutirato apresentaram correlação moderada. Quando os pesquisadores consideraram a exposição aos dois marcadores ao longo do dia, a relação foi mais forte. Os próprios níveis de cetonas mostraram variações consideráveis no decorrer das horas.

Continua depois da publicidade

Essa característica também define o limite do sensor. Acetona respiratória e beta hidroxibutirato são substâncias diferentes, portanto uma leitura do hálito não deve ser interpretada automaticamente como substituição exata de um exame sanguíneo. A relação entre as duas medidas varia conforme alimentação, jejum, exercício e condições metabólicas. Um estudo com adultos saudáveis, por exemplo, encontrou comportamentos diferentes entre acetona e beta hidroxibutirato após refeições com pouco carboidrato.

Para quem acompanha uma dieta cetogênica, a vantagem potencial está na repetição. Respirar em um aparelho várias vezes é mais simples do que realizar sucessivas punções no dedo. Pesquisas com refeições cetogênicas já encontraram associação positiva entre acetona no hálito e corpos cetônicos no sangue, reforçando o interesse pela respiração como forma menos invasiva de acompanhar alterações metabólicas.

O mesmo princípio vem sendo estudado em contextos médicos, inclusive diabetes, mas cetose nutricional e cetoacidose diabética não são equivalentes. Em pessoas com diabetes tipo 1, trabalhos clínicos encontraram associação entre acetona respiratória e cetonas sanguíneas, com desempenho variável conforme as condições da medição. Isso exige cautela antes de tratar um aparelho doméstico como substituto de métodos clínicos estabelecidos.

Seguir a Band no Google

Tópicos relacionados