Dá pra criar conteúdo e ser low profile ao mesmo tempo?
Muito antes de trabalhar no mundo digital, eu já era uma pessoa bem low profile. Que, pra quem não fala a língua do “internetês”, é só o nome em inglês pro

Camila Rodrigues
Muito antes de trabalhar no mundo digital, eu já era uma pessoa bem low profile. Que, pra quem não fala a língua do “internetês”, é só o nome em inglês pro bom e velho “come quieto, come bem".
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E hoje, pela graça da hipocrisia, eu trabalho justamente com isso. Ensino gente a criar conteúdo, a construir marca, a pegar as experiências da própria vida e transformar em assunto pra conversar com o público. E eu continuo sem fazer isso com a minha. No meu próprio perfil, se eu apareço menos, falo menos, converso menos, as chances são duas. Ou eu tô numa fase PÉSSIMA, ou eu tô numa fase MARAVILHOSA, da minha vida ou do meu negócio. E você nunca vai saber qual das duas.
Por muito tempo eu achei que isso era um problema que ia se resolver com a prática. Não se resolveu, e eu tenho os meus motivos.
O primeiro é que compartilhar interrompe. Pra postar um momento bom, eu teria que parar o momento bom. Pegar o celular, procurar a luz, gravar de novo porque a primeira ficou ruim, pensar no que escrever, se vai ter música, se aquela foto combina com o resto do perfil. Quando eu termino de decidir tudo isso, o momento já passou e eu passei ele inteiro trabalhando. Eu só quero viver aquilo, sabe? E às vezes eu quero viver aquilo FEIA. Desarrumada, de cara lavada, com a roupa que eu tava em casa, sem precisar que aquele instante fique bonito pra mais ninguém além de mim.
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O segundo motivo é mais pessoal, mas eu tenho um medo GIGANTESCO de energia ruim. Sou muito supersticiosa, e não sei se quero os olhos de todo mundo em cima das minhas conquistas, ou comentando minhas falhas. (Pode rir. Mas ri baixinho, que vai que dá azar.)
Só que trabalhando com internet, a gente aprende rapidinho que tudo pode virar conteúdo. O dia bom vira um post de gratidão, a fase ruim vira um textão de superação, se eu levar um tombo na calçada isso rende um vídeo engraçado. Quem não segue essa lógica acaba ficando com a sensação maluca de que tá “desperdiçando material”.
Eu confesso que até hoje não aprendi a fazer isso. E eu sei que, se eu fizesse, provavelmente até teria mais engajamento. Contar a própria história, levar o público pra dentro do processo, mostrar bastidor, usar o que você viveu pra puxar conversa com quem te acompanha. Funciona, e eu continuo ensinando porque funciona.
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Então como é que uma pessoa que come quieto ensina os outros a abrir a boca?
Com a palavra que eu mais repito quando o assunto é marca. Depende.
Em marca, seja pessoal ou institucional, quase nada é regra. E ter uma marca pessoal não me obriga a abrir a minha vida inteira. O que eu mostro passa por um critério, e esse critério nunca é aleatório. Hoje a minha marca gira muito mais em torno de posicionamento, então, além da minha escolha pessoal do que eu quero ou não dividir, antes de mostrar qualquer pedaço da minha vida eu me pergunto se aquilo complementa o meu posicionamento. Isso alimenta a imagem que eu tô construindo? Reforça uma ideia que eu quero ver espalhada por aí? Se reforça, pode ser que entre. Se não, fica comigo, e tá tudo certo. Alcance sozinho nunca foi motivo pra eu postar nada. O que eu quero é que as pessoas aprendam comigo e me vejam do jeito certo, e pra isso ninguém precisa saber onde eu jantei ontem.
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Então, respondendo a pergunta lá de cima, eu acho que existe equilíbrio, sim. Uma história pessoal vale muito quando ela faz alguma coisa por quem tá do outro lado da tela. Quando a pessoa se reconhece nela, quando ela prova que aquele caminho leva a algum lugar, quando ela mostra por que você sabe do que tá falando.
Até porque a maior parte do que faz alguém lembrar de você tem a ver com o jeito que você enxerga as coisas e fala sobre isso. A sua opinião, o seu humor, a forma como você explica o que sabe, o que te irrita no seu mercado, o que você defende com unhas e dentes. Marca pessoal tá muito mais na sua perspectiva do que no seu rosto ou na sua rotina, e isso dá pra mostrar todo santo dia sem contar nada da sua vida.
Só que você olha pras maiores personalidades da internet, pras blogueiras, pros influenciadores que mostram até o que comeram no café da manhã, e conclui que é isso que uma marca pessoal exige. Eles escolheram fazer assim (e, pra muitos deles, mostrar a vida é o próprio trabalho). Você pode escolher outra coisa.
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Ainda tem muito proveito no silêncio, no que fica escondido, no que ninguém sabe. Quando você mostra tudo, ninguém mais fica curioso sobre nada, né? Fora que quem para cada momento pra gravar chega no fim do ano com a galeria do celular lotada e quase nenhuma lembrança que tenha sido só dele.
Por isso eu acho que a pergunta que vale fazer é quem a gente era antes de virar uma marca pessoal. Aquela pessoa que vivia as coisas sem pensar em como ia contar depois, que comemorava sem plateia, que ficava triste sem precisar transformar a tristeza em aprendizado pra ninguém. Ela ainda tá aí? Ou foi ficando pra trás, um post de cada vez, enquanto você aprendia a contar tudo?
E se tem momento que merece ser vivido sem registro, também precisa existir lugar onde ninguém cobra que nada fique bonito, bem feito ou perfeito. Um lugar pra pausar, fugir um pouquinho da tela e cuidar de você sem plateia nenhuma.
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A (Entre) Casa Criativa é esse lugar. Um espaço de oficinas e workshops artísticos feito por mulheres, onde a arte e o corpo viram cuidado com a saúde mental, e onde o que você cria com as mãos pode voltar pra casa com você sem ter que ser mostrado pra ninguém (a não ser que você queira).
É meu lugar favorito em Campinas, e tenho certeza que vai ser o seu também.
*O autor da coluna tem autonomia para defender suas opiniões, baseadas em fatos e dados. Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do portal Band Multi, nem do Grupo Bandeirantes.
