Eduardo Oinegue

45 tiros, uma morte e uma pergunta difícil de responder

Veja no comentário do âncora do Jornal da Band, Eduardo Oinegue

3 min

14/10/2026 23:43 • Atualizado há 3 horas

Toda vez que um direito fundamental se choca com uma obrigação do Estado, a gente enfrenta um conflito difícil. O maior dos direitos é o direito à vida. E entre as maiores obrigações do Estado está manter a ordem. Sem ordem vinga a barbárie, e na barbárie a vida acaba sendo a grande vítima.

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Mas o que fazer quando agentes do Estado, para manter a ordem, se veem diante da necessidade de tirar uma vida? No Brasil, esse conflito acontece o tempo todo. O volume anual de homicídios daqui chega perto da soma de Estados Unidos, União Europeia, China e Índia, que você junta e dá 17 vezes a nossa população. Nenhum cidadão desses países convive com tanta violência. E nenhuma polícia do mundo é exposta a tanta violência.

Brasil e Estados Unidos têm a mesma proporção de policiais, 2,4 por mil habitantes. Só que no Brasil acontecem 4 vezes mais homicídios para cada mil policiais. Onde você acha que a polícia trabalha com mais segurança? Nos Estados Unidos ou no Brasil? E a toda hora acontece um caso chocante. Nesse final de semana, teve mais um. Na madrugada de domingo, o 190 de São Paulo recebeu uma ligação informando que um homem armado ameaçava se matar.

A polícia foi até o local indicado e encontrou Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, que a certa altura se escondeu na entrada de uma loja, dizendo que estava armado. Os policiais fizeram o cerco e mandaram ele largar a arma. Lembre-se, madrugada. Escuridão. O que faz Gustavo? Ele parte em direção aos policiais segurando sua "arma" com as 2 mãos esticadas, em posição de ataque. E os policiais atiram. Foram 45 tiros em coisa de 5 segundos. Quatro policiais atiraram: um atirou 6 vezes, outro 12, outro 13 e o outro 14.

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As informações preliminares falam em 12 tiros no corpo, 4 em área letal. Estudos indicam que um policial pode levar meio segundo ou mais para parar de atirar depois de perceber que a ameaça acabou. Nesse tempo, pode disparar mais duas ou três vezes. E quando um colega atira, dobra a chance dos outros dispararem.

Depois a gente soube que Gustavo fazia tratamento de saúde mental, que foi ele quem chamou a polícia, que não tinha passagem criminal e que a arma era o celular dele. Nos últimos anos, Gustavo ligou para o 190 mais de 180 vezes. Na véspera do episódio, ele tinha chamado a polícia dizendo que viu um assaltante. A polícia só ficou sabendo dessas coisas depois. Na hora os policiais estavam diante de um homem que dizia que estava armado e que sacou a sua arma, num movimento de ataque claro, registrado pelas câmeras de segurança.

A investigação e a perícia precisam contar essa história em detalhes, e as autoridades devem uma explicação transparente. Pode ser que esse caso não tivesse solução. É possível. Mas o Estado, encarregado de manter a ordem, precisa ter ferramentas para também preservar a vida de quem não está no crime. Primeiro, porque uma vida se foi. Depois, para proteger os policiais e a confiança que a sociedade precisa ter na polícia.