A América do Sul realmente gosta de aprontar
Veja no comentário do âncora do Jornal da Band, Eduardo Oinegue

Eduardo Oinegue
Band
Tem tanta confusão no Brasil que às vezes a gente esquece que vive num continente. Acha que vive numa ilha. Até que aparece mais uma grande confusão como essa do Paraguai para lembrar que tem um monte de país grudado na nossa fronteira, e enrolado. É verdade que a América do Sul não rivaliza com a África, onde mais de 160 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda.
Continua depois da publicidade
Onde três países convivem com conflitos armados e outros três são governados por militares que chegaram ao poder por golpe de Estado. Mas o currículo de encrencas da América do Sul não é tímido. Na Bolívia, tem cinco anos que o presidente Evo Morales renunciou e dois que um general tentou derrubar o presidente Luis Arce, chegando a usar um blindado para arrombar a entrada do palácio presidencial. Acabou preso.
Na Colômbia, onde o narcotráfico financiou exércitos particulares e comprou políticos – e onde quatro candidatos presidenciais foram mortos num passado recente – em agosto do ano passado o senador e pré-candidato à Presidência Miguel Uribe, foi morto a tiros durante um ato político.
Na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner foi condenada por corrupção e o atual presidente não se bica com o colega brasileiro. E vice-versa, claro. No Peru, a sucessão de presidentes presos, destituídos ou investigados daria uma série de televisão. No Equador, um candidato à Presidência foi assassinado durante a campanha – e isso tem só três anos. Na Venezuela, bom essa dispensa comentários. As exceções sào o Uruguai e o Chile, que preservam a estabilidade institucional.
Continua depois da publicidade
Bom, neste momento, a América do Sul está de olho no Paraguai, onde o presidente renunciou depois do rolo com o banco Ueno Bank, que vem sendo sendo apresentado como o Master paraguaio. Só que é muito maior do que o Master. Dezoito vezes maior. O Ueno cresceu muito rápido, recebeu centenas de milhões de dólares de instituições públicas, inclusive da Previdência, e acabou sofrendo intervenção do Banco Central. O Ueno Bank tinha cerca de 3 milhões de clientes, quase metade da população do país. A intervenção deixou suas contas temporariamente bloqueadas.
O detalhe é que o presidente Santiago Peña até outro dia era investidor numa empresa ligada ao grupo que controlava o banco. E o presidente do Banco Central, responsável pela fiscalização, tinha sido dirigente do Ueno. O banco entrou em colapso, o presidente do Banco Central caiu, executivos passaram a ser investigados e Peña anunciou a renúncia. Só que o Congresso não aceitou a saída voluntária e abriu um processo de impeachment. A gente vai acompanhar o desfecho. A confusão brasileira é grande, mas a vizinhança de vez em quando trabalha para manter a tradição continental.
