Os candidatos a presidente estão nos enganando
A campanha desse ano deixou muitos vazios de propostas, mas há um buraco que é uma vergonha em tamanho próprio: a discussão sobre o que fazer com o
A campanha desse ano deixou muitos vazios de propostas, mas há um buraco que é uma vergonha em tamanho próprio: a discussão sobre o que fazer com o crescimento da dívida pública brasileira.
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Ninguém quis tocar no assunto com seriedade, ninguém apresentou um plano crível, ninguém teve a coragem de dizer ao eleitor o que o espera. E o dado saiu hoje: a dívida bruta do governo chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto em agosto, são R$ 11,1 trilhões, número que cresceu mais uma vez em relação ao mês anterior e que segue numa trajetória sem sinal de reversão.
O problema real não é só o tamanho da dívida. É o custo de rolar essa dívida. O Brasil paga a Selic, que está em 14,75% ao ano, e isso significa que o Tesouro transfere mais de R$ 1 trilhão por ano ao mercado financeiro só em juros, antes de construir uma escola, pagar um médico ou asfaltar uma estrada.
Esse é o monstro que a campanha inteira escolheu ignorar. E o monstro aparece em tudo. Aparece na prestação da geladeira e do carro. Aparece no financiamento imobiliário que transforma o valor do imóvel em dobro ao longo dos anos.
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Aparece no capital de giro que o pequeno empresário não consegue pagar e abandona o negócio. Aparece na impossibilidade de poupar num país onde a inflação corrói o que sobra no fim do mês. Aparece na carga tributária absurda que o governo é obrigado a manter porque precisa de receita para honrar uma dívida que cresce com juros de dois dígitos.
A taxa de juros alta não é um capricho do Banco Central: é a remuneração que o mercado exige para continuar emprestando a um governo que gasta mais do que arrecada de forma sistemática e persistente. Baixar os juros por decreto não resolve. Só uma trajetória fiscal crível, com reformas estruturais que mexam nos gastos obrigatórios que crescem no piloto automático, convenceria o mercado de que a conta vai fechar um dia.
Nenhum candidato apresentou isso. A esquiva foi elegante, calculada e, do ponto de vista eleitoral, racional, porque quem mostra a conta paga o preço nas urnas. O preço real, esse, quem paga é o Brasil, a partir do primeiro dia do mandato de quem ganhar.
