A vida não avisa quando vai nos ensinar sobre a dor
Há momentos em que a vida nos coloca diante de uma verdade para a qual nunca estaremos completamente preparados: somos todos frágeis diante da dor de perder

Arquivo pessoal
Há momentos em que a vida nos coloca diante de uma verdade para a qual nunca estaremos completamente preparados: somos todos frágeis diante da dor de perder alguém que amamos.
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Hoje, enquanto acompanho meu pai em uma luta que já dura mais de 40 dias na UTI, penso muito sobre a vida, a morte e as despedidas. Estou com ele todos os dias e vejo um homem que enfrenta as dores de uma doença grave, com metástases ósseas, precisando de morfina para aliviar o sofrimento.
E, diante daquela cena, há sentimentos que não cabem em palavras. Existe o amor, a impotência, a esperança e, sobretudo, a consciência de que não temos o controle de tudo. Aliás, controle quase de nada!
Meu avô, Audálio Dantas, deixou uma história que vai muito além do jornalismo. Foi um homem que marcou vidas, formou caminhos e construiu vínculos que não se desfazem com a morte.
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Entre esses vínculos estava sua relação com Juca Kfouri, um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro.
Quando meu avô morreu, Juca estava em Portugal. Havia entre eles uma “promessa”, um desejo de estar junto até o fim. Audálio dizia que morreria apenas com Juca por perto. E nós respeitamos aquele laço.
A despedida esperou. O velório se prolongou por cerca de três dias, enquanto aguardávamos o retorno de Juca ao Brasil, para que ele pudesse estar presente na cerimônia de cremação.
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Naquele momento, compreendi, como neta, a dimensão de uma amizade. Hoje, olhando para aquela história, percebo também que existem pessoas que se tornam família sem que o sangue seja necessário.
Pessoas que nos acompanham, nos ensinam, nos acolhem e deixam marcas tão profundas quanto as dos nossos próprios pais.
Para Juca, meu avô foi também uma referência, um mestre, uma espécie de pai no universo do jornalismo. E é impossível recordar essa história sem pensar na força dos vínculos que construímos ao longo da vida.
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Mas a vida, com sua delicadeza e sua crueldade, também nos apresenta dores para as quais não existe preparação.
Hoje, Juca enfrenta a perda de Camila, sua única filha mulher, uma mulher de idade próxima à minha. E essa notícia me atravessa de uma maneira particular...
Não consigo olhar para essa dor sem pensar no meu pai, na sua luta, no que tenho vivido dentro de um hospital e em tudo aquilo que uma família experimenta quando alguém que ama está entre a permanência e a despedida.
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Não pretendo comparar sofrimentos: a dor não é uma competição, e cada família conhece a dimensão do próprio abismo.
Mas há notícias que nos fazem parar por alguns instantes e olhar para a vida com outros olhos. A morte de um pai faz parte da ordem que aprendemos a reconhecer como natural. Ainda que doa profundamente, esperamos que os mais velhos partam antes de nós.
Perder um filho, porém, toca em uma das nossas ideias mais fundamentais sobre a existência: a de que a vida seguirá uma ordem, de que haverá tempo para tudo, de que os pais terão mais tempo para acompanhar os filhos e de que a despedida chegará quando estivermos preparados.
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Mas a vida não assina esse compromisso conosco.
Ela não promete longevidade, não garante despedidas tranquilas e não nos assegura que teremos a oportunidade de dizer tudo o que sentimos. Não escolhe suas dores de acordo com a idade, a história ou o tamanho do amor que existe entre duas pessoas.
A gente passa tanto tempo tentando resolver problemas, provar alguma coisa, conquistar espaço, acumular reconhecimento, vencer discussões e dar conta de responsabilidades que, às vezes, esquece que tudo isso acontece dentro de um intervalo chamado existência: um intervalo que não sabemos quanto vai durar.
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Aos 46 anos, com filhos para criar, responsabilidades para cumprir e tantas batalhas acontecendo ao mesmo tempo, começo a entender que amadurecer também é reconhecer os próprios limites. Compreender que não somos fortes o tempo inteiro.
Que há dias em que tudo o que conseguimos fazer é estar presentes. E estar presente, às vezes, é muito.
É sentar ao lado de um pai doente sem saber o que dizer, segurar uma mão, respeitar o silêncio. É amar mesmo quando não podemos aliviar a dor e entender que não temos respostas para todas as perguntas.
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É também olhar para a dor de outra pessoa e não tentar explicá-la, diminuí-la ou encontrar uma frase bonita que resolva o inexplicável. Há sofrimentos que pedem apenas respeito.
Na história do meu avô, houve uma espera para que um amigo pudesse se despedir. Na história do meu pai, há dias de angústia, tratamento e incerteza. Na história de Juca, há agora uma ausência que nenhuma palavra minha pode dimensionar.
São histórias diferentes, dores diferentes, vidas diferentes. Mas todas nos lembram da mesma coisa: por trás de cada nome conhecido, de cada trajetória admirada e de cada pessoa que parece forte aos olhos do mundo, existe alguém que ama, que teme perder e que também precisa de colo.
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Hoje, é isso que eu queria dizer às mulheres que me acompanham no No Ritmo Delas.A vida não acontece somente nos grandes acontecimentos que publicamos, nas vitórias que celebramos ou nas imagens em que parecemos dar conta de tudo.
Ela também acontece nos corredores dos hospitais, nas conversas difíceis, nas lágrimas escondidas, nas mãos que se procuram e nas despedidas para as quais nunca encontramos a palavra certa.
Hoje, não tenho uma lição pronta para oferecer. Não quero transformar a dor em ensinamento obrigatório, porque há sofrimentos que precisam primeiro ser vividos, respeitados e acolhidos.
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Tenho apenas uma certeza: não devemos esperar que a vida nos coloque diante da possibilidade da perda para perceber o valor de quem está ao nosso lado.
Se existe algo que essas histórias me ensinam, é que o amor não elimina a dor da despedida, mas dá sentido ao tempo que compartilhamos. E, enquanto há tempo, que a gente tenha coragem de amar, paciência para ouvir, generosidade para perdoar e sensibilidade para compreender que ninguém sabe exatamente a batalha que o outro enfrenta.
A vida é delicada. O tempo é incerto. E o amor, esse sim, é o que permanece em nós mesmo quando tudo o mais parece escapar das nossas mãos.
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No ritmo da vida, nem sempre podemos escolher o que enfrentamos. Mas podemos tentar não deixar para amanhã o amor, o cuidado e a presença que ainda podemos oferecer hoje.
