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No ritmo delas
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O sobrenome que carrego, as palavras que preciso calar

Sou neta paterna de Audálio Dantas. Jornalista, escritor, homem público e uma das vozes importantes na defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos

6 min

16/10/2026 12:39 • Atualizado há 8 dias

O sobrenome que carrego, as palavras que preciso calar

ARQUIVO PESSOAL

Sou neta paterna de Audálio Dantas. Jornalista, escritor, homem público e uma das vozes importantes na defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos no Brasil. Um homem que compreendeu que o jornalismo não existe apenas para registrar os acontecimentos, mas também para questionar o poder, denunciar injustiças e dar voz a quem tentam silenciar.Audálio não foi apenas um contador de histórias. Foi protagonista de algumas das páginas mais importantes da história política do jornalismo brasileiro.Na presidência do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, em 1975, enfrentou um dos períodos mais sombrios da nossa história. Diante da morte do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências da ditadura militar, ajudou a transformar a indignação em um ato histórico de resistência. A celebração ecumênica realizada na Catedral da Sé reuniu milhares de pessoas e se tornou um marco na reação da sociedade à violência do regime.Naquele momento, Audálio entendeu que o silêncio imposto pelo medo precisava ser enfrentado. Que a liberdade não poderia depender da autorização de quem estava no poder. Que a dignidade humana não deveria se curvar à conveniência política.Ele também teve atuação política como deputado federal pelo MDB, levando para a vida pública sua experiência de jornalista e sua preocupação com os direitos humanos. Sua trajetória não se limitou a escrever sobre o Brasil: ele participou ativamente das disputas sobre os rumos do país.É impossível ser neta de um homem com essa história e não pensar no significado de sua herança.E é impossível, também, não sentir um nó na garganta quando olho para o Brasil de hoje.Sou jornalista há décadas. Construí minha trajetória trabalhando, apurando, escrevendo, dirigindo, editando e contando histórias. Aprendi que a palavra tem força, que a informação tem responsabilidade e que a liberdade de expressão é um dos pilares de qualquer sociedade democrática.Mas hoje existe uma contradição que me atravessa.Tenho vontade de falar. De me posicionar. De expressar minhas inquietações diante de um país tão polarizado, de uma disputa política que desperta tantas emoções e de atitudes que, na minha percepção, colocam à prova o respeito ao debate democrático.E, muitas vezes, preciso me calar.Não porque não tenha opinião. Não porque me faltem argumentos. Muito menos porque desconheça a história do meu país.Eu me calo porque sou mãe. Porque tenho filhos que precisam ser protegidos das consequências de conflitos que não escolheram viver. Porque existe uma história pessoal que não quero ver transformada em munição numa guerra política. E porque tenho uma carreira construída com muito trabalho, especialmente no jornalismo, dentro de uma emissora onde preciso preservar minha responsabilidade profissional.Trabalho na Band. Tenho orgulho da minha trajetória e sei o quanto custou chegar até aqui. Mas, em tempos de polarização, até uma manifestação pessoal pode ser interpretada como declaração institucional, gerar julgamentos e produzir consequências que vão muito além daquilo que realmente quisemos dizer.É um sentimento difícil de explicar: ter a palavra como instrumento de trabalho e, ao mesmo tempo, sentir que nem sempre pode usá-la livremente para expressar tudo aquilo que pensa.Não estou dizendo que não posso falar. Estou dizendo que há um preço que preciso considerar antes de fazê-lo. E essa ponderação, quando nasce do medo de expor os filhos, comprometer uma trajetória profissional ou colocar a própria história sob julgamento, merece reflexão.Porque liberdade de expressão não significa ausência de responsabilidade. Mas também não deveria significar que uma pessoa precise viver calculando cada frase por receio de ser reduzida a um rótulo político.O respeito à democracia exige espaço para a divergência. Exige que possamos discordar sem desumanizar, questionar sem intimidar e defender nossas convicções sem transformar quem pensa diferente em inimigo.Por isso que a história do meu avô me acompanha de maneira tão intensa neste momento.Audálio enfrentou um contexto histórico de repressão estatal, censura e violência política. Não seria correto afirmar que vivemos hoje uma situação idêntica àquela ditadura. Mas a memória de quem lutou contra ela nos oferece uma referência para pensar sobre os limites que jamais deveríamos deixar de defender: a liberdade de imprensa, o pluralismo, o respeito aos direitos fundamentais e a possibilidade de questionar aqueles que exercem o poder.Em Tempo de Luta, encontro um título que parece conversar com diferentes gerações da minha família.Meu pai, que hoje enfrenta uma batalha pela vida em uma UTI, também tem suas convicções políticas. É eleitor de Lula e tem o direito de acreditar no projeto político que considera melhor para o país. A saúde dele, porém, me colocou diante de algo muito maior do que qualquer disputa eleitoral: a fragilidade da vida, a impotência de quem ama e a necessidade de encontrar forças quando o futuro é incerto.Há mais de um mês, vivo entre esperanças, notícias médicas, procedimentos e a angústia de não saber o que virá. E, nesse cenário, pensar no meu avô e no meu pai é pensar em duas gerações que fazem parte da minha identidade, cada uma com suas experiências, suas lutas e suas convicções.Audálio também escreveu O Menino Lula, obra que nos remete à infância e à trajetória de um personagem central da política brasileira. Dois livros, duas referências a um país que se transforma, mas que continua discutindo suas desigualdades, suas escolhas e os caminhos para o futuro.Não quero usar a história do meu avô para determinar como ninguém deve votar. Tampouco quero transformar a doença do meu pai em argumento eleitoral. Quero apenas reconhecer que a política faz parte da nossa vida, mesmo quando tentamos mantê-la distante dos momentos mais íntimos.Essa é a maior inquietação que carrego: a vontade de falar sobre o que penso, de discutir o país que estamos construindo e de honrar a história de um homem que dedicou parte da vida a defender a liberdade, enquanto tento preservar aquilo que também é precioso para mim.Meus filhos, meu amor, minha família, minha trajetória, meu trabalho...Há dias em que me pergunto como meu avô reagiria ao ver a própria neta fazendo esse exercício constante de ponderação antes de se manifestar. Não tenho como saber. Mas sei o que sua história representa para mim: a lembrança de que o jornalismo e a democracia precisam de pessoas dispostas a pensar, questionar e não esquecer.Talvez eu ainda não consiga dizer publicamente tudo o que gostaria. Talvez algumas reflexões precisem amadurecer, encontrar o momento e o espaço certos. Isso não significa que eu tenha deixado de pensar, de observar ou de me importar.O silêncio circunstancial de uma pessoa não apaga sua consciência. E a prudência não precisa significar desistência.Sou neta de Audálio Dantas. Sou filha de um homem que, neste momento, luta pela vida. Sou mãe de filhos que quero proteger. E sou uma jornalista que construiu sua história com trabalho e que continua acreditando na importância da palavra.Carrego todas essas mulheres dentro de mim: a neta, a filha, a mãe, a namorada e a profissional, tentando encontrar equilíbrio entre o que sinto, o que penso e o que posso dizer.Talvez essa seja a minha luta de agora: não abrir mão da minha consciência, mesmo quando preciso escolher cuidadosamente minhas palavras.Meu avô me deixou uma história. Meu pai me lembra, todos os dias, que a vida é preciosa. Meus filhos me recordam que o futuro precisa ser protegido.E eu sigo tentando honrar tudo isso sem perder a minha própria voz.Há heranças que não estão no sangue nem nos sobrenomes. Estão nas perguntas que não conseguimos deixar de fazer, nas injustiças que não conseguimos ignorar e na liberdade que, mesmo quando não podemos exercer da maneira que gostaríamos, continuamos reconhecendo como um direito fundamental.Essa é a história que carrego. E essa também é a luta que, à minha maneira, continuo travando.

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