Eleições 2026Contagem regressiva para o 2º turno
0dias
:
00horas
:
28min
:
09seg
Sustentabilidade e Regeneração
Sustentabilidade e Regeneração

O clima mudou. Vamos prevenir ou reconstruir nossas cidades?

Durante décadas, o debate sobre mudanças climáticas esteve concentrado principalmente em uma missão: reduzir as emissões de gases de efeito estufa para

4 min

08/10/2026 15:07 • Atualizado há 16 dias

O clima mudou. Vamos prevenir ou reconstruir nossas cidades?

Imagem de internet

Durante décadas, o debate sobre mudanças climáticas esteve concentrado principalmente em uma missão: reduzir as emissões de gases de efeito estufa para impedir o aumento da temperatura global. Essa continua sendo uma prioridade absoluta. Porém, existe uma realidade cada vez mais difícil de ignorar: o clima já mudou e precisamos também nos preparar para viver neste novo cenário.

Continua depois da publicidade

Ondas de calor, secas prolongadas, chuvas extremas, enchentes e deslizamentos deixaram de ser acontecimentos excepcionais. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os anos entre 2015 e 2025 foram os onze mais quentes já registrados, e os eventos extremos continuam causando impactos humanos e econômicos em diversas regiões do planeta.

É neste contexto que uma palavra começa a ganhar cada vez mais importância na agenda climática mundial: adaptação.

Prevenir também é política climática

Existe uma diferença importante entre mitigação e adaptação.

Continua depois da publicidade

Mitigar significa atuar nas causas do aquecimento global: reduzir emissões, abandonar progressivamente combustíveis fósseis, combater o desmatamento, ampliar energias renováveis e construir uma economia de baixo carbono.

Adaptar significa preparar nossas cidades, empresas e comunidades para impactos climáticos que já estão acontecendo ou que dificilmente conseguiremos evitar.

Isso significa melhorar sistemas de drenagem, recuperar matas ciliares, ampliar áreas verdes urbanas, criar sistemas de alerta, revisar ocupações em áreas de risco, adaptar estradas, hospitais e escolas, proteger mananciais e preparar cidades para períodos de calor extremo.

Continua depois da publicidade

Não significa desistir de combater as mudanças climáticas. Significa reconhecer a realidade.

A conta já chegou

No Brasil, não estamos falando de projeções para 2050 ou 2100. Segundo dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil, apresentados pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima no Plano Clima Adaptação, entre 2015 e 2024 eventos relacionados ao clima atingiram 4.708 municípios brasileiros, aproximadamente 84,5% das cidades do país, provocando cerca de R$ 455,5 bilhões em prejuízos e danos materiais públicos e privados. No mesmo período, aproximadamente 1,7 milhão de moradias foram danificadas e mais de 293 mil destruídas.

Os números ajudam a mudar a pergunta.

Continua depois da publicidade

Talvez não devamos mais questionar quanto custa investir em adaptação climática.

Precisamos perguntar: quanto custa não investir?

O Banco Mundial estimou que investimentos em infraestrutura resiliente em países em desenvolvimento podem gerar aproximadamente US$ 4 em benefícios para cada US$ 1 investido, principalmente pela redução de prejuízos, interrupções econômicas e reconstruções futuras.

Continua depois da publicidade

É a velha lógica da prevenção aplicada ao clima.

Mas quem paga?

Aqui começa uma das discussões mais complexas dos próximos anos.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima que os países em desenvolvimento precisarão de aproximadamente US$ 310 bilhões a US$ 365 bilhões por ano até 2035 para adaptação climática. Entretanto, o fluxo internacional de financiamento público destinado à adaptação foi de apenas US$ 26 bilhões em 2023. Ou seja, a necessidade é atualmente entre 12 e 14 vezes maior que os recursos disponíveis.

Continua depois da publicidade

Governos não terão capacidade de financiar essa transformação sozinhos.

Bancos, seguradoras, empresas, fundos de investimento e organismos internacionais deverão participar cada vez mais desse processo.

Não por acaso, neste mês de agosto, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) participou da São Paulo Climate Week justamente de um painel com uma pergunta bastante objetiva: “Quem paga pela adaptação?”. O encontro discutiu financiamento, seguros, infraestrutura resiliente e mecanismos para proteger cidades dos eventos climáticos extremos.

Continua depois da publicidade

Não é apenas uma discussão ambiental.

É uma discussão econômica.

Reconstruir ou preparar?

Durante muito tempo construímos cidades considerando como referência o clima do passado.

Continua depois da publicidade

Talvez esse seja um dos maiores erros que teremos de corrigir.

Uma drenagem projetada décadas atrás pode não suportar as chuvas de hoje. Uma cidade praticamente sem arborização pode se tornar insuportável durante ondas prolongadas de calor. Moradias construídas próximas de rios podem enfrentar enchentes cada vez mais recorrentes.

O próprio Ministério das Cidades passou a orientar estados e municípios para incorporar a adaptação climática às políticas urbanas, reconhecendo que as cidades estão na linha de frente desses impactos.

Continua depois da publicidade

O desafio agora é transformar conhecimento em planejamento e planejamento em obras.

Continuaremos gastando bilhões reconstruindo cidades depois de cada desastre ou começaremos a investir seriamente para evitar que os mesmos prejuízos aconteçam novamente?

A emergência climática está mudando também nossa definição de desenvolvimento.

Continua depois da publicidade

Uma cidade moderna não será apenas aquela que cresce. Será aquela capaz de continuar funcionando quando o clima deixar de funcionar como antes.

O clima mudou. Vamos prevenir ou reconstruir nossas cidades? | Portal Band