
Para fugir dos juros do cartão, brasileiros resgatam o hábito do crediário
Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Com as taxas do rotativo do cartão de crédito atingindo níveis alarmantes, o brasileiro está mudando sua estratégia de consumo. Dados divulgados pelo Banco Central (BC) apontam que os juros do rotativo chegaram a 432,1% ao ano, em abril, consolidando-se como uma das modalidades de crédito mais caras do país. Em um cenário onde 80,9% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida — o maior patamar da série histórica, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC/CNC) —, a busca por alternativas mais seguras tornou-se uma questão de sobrevivência financeira.
Com este cenário, o tradicional crediário ressurge como uma ferramenta de proteção. Um levantamento da Top One Financeira indica um crescimento de 11,6% nas operações via crediário nos cinco primeiros meses de 2026 em comparação ao mesmo período do ano passado, com um tíquete médio de R$ 1.543 em compras de bens duráveis, como eletrônicos e eletrodomésticos.
A periculosidade do cartão de crédito reside em sua mecânica: quando o consumidor não quita o valor integral da fatura e opta pelo pagamento mínimo, o saldo devedor entra automaticamente no regime de juros rotativos. Devido à capitalização composta, uma dívida não paga pode ter seu valor quadruplicado em apenas 12 meses, gerando um efeito "bola de neve" quase impossível de conter para quem já está com o orçamento pressionado.
Considerando que a taxa média no crédito livre às famílias atingiu 63% ao ano em abril, o parcelamento via boleto no ponto de venda passou a ser visto como uma tábua de salvação.
Previsibilidade: a força do crediário
Diferente da incerteza que pode cercar as faturas de cartão, o crediário opera sob uma lógica de financiamento fechado. A principal vantagem é a previsibilidade: a taxa de juros é prefixada no momento da compra e o valor das parcelas permanece inalterado até o fim do contrato. Isso blinda o consumidor contra a volatilidade das taxas bancárias e garante que o compromisso caiba exatamente no planejamento mensal.
Vanderley Cardoso de Moraes, CEO da Top One Financeira, observa que essa mudança de comportamento revela uma postura mais defensiva e madura do comprador. "O cartão de crédito virou uma armadilha para quem não consegue zerar a fatura. O consumidor entra no rotativo sem perceber e os juros dobram a dívida em poucos meses", avalia.
Para o executivo, o crediário oferece uma alternativa mais realista: "Ele permite que a compra seja feita com uma parcela previsível, dentro da capacidade real de pagamento e sem o risco dos juros compostos do cartão. O que vemos em 2026 é uma redefinição da porta de entrada do crédito no varejo físico."
Como usar o crédito a seu favor
Para não comprometer o orçamento, a orientação dos especialistas é clara: o cartão de crédito deve ser utilizado apenas para despesas que possam ser pagas integralmente no mês. O parcelamento sem juros no cartão só é estratégico se o consumidor tiver a garantia de quitar a fatura total. Caso exista a mínima possibilidade de depender do pagamento parcial, a recomendação é priorizar modalidades com parcelas fixas e juros definidos desde o início, como o crediário, garantindo assim que o sonho de consumo não se transforme em um pesadelo financeiro.
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