Economia

Dólar dispara e fecha acima de R$ 5 com áudio de Flávio Bolsonaro a Vorcaro

Mercado reagiu a mensagens entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro e a medidas do governo Lula para segurar combustíveis

Da redação
DA REDAÇÃO

13/05/2026 • 18:29 • Atualizado em 14/05/2026 • 01:28

O dólar disparou e voltou a fechar acima de R$ 5 nesta quarta-feira (13), após o mercado reagir à divulgação de mensagens que mostram proximidade entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O avanço da moeda americana também foi impulsionado pelo temor de aumento do risco fiscal com novas medidas do governo Luiz Inácio Lula da Silva para conter os preços dos combustíveis.

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A moeda americana chegou a bater R$ 5,0130 na máxima do dia e encerrou a sessão cotada a R$ 5,0086, em alta de 2,31%, no maior valor de fechamento desde 10 de abril. Foi a primeira vez em quatro pregões que o dólar terminou acima da marca de R$ 5. Com a valorização desta quarta, a moeda passou a acumular alta de 1,13% em maio. No ano, porém, ainda registra queda de 8,75%.

O mercado já operava em tom cauteloso ao longo da sessão, mas a pressão sobre o câmbio se intensificou após reportagem publicada pelo Intercept Brasil revelar trocas de mensagens entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Em uma das conversas, o senador afirma ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.

Segundo a publicação, os dois discutiriam uma negociação para financiar o filme biográfico “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O projeto teria previsão de aporte de US$ 24 milhões por parte de Vorcaro.

“Dark Horse” é o novo filme sobre Jair Bolsonaro | Crédito: Reprodução/Instagram/@therealjimcaviezel

“Dark Horse” é o novo filme sobre Jair Bolsonaro | Crédito: Reprodução/Instagram/@therealjimcaviezel

A leitura predominante entre agentes financeiros foi a de que a notícia aumentou a incerteza sobre a corrida presidencial de 2026, em um momento em que parte do mercado vinha reduzindo prêmios de risco diante do crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais. Investidores avaliavam que o fortalecimento do senador poderia abrir caminho para uma mudança na condução da política econômica a partir de 2027.

A reação foi imediata nos ativos domésticos. Além da alta do dólar, houve aumento da procura por proteção cambial e piora na percepção de risco brasileiro. Operadores relataram desmontagem acelerada de posições vendidas na moeda americana, movimento que ampliou a pressão sobre o real.

“O mercado aproveitou esses fatos para promover uma realização de lucros mais forte no câmbio”, afirmou Jacques Zylbergeld, superintendente de câmbio do Banco Rendimento. Segundo ele, a disparada ganhou força com ordens automáticas de proteção (“stops”) em um momento em que o real acumulava forte valorização no ano.

Até a terça-feira (12), o dólar registrava perdas superiores a 10% frente ao real em 2026, impulsionado principalmente pelo diferencial elevado de juros no Brasil e pela alta das commodities, especialmente do petróleo. Para analistas, o movimento desta quarta-feira indica que fatores domésticos voltaram a ocupar papel central na formação do câmbio.

Além do ruído político, investidores demonstraram desconforto com novas medidas anunciadas pelo governo Lula para tentar reduzir preços e estimular a atividade econômica. Entre elas estão a edição da chamada “MP das blusinhas”, que elimina o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, e o anúncio de subsídios para conter os preços dos combustíveis.

A avaliação de parte do mercado é que as iniciativas reforçam o temor de deterioração fiscal e aumento da intervenção econômica em meio à desaceleração da atividade e à queda de popularidade do governo. “O real vinha sendo beneficiado por fundamentos positivos, como juros elevados e melhora dos termos de troca. Isso não mudou. Mas o mercado começa a olhar mais para os riscos domésticos, sobretudo políticos e fiscais”, afirmou Zylbergeld.

No exterior, o cenário também favoreceu o fortalecimento global do dólar. Dados divulgados nos Estados Unidos mostraram alta acima do esperado do índice de preços ao produtor (PPI) em abril, um dia após a inflação ao consumidor também vir pressionada. O resultado reforçou a percepção de que o Federal Reserve poderá manter os juros elevados por mais tempo.

Com isso, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano avançaram ao longo do dia, aumentando a atratividade da moeda americana frente a divisas emergentes. O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, subia cerca de 0,2% no fim da sessão, aos 98,48 pontos.

Apesar da pressão externa, operadores destacaram que o real teve desempenho pior do que outras moedas latino-americanas, como o peso mexicano e o chileno, sinalizando que os fatores domésticos foram decisivos para a disparada do câmbio.

Também esteve no radar do mercado a divulgação da pesquisa Genial/Quaest, que mostrou melhora da aprovação do governo Lula e o presidente numericamente à frente de Flávio Bolsonaro em cenários para a eleição presidencial de 2026.

Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, a reação desta quarta mostra que o noticiário político-eleitoral deve ganhar peso crescente sobre os ativos brasileiros nos próximos meses. “Há alguns meses, o mercado vinha acompanhando o crescimento de Flávio nas pesquisas, e isso ajudava a reduzir prêmios de risco. A divulgação dessa notícia muda a percepção e provoca uma reação negativa dos ativos, talvez até exagerada no curto prazo”, afirmou. “A tendência é de aumento da volatilidade no câmbio conforme a eleição começar a entrar mais fortemente no radar dos investidores.”

Com informações do Estadão Conteúdo.