Cursinhos populares abrem caminhos para estudantes na região de Campinas
Iniciativas comunitárias ampliam o acesso à universidade, promovem autonomia feminina
Na região de Campinas, histórias como as de Maria Aline Siqueira, Samira Eloá da Silva, Marcela Dias, Yukkie Alex, Maressa Pinheiro e Giovanna Quésia mostram como a educação popular pode transformar trajetórias. Entre jornadas de trabalho, dificuldades financeiras e responsabilidades familiares, essas mulheres encontraram nos cursinhos populares uma oportunidade de ampliar seus horizontes.
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Segundo levantamento da Fundação FEAC, existem aproximadamente 30 cursinhos populares em Campinas e região. Desse total, 19 se inscreveram no edital do projeto Fortalece Cursinhos Populares, que selecionou dez iniciativas de Campinas para receber apoio financeiro e pedagógico.
Mantidos frequentemente pelo trabalho de voluntários, esses espaços buscam democratizar o acesso ao ensino superior e reduzir desigualdades educacionais. Mais do que ensinar os conteúdos exigidos nos vestibulares, estimulam o pensamento crítico, a consciência sobre direitos e a participação coletiva na transformação da sociedade.
A reportagem ouviu integrantes de quatro cursinhos populares da região: Flor de Maio, Lélia Gonzalez, Marielle Franco e Sankofa. Os últimos dois foram contemplados pelo projeto Fortalece Cursinhos Populares. Os relatos revelam tanto o potencial transformador da educação quanto os obstáculos enfrentados para manter essas iniciativas em funcionamento.
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Educação e autonomia: caminhos para romper ciclos de violência
Mulher negra, lésbica e criada em Jundiaí (SP), Maria Aline Siqueira começou a trabalhar ainda na adolescência. Durante dez anos, permaneceu na mesma empresa, dividindo a rotina entre o emprego e os cuidados com a casa.
Embora tivesse estabilidade profissional, sentia que suas possibilidades de futuro estavam limitadas. A segurança de uma rotina conhecida convivia com o desejo de mudança.

Maria Aline relatou os desafios de estudar e trabalhar
Crédito: Pedro Sardeli/Reprodução/Band Campinas
“Eu me sentia muito presa por essa ideia de estabilidade, mesmo não estando feliz. Eu tinha um emprego onde me sentia confortável e desconfortável ao mesmo tempo”, conta.
A decisão de voltar a estudar surgiu como uma tentativa de transformar essa realidade. Maria Aline se matriculou no cursinho popular Emancipa, em Jundiaí, ainda sem saber exatamente qual caminho seguir.
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Durante as aulas, descobriu que a preparação para a universidade ia além das disciplinas tradicionais. Aprendeu sobre políticas de inclusão, cotas, prazos de inscrição e estratégias de permanência no ensino superior. Também encontrou incentivo para acreditar que aquele espaço poderia fazer parte de sua trajetória.
Hoje, Maria Aline está no terceiro ano de Geografia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Apaixonada por trabalhos de campo e excursões acadêmicas, pretende seguir carreira como professora.
“Olhando para trás, não consigo imaginar como seria a minha vida se eu não tivesse dado esses passos”, afirma e, ao refletir sobre o que diria à própria versão mais jovem, resume a experiência em uma frase se pudesse volta à época da escola: “Confiaria mais em mim”.
A trajetória de Maria Aline evidencia como o acesso à educação pode ampliar a autonomia e oferecer novas perspectivas de vida a mulheres que enfrentam desigualdades sociais, raciais e de gênero.
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Samira e Arthur: uma geração que questiona o machismo
Aos 17 anos, Samira Eloá da Silva já reconhece na educação uma possibilidade de romper padrões que marcaram a história das mulheres de sua família.
Moradora de Hortolândia, a jovem cursa o ensino técnico em Farmácia e sonha em ingressar na Unicamp para seguir sua formação na área de Enfermagem.
No Coletivo de Educação Popular Flor de Maio, encontrou um ambiente de aprendizado que também estimula discussões sobre desigualdade de gênero, direitos e participação social.
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Para Samira, estudar significa desafiar expectativas que, durante gerações, restringiram as mulheres aos papéis de mãe e esposa, dificultando sua independência e acesso a oportunidades.

Samira contou à reportagem que busca novos caminhos além dos que sociedade impõem
Crédito: Pedro Sardeli/Reprodução/Band Campinas
“É o ciclo do machismo, de você ser inferior, de não conseguir as coisas, porque é muito enraizado a gente ter que se submeter aos homens e não ter acesso ao estudo — o que aconteceu na minha família por muitos e muitos anos. Eu vejo isso como uma mudança, que a gente pode quebrar esses ciclos”, afirma.
A jovem também questiona a ideia de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual. Para ela, a construção de oportunidades passa pelo apoio coletivo e pelo reconhecimento das desigualdades que atravessam diferentes realidades.
Essa perspectiva também está presente na experiência de Arthur Ruta, estudante de Filosofia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), que frequenta o Flor de Maio.
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“O cursinho me ajudou muito a entender o mundo de forma coletiva”, ressalta, entendendo que a construção de um futuro menos desigual depende de toda a sociedade, não apenas dos grupos atingidos.
Ao promover reflexões sobre papéis sociais e relações de gênero, os cursinhos populares contribuem para questionar comportamentos naturalizados pelo machismo. Essa formação crítica pode atuar na prevenção de diferentes formas de violência, ao ampliar a compreensão sobre direitos, respeito e igualdade.
Entre o voluntariado e a falta de espaço: os desafios da educação popular
Apesar do impacto na vida dos estudantes, manter um cursinho popular em funcionamento exige superar dificuldades financeiras, estruturais e administrativas.
Em Jundiaí, o Cursinho Popular Emancipa Lélia Gonzalez integra a Rede Nacional Emancipa, movimento de educação popular presente no Brasil há 19 anos. Com módulos pré-universitário e pré-técnico totalmente gratuitos, as aulas são realizadas aos sábados, das 8h às 16h, na Escola Estadual Siqueira de Moraes.
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Em Hortolândia, o Coletivo de Educação Popular Flor de Maio enfrenta outro desafio: a ausência de uma sede própria.
Criado no final de 2013 por estudantes da Unicamp, o coletivo atua há 13 anos na periferia do município. Atualmente, as atividades acontecem provisoriamente nos fundos da casa de um professor, no Jardim Amanda II, após a necessidade de deixar o espaço anteriormente utilizado.
As dificuldades mostram que a democratização do ensino não depende apenas da oferta gratuita de aulas. A existência de espaços adequados, materiais pedagógicos, transporte e condições de permanência também é fundamental para que os estudantes consigam continuar a formação.
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A importância do apoio nos cursinhos Sankofa e Marielle

Biblioteca do Cursinho Popular Marielle Franco
Crédito: Foto/Matheus Gama
No bairro Botafogo, em Campinas, o Cursinho Popular Marielle Franco desenvolve uma proposta que coloca a realidade das mulheres no centro de sua atuação.
Idealizado em 2020, durante a pandemia, pela professora de Matemática e Física Rebecca Happ, o projeto reúne 20 educadoras voluntárias e busca ampliar o acesso de mulheres periféricas ao ensino superior.

Rebecca idealizou um cursinho popular gerido exclusivamente por mulheres, que hoje também conta com o apoio de estudantes da Unicamp
Crédito: Foto/Matheus Gama
Um de seus principais diferenciais é o acolhimento de estudantes que são mães. Para reduzir as barreiras impostas pela maternidade, o cursinho conta com a creche Espaço Luyara, batizada em homenagem à filha de Marielle Franco. Enquanto as mulheres participam das aulas, seus filhos permanecem sob cuidados no espaço.
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A iniciativa enfrenta uma dificuldade recorrente na trajetória educacional feminina: a necessidade de conciliar estudos, trabalho doméstico, maternidade e responsabilidades familiares. Atualmente, não há nenhuma mãe estudando no local, mas Rebecca destaca que muitas já passaram pelo local.
“Pensamos na possibilidade de acolher mães, que são uma população vulnerável. Quantas pessoas não deixaram de estudar por conta de uma gravidez na adolescência? A própria Marielle Franco foi uma delas. A ideia da creche sempre foi permitir que essas mães pudessem recomeçar suas vidas”, destaca Rebecca Happ.

Giovanna estudou no Cotuca e sonha em ser enfermeira, seguindo o mesmo sonho de sua mãe, que trabalha como porteira
Crédito: Foto/Matheus Gama
Localizado no Centro de Referência LGBTI+ de Campinas, o cursinho acompanha estudantes como Giovanna Quésia, de 18 anos, que atualmente cursa o segundo ano de Enfermagem na Unicamp. Para ela, o contato com diferentes realidades e a leitura de livros foram fundamentais para ampliar sua visão de mundo e reconhecer diferentes formas de violência.
O projeto também celebra conquistas de ex-alunas, como Maressa Pinheiro, que cursa Música na Unicamp, toca contrabaixo acústico e integra a Banda Sinfônica da universidade.
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Ex-aluna de Marielle, Maressa fez mistério sobre o instrumento que toca, que surpreende por ser maior que ela.Crédito: Foto/Matheus Gama
A transformação também aparece na trajetória de Marcela Dias, de 24 anos, integrante da primeira turma do projeto. Filha de trabalhadora, Marcela conseguiu seu primeiro emprego ainda durante o curso técnico, por indicação de um professor do cursinho. A oportunidade permitiu que contribuísse com as despesas da família durante a pandemia.
Atualmente, cursa Matemática na Unicamp e retornou ao Marielle Franco como professora voluntária, passando a contribuir com a formação de outras pessoas.

Marcela destaca a importância de divulgar políticas de ingresso e permanência para incentivar estudantes a chegar à universidade e se formar
Crédito: Foto/Matheus Gama
“A mulher ter a oportunidade de usufruir da educação popular muda a vida dela e traz a noção dos direitos que possui e de como resolver situações adversas. A educação popular é fundamental na quebra de ciclos contra a violência contra a mulher”, afirma Marcela.
Sua trajetória representa um dos princípios da educação popular: a construção coletiva do conhecimento, na qual estudantes também podem se tornar educadores e multiplicar oportunidades.
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Sankofa: ancestralidade e educação afrocentrada
Na região do Jardim Santa Mônica, em Campinas, o Pré-Vestibular Afrocentrado Sankofa completa dez anos de atuação comunitária, articulando preparação acadêmica, valorização da identidade negra e conhecimentos sobre a história e a cultura africana.
Entre os estudantes está Yukkie Alex, de 18 anos, que se prepara para realizar o sonho de ingressar no ensino superior.

Yukkie Alex, de 18 anos, é estudante do cursinho popular pré-vestibular Sankofa
Crédito: Pedro Sardeli/Reprodução/Band Campinas
A proposta do cursinho dialoga com o significado de Sankofa, conceito de origem akan, associado à importância de recuperar os conhecimentos do passado para construir o futuro.
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Para o professor Jamaa Tendaji Bakari, geógrafo licenciado pela Unicamp, educador, articulador afrocêntrico e pesquisador da cultura africana no Brasil, o fortalecimento dessas iniciativas depende também de políticas públicas e parcerias com a sociedade civil.
O educador destaca a importância da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), vinculada ao Ministério da Educação, e do projeto Fortalece, da Fundação FEAC.

O professor Jamaa destaca que a taxa de aprovação do cursinho popular Sankofa chega a superar a de cursinhos particulares
Crédito: Pedro Sardeli/Reprodução/Band Campinas
“Hoje temos o edital do CPOP, administrado pelo Ministério da Educação, que destina 208 mil reais para cursinhos comunitários aprovados no país, beneficiando cerca de 1.500 projetos. Paralelamente, o apoio local do projeto Fortalece tem se estabelecido como um pilar essencial de sustentação”, ressalta o professor Jamaa.
A experiência do Sankofa reforça o papel dos cursinhos populares na valorização de identidades historicamente marginalizadas, oferecendo aos estudantes não apenas preparação acadêmica, mas também espaços de reconhecimento, pertencimento e fortalecimento coletivo.
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Transporte e permanência: o desafio de chegar à sala de aula
A falta de recursos para o transporte está entre os obstáculos enfrentados pelos estudantes dos cursinhos populares de Campinas.
Um diagnóstico realizado pelo projeto Fortalece Cursinhos Populares, da Fundação FEAC, traçou o perfil de 694 estudantes ativos nas iniciativas apoiadas.
Os dados revelam o alcance social dos projetos:

O deslocamento, portanto, representa um custo que pode comprometer a continuidade dos estudos, especialmente para jovens que precisam conciliar a preparação para o vestibular com o trabalho e outras responsabilidades.
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Para enfrentar esses desafios, a Fundação FEAC destinou cerca de R$ 1 milhão ao fortalecimento de dez cursinhos populares de Campinas, com ações previstas ao longo de 18 meses.
O investimento contempla apoio financeiro e pedagógico, além da articulação de medidas voltadas à permanência estudantil.

Inddira destaca a importância de reconhecer as fragilidades dos cursinhos populares e fortalecer suas potencialidades
Crédito: Pedro Sardeli/Reprodução/Band Campinas
“Não é apenas um aporte financeiro. Há uma intencionalidade pedagógica e política de fortalecer esses espaços. Estamos discutindo com o poder público municipal a implementação da tarifa zero para esses estudantes, garantindo que o direito de ir e vir não seja um obstáculo para o aprendizado”, afirma a educadora social Inddira Khadi.
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A discussão evidencia que ampliar o acesso à educação exige mais do que abrir vagas. É necessário garantir condições concretas para que os estudantes consigam frequentar as aulas e concluir sua preparação.
Educação como possibilidade de transformação social
As histórias de Maria Aline, Samira, Marcela e das demais estudantes revelam diferentes dimensões de uma mesma luta: o direito de construir o próprio futuro.
Em Jundiaí, Hortolândia e Campinas, os cursinhos populares demonstram que a educação pode ultrapassar os limites da preparação para o vestibular e se tornar um instrumento de autonomia, acolhimento e participação social.
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Para as mulheres, esse processo também representa a possibilidade de questionar relações de dependência, reconhecer direitos e enfrentar desigualdades que contribuem para a reprodução da violência de gênero.
Entretanto, a continuidade dessas iniciativas depende de condições que ainda não estão plenamente garantidas: financiamento, espaços adequados, transporte acessível e valorização do trabalho dos educadores.
Entre conquistas individuais e desafios coletivos, os cursinhos populares seguem defendendo uma ideia fundamental: o acesso à universidade não deve ser determinado pela renda, pela origem social, pela raça ou pelo gênero.
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E, para muitas dessas mulheres, a oportunidade de estudar representa também a liberdade de imaginar e construir uma história diferente.
Conheça os dez cursinhos apoiados pelo Fortalece
Segundo o levantamento apresentado pela Fundação FEAC, os cursinhos selecionados para o projeto são:
