“Comecei a estudar do zero para passar em Medicina”

Aos 21 anos, Gabriela Sancha descobriu um grave déficit educacional e decidiu refazer todo o Ensino Médio para ter chance de realizar seu sonho

PRISCILLA VIERROS

02/12/2025 • 16:34 • Atualizado em 02/12/2025 • 16:34

A trajetória de Gabriela até a aprovação em Medicina passa por luto, determinação e muita força de vontade

A trajetória de Gabriela até a aprovação em Medicina passa por luto, determinação e muita força de vontade

Divulgação/Arquivo pessoal

Aos 27 anos, Gabriela Sancha vive aquilo que, por muito tempo, acreditou ser inalcançável: o início da vida universitária como estudante de Medicina. Sua chegada à faculdade representa não apenas uma conquista acadêmica, mas o encerramento de um ciclo de quase seis anos marcado por reinvenção, disciplina e superação emocional.

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Gabriela conta que inicialmente a Medicina não era um sonho. “Eu não saí do Ensino Médio sonhando em ser médica. Eu saí perdida. Minha família não tinha como me orientar e eu não fazia ideia da minha carência educacional. Meu sonho era simplesmente ter a oportunidade de fazer um curso superior, qualquer um”, relembra.

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A percepção da defasagem veio no primeiro Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Eu não sabia escrever uma redação. Não sabia matemática básica. Eu não sabia nada.” Apesar de ter estudado em escola particular, ela explica que o ensino oferecido não atendia às necessidades reais da formação. “Era aquela escola acessível, que meu pai pagava com muito esforço. Mas eu saí de lá sem preparo. ”

Essa lembrança ainda a emociona. “Guardo isso com muita dor. Meu pai tinha muito pouco, e tudo o que ele tinha ele colocou naquela escola. E eu sentia que não tinha aproveitado nada.” A frustração, porém, virou combustível. “Aos 21 anos, decidi que ia estudar do zero. Eu queria dar orgulho para o meu pai.”

Sem condições financeiras para cursinhos presenciais, encontrou no ensino online a alternativa possível. A rotina começava cedo: “Acordava às seis da manhã, meu pai me chamava. Era café e computador. Eu sabia que não ia passar no primeiro ano do vestibular, então comecei tudo do começo.”

O plano incluía quatro redações por dia, muita disciplina e pedidos de ajuda a qualquer conhecido que dominasse matemática ou outras matérias. “No online, tudo depende de você. É muita força de vontade.” E o apoio do pai foi inabalável, ele pedia ajuda para professores auxiliarem os estudos da filha. “Ele dizia: ‘Se eu tiver que vender picolé na praia para você estudar, eu vou fazer’. Ele não queria que eu me sentisse burra. Ele acreditou em mim quando nem eu acreditava.”

Gabriela conta que a dificuldade com o aprendizado veio também por conta de algumas questões que nem ela entendia, como hiperatividade, falta de atenção. No entanto, a decisão de revisitar tudo o que tinha estudado foi decisivo. Os resultados vieram aos poucos. Foram anos de notas baixas intercaladas com pequenas vitórias, até que as primeiras aprovações surgiram: primeiro em Química, depois em Engenharia. “Quando passei em Química, pensei: talvez eu consiga Medicina.”

A pandemia acabou impulsionando meus estudos. Foi o ano que mais rendeu. Fiquei reclusa, estudando o dia inteiro

A aprovação veio em uma universidade particular de São Paulo. Antes disso, Gabriela já havia tentado o Programa Universidade para Todos (Prouni), mas só conseguia bolsas de 50% por ter estudado em escola particular — valor ainda impossível de pagar. Com a criação do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies Social), destinado a estudantes de baixa renda, finalmente conseguiu acessar o curso. “Graças a esse programa eu tive acesso à Medicina.”

Seu Guaraci, pai de Gabriela, sempre repetia com orgulho: “Minha filha vai ser médica, vai ser doutora”. Mas, após três anos lutando contra um câncer, ele faleceu antes de ver a filha ingressar oficialmente no curso. Do hospital, comemorou a conquista pela nota, mas não chegou a saber que a matrícula daria certo.

“Meu pai sempre trabalhou muito, sempre em subempregos, para me dar estudo. Quando entrei, pensei: ele conseguiu. Porque esse sonho também era dele.” Às vésperas da aprovação, Gabriela perdeu o pai. A dor foi imensa, mas também virou impulso. “Foi muito difícil começar a faculdade em luto. Mas ele lutou tanto por esse sonho que eu precisava continuar.”

Ela deixou o Espírito Santo para viver em São Paulo, algo que nunca imaginara fazer. A mudança, somada ao luto e à necessidade de contar com a ajuda da mãe, das tias e de familiares para despesas básicas, tornou a vitória ainda mais significativa. “Meu pai sempre foi meu alicerce. Agora, cada passo que dou é por ele.”

Hoje, como caloura, Gabriela reconhece que sua trajetória é diferente da maioria e justamente por isso, tão valiosa. “Trouxe do Espírito Santo uma blusa, quatro malas e o resto da minha vida para recomeçar. Por causa do luto, não consegui sentir a aprovação como vitória. Ela veio com sabor de recomeço. Se meu pai estivesse aqui, tudo seria diferente.”

Ela conta que a sensação de vestir o jaleco ainda parece surreal. “Eu olho para o jaleco com ‘Medicina’ escrito e penso: eu consegui. É real. A pessoa que, há seis anos, escrevia tudo errado e achava que nunca seria capaz, está aqui vivendo isso.”

A história de Gabriela Sancha é mais que um relato de superação pessoal: é um retrato das desigualdades educacionais brasileiras e da potência que surge quando disciplina, oportunidade e apoio familiar se encontram. Para muitos estudantes, chegar à Medicina é mais do que ser aprovado, é reescrever a própria vida.

Antes de encerrar a entrevista, ela deixa um conselho aos estudantes: “Valorizem o estudo enquanto há tempo. Aproveitem cada oportunidade de aprender e reconheçam tudo o que não está nos livros, especialmente o esforço que seus pais fazem para que vocês sigam adiante. Esses gestos, muitas vezes silenciosos, são parte fundamental do caminho.”

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