
Ensino médico busca mais inclusão e equidade nas salas de aula
Divulgação/ Freepik
A presença de estudantes com deficiência em cursos de medicina, historicamente marcados pela alta exigência técnica e carga horária intensa, tem provocado uma transformação silenciosa nas universidades brasileiras. Entre avanços institucionais e desafios persistentes, a acessibilidade no ensino médico começa a ganhar estrutura, mas ainda exige equilíbrio entre inclusão e rigor formativo.
Entre no canal do WhatsApp do Quero Estudar Medicina e receba conteúdos exclusivos.
Na gestão universitária, políticas de acessibilidade já fazem parte do planejamento institucional. Segundo a coordenadora de medicina da Universidade Anhembi Morumbi, Dra. Barbra Rafaela de Melo Santos Azevedo, as medidas vão desde adaptações físicas até suporte pedagógico individualizado.
“Garantimos acessibilidade arquitetônica, com rampas, elevadores e sanitários adaptados, além de acessibilidade pedagógica, com flexibilização metodológica e adequações avaliativas previstas em laudo”, afirma.
A estrutura também se estende aos campos de prática. Ambulatórios, hospitais e unidades conveniadas seguem normas de acessibilidade, o que permite que estudantes com deficiência participem de todas as etapas da formação, do ciclo básico ao internato.
Um dos pilares desse processo é o acompanhamento contínuo. Nas instituições do grupo Inspirali, o Núcleo de Apoio Pedagógico e Inclusão (NAPI) realiza acolhimento individual, análise de laudos e elaboração de planos personalizados. Esses documentos orientam professores e coordenação sobre as necessidades específicas de cada estudante. “Oferecer as mesmas condições formais não garante igualdade de oportunidades. É preciso adaptar”, destaca a coordenadora.
Na prática, isso se traduz em ações como provas em ambientes adaptados, contratação de ledores, uso de tecnologias assistivas, como leitores de tela e reconhecimento de voz, e apoio à organização dos estudos. Há também iniciativas voltadas à saúde mental, como programas institucionais de acompanhamento psicológico.
Apesar dos avanços, a inclusão enfrenta limites concretos. A formação médica exige o desenvolvimento de competências clínicas e tomada de decisão em cenários de risco, o que impõe padrões mínimos de desempenho. “O desafio é equilibrar inclusão, qualidade da formação e segurança do paciente”, explica a coordenadora.
A experiência de um estudante autista na universidade
Além das barreiras institucionais, estudantes relatam dificuldades no cotidiano acadêmico. É o caso de Gabriel Passos, 41 anos, aluno de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diagnosticado com autismo. Sua trajetória até a aprovação foi marcada por desafios financeiros e pessoais, incluindo a pandemia e a necessidade de trabalhar enquanto estudava.
Dentro da universidade, as dificuldades continuam. A sensibilidade a estímulos como luz e som torna o ambiente acadêmico mais desafiador. “Eu vivo em um mundo que me é hostil o tempo todo e preciso fazer muito mais esforço para absorver o conteúdo”, relata.
O suporte institucional faz diferença. Na UFMG, o Núcleo de Acessibilidade e Inclusão (NAI) oferece apoio às demandas de estudantes com deficiência. Para Gabriel, adaptações como provas em salas separadas e uso de abafadores de ruído são essenciais para o desempenho acadêmico.
Ainda assim, ele aponta lacunas, principalmente na formação de professores. “Muitos têm alta qualificação técnica, mas não estão preparados para lidar com alunos neurodivergentes”, afirma.
A desigualdade socioeconômica também aparece como barreira. Custos com congressos, transporte e materiais ampliam a diferença entre estudantes de diferentes realidades, impactando oportunidades futuras, como o acesso à residência médica.
Para especialistas, o ensino médico brasileiro evoluiu, mas ainda está em processo de adaptação. “Estamos mais preparados do que no passado, mas há um longo caminho a percorrer”, avalia a coordenadora.
