
“Quero me tornar uma excelente médica, mas sem nunca abrir mão desse olhar humano que aprendi no Medicirco”
Divulgação/ Arquivo pessoal
No 10º período da faculdade de Medicina, prestes a se formar, Livia Lima Rezende fala com entusiasmo de cada etapa da sua jornada. Diferente da maioria dos colegas, que sonhavam com o jaleco branco desde a infância, ela queria os palcos. Ainda menina, dizia que seria cantora, atriz, comunicadora.
“Nunca falei que queria ser médica na escola. Sempre respondia que ia ser artista. Às vezes completava: artista e pediatra”, lembra, rindo.
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O caminho parecia mesmo ser a arte. Aos 15 anos, morou na Califórnia, onde se dedicou ao teatro musical. Voltou decidida a cursar artes cênicas, mas ouviu da mãe: “No Brasil, esse curso não garante futuro”. Vieram novas possibilidades — jornalismo, publicidade, comunicação.
Medicina não estava nos planos, até que a mãe lançou o desafio: “Faça o vestibular. Se passar, é porque não tem medo de tentar. Depois você escolhe o que quiser”. Mas tinha que prestar Medicina, Direito ou Engenharia. Ela aceitou quase por acaso, estudou durante a pandemia. “Como eu não sei discutir e sou péssima em matemática, sobrou Medicina. Fiz meio a contragosto e passei”, comenta.
O primeiro ano foi vivido lado a lado com a mãe, que também ingressou no curso de Medicina. “Era quase uma desculpa para eu não poder desistir”, conta. A surpresa veio nas primeiras aulas e consultas. “Achei que seria algo só técnico, mas percebi que cada paciente carrega uma história. Foi aí que entendi: a Medicina é, talvez, o maior curso de comunicação que existe. Isso me encantou. ”
A artista que virou médica sem deixar o palco
A ligação com as artes não se perdeu. Pelo contrário, encontrou novo caminho no Medicirco, projeto de extensão da faculdade em que estuda, a Faseh, que leva palhaçaria, música e escuta ativa a hospitais e comunidades carentes de Belo Horizonte e região metropolitana. Hoje, ela é vice-presidente da iniciativa, considerada uma das maiores tradições da instituição.

“A Faseh me deu espaço para ser artista e médica ao mesmo tempo” I Divulgação/ Arquivo pessoal
“O Medicirco me devolveu a arte. Eu canto, brinco, subo no palco, mas com um propósito: levar acolhimento. Descobri que não precisava abandonar a atriz que sempre existiu em mim”, explica. A estudante lembra histórias que marcaram sua trajetória, como a de uma paciente terminal que pediu para ouvir Roberto Carlos. “Ela segurou minha mão, chorou e me agradeceu por lembrar a família. Era como se eu estivesse conversando com meu avô, que perdi na pandemia. A Medicina me deu essas conexões. ”
O projeto também lhe mostrou que a vulnerabilidade não escolhe idade. “Achei que as crianças seriam o público mais impactado, mas os idosos são os que mais se transformam. A alegria que eles sentem é algo único. É Medicina sem estetoscópio, só com humanidade.”
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“O Medicirco me fez olhar para cada paciente como se fosse o amor da vida de alguém. Isso muda completamente o jeito de exercer a Medicina. Humaniza, dá empatia. Não é só técnica, é alma. ”

Livia aos dois anos I Divulgação/ Arquivo pessoal
Além do Medicirco, a futura médica participou da Missão Jequitinhonha, organizada pela Inspirali, rede de ensino da qual sua faculdade faz parte. A experiência a levou a criar um projeto de conscientização infantil inspirado no filme Divertida Mente, com o objetivo de abordar temas como abuso e educação sexual de forma lúdica. “Foram as próprias escolas que pediram. Vi o quanto a comunicação pode salvar vidas. Entendi que, na Medicina, ainda posso contar histórias e, mais importante, ajudar a mudar histórias.
Livia avalia que as atividades a deixaram mais humana. “Não tem como participar e não se conectar com as próprias emoções. E, ao se conectar consigo mesma, você acaba gerando uma empatia muito maior pela história dos pacientes — e até das pessoas que estão ali e nem são pacientes”. Ela completa que muitas vezes, as pessoas não têm uma doença física, mas carregam dores da alma, que às vezes nem percebem. “Nessas horas, conseguimos oferecer cuidado, acolhimento e até uma forma de prevenção, antes que algo maior aconteça e muitas vezes, sem um estetoscópio, sem um remédio, sem nada.”
O Medicirco me fez olhar para cada paciente como se fosse o amor da vida de alguém
Hoje, ela não tem dúvidas de que encontrou seu lugar. “Não faria mais nenhum outro curso. Sou completamente apaixonada. Quero seguir residência, especializações, tudo o que me tornar uma médica melhor”, diz, sem esconder o brilho nos olhos.

“A Medicina só é Medicina de verdade quando une técnica e comunicação” I Divulgação/ Arquivo pessoal
O sonho infantil de ser atriz não desapareceu. Apenas se transformou. O palco agora é o hospital, o público são pacientes em momentos de fragilidade, e a atuação é traduzida em escuta, empatia e cuidado. “A Medicina me mostrou que a vocação pode nascer de vários jeitos. Eu achei que queria a arte. No fim, descobri que a arte estava dentro da Medicina.”
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