Estudantes de Medicina que conseguiram bolsa com nota do Enem

Conheça as histórias de vida de Diego, Natália, Luiz Gustavo e Gabriel, que transformaram obstáculos em motivação e garantiram uma bolsa 100% para estudar Medicina

PRISCILLA VIERROS

22/10/2025 • 16:23 • Atualizado em 22/10/2025 • 16:23

A fórmula para transformar sonhos em realidade é superação, planejamento e resiliência

A fórmula para transformar sonhos em realidade é superação, planejamento e resiliência

Divulgação/Freepik

Cursar Medicina é o sonho de milhares de brasileiros, mas obstáculos financeiros e sociais tornam essa conquista distante para muitos. Mesmo assim, histórias de superação mostram que determinação e estratégia podem transformar esse objetivo em realidade.

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Dedicação, planejamento e apoio familiar ou institucional muitas vezes fazem a diferença na jornada. Com foco e persistência, é possível driblar as dificuldades e abrir portas para oportunidades que antes pareciam inalcançáveis.

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Nesta reportagem, você vai conhecer quatro jovens que conquistaram bolsas integrais de Medicina usando a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) , pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) e Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Cada um deles traçou um caminho único, enfrentando desafios e mostrando que o sonho de estudar Medicina pode se tornar realidade.

Diego: da periferia à realização de um sonho

Aos 23 anos, Diego Nogueira de Souza, morador de um bairro periférico de São José dos Campos (SP), é exemplo de perseverança. Cresceu estudando em escolas públicas e, durante a infância, pouco conhecia sobre o ensino superior. O ponto de virada veio no ensino médio, em uma escola de tempo integral, onde professores o apresentaram ao Enem, à Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) e ao Prouni.

Diego Nogueira I Divulgação/Arquivo pessoal

Diego Nogueira I Divulgação/Arquivo pessoal

“Estudei em uma escola integral muito boa. Os professores me mostraram um novo caminho e, com isso, ampliei meus horizontes. No ensino fundamental, essas oportunidades quase não eram discutidas”, relembra. Esse contato com o conhecimento acadêmico despertou nele a motivação para trilhar caminhos até então desconhecidos.

Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, Diego decidiu se dedicar aos estudos. Ainda não pensava em Medicina; seu foco era atuar na área da saúde, e o curso de Enfermagem parecia uma boa alternativa. Ingressou na graduação por meio do Prouni, com bolsa de 50%, e financiou a outra metade pelo Fies.

Porém, durante o estágio hospitalar, percebeu que a profissão não correspondia às suas expectativas. “No começo eu tinha certeza de que queria ser enfermeiro, mas no estágio percebi que a rotina era muito voltada à gestão. Eu me identificava mais com o cuidado direto ao paciente. Foi aí que surgiu o desejo de me tornar médico”, conta.

Com apoio da família, especialmente da mãe, trancou a faculdade e se preparou para o vestibular de Medicina. Traçou uma estratégia de estudos, organizou um cronograma detalhado e manteve disciplina. O esforço deu resultado: sua nota no Enem foi suficiente para conquistar uma bolsa integral de Medicina pelo Prouni.

Hoje, no quarto semestre, ele acredita que sua trajetória pode inspirar outros jovens de baixa renda. “Se você tem o sonho de cursar Medicina com bolsa 100% pelo Prouni, saiba que organização é fundamental. Quem vem da periferia precisa ser o próprio guia”, afirma.

Natália conquistou a tão sonhada vaga após seis anos tentando

Natália Halabi, 30, estudante de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi, em São José dos Campos, conseguiu realizar seu sonho por meio do Fies, mas sua trajetória destaca um aspecto diferente: o poder do autoconhecimento e da saúde emocional.

Natália Halabi I Divulgação/Arquivo pessoal

Natália Halabi I Divulgação/Arquivo pessoal

Durante anos, ela enfrentou a pressão do cursinho e sentiu que apenas seguir métodos e regras externas não era suficiente. “Eu me via robotizada, executando o que mandavam, mas sem conexão com minha intuição e minhas necessidades. Isso prejudicava minha autoconfiança”, lembra.

Foi ao investir em desenvolvimento pessoal, participando de imersões, mentorias e acompanhamentos com terapeutas integrativos, que Natália conseguiu lidar com medos e inseguranças que, muitas vezes, a faziam boicotar seu próprio processo. “Aprender a reconhecer meu valor e cuidar da minha mente foi fundamental. No ano em que menos estudei, obtive meu melhor desempenho e consegui a aprovação”, afirma.

Sua história mostra que, para além da disciplina e do estudo, dedicar atenção à saúde emocional e ao autoconhecimento pode ser decisivo para transformar sonhos em realidade.

Gustavo conciliava o sonho com o trabalho de garçom

Conquistar uma bolsa de Medicina pelo Prouni exige planejamento e estratégia. Diante da alta concorrência, pequenas decisões podem fazer grande diferença no resultado final.

Foi assim com Luiz Gustavo Pereira e Silva, 30 anos, estudante do último ano do curso de Medicina em Palmas (TO), que conquistou uma bolsa integral pelo Prouni. Enquanto muitos vestibulandos se dedicavam exclusivamente aos estudos, Luiz Gustavo conciliava a preparação com o trabalho como garçom, para ajudar nas despesas da casa.

Luiz Gustavo Pereira I Divulgação/Arquivo pessoal

Luiz Gustavo Pereira I Divulgação/Arquivo pessoal

De origem humilde e ex-aluno de escola pública, ele passou mais de seis anos se preparando para o vestibular. A aprovação só se tornou possível graças a uma bolsa integral em um cursinho preparatório e à solidariedade de pessoas que, em vários momentos, o ajudaram com lanches e apoio emocional.

Posteriormente, migrou para cursinhos on-line, por serem mais acessíveis e oferecerem horários flexíveis, o que permitiu conciliar estudo e trabalho.

Em 2020, já prestes a desistir do sonho, Luiz recebeu o apoio de uma professora, que o indicou a uma psicóloga. O suporte emocional foi decisivo. Em 2021, com o desempenho no Enem, Luiz conseguiu uma bolsa de 100% para cursar Medicina.

Mesmo com o benefício, precisou criar uma vaquinha on-line para custear a mudança de cidade e os gastos iniciais. A meta era arrecadar R$ 5 mil, mas a mobilização rendeu mais de R$ 25 mil.

De fuzileiro naval a estudante de Medicina

Desde criança, Gabriel Gomes, 36 anos, sonhava em ser médico, mas a realidade do interior do Amazonas parecia tornar esse sonho distante. Nascido e criado em Capanã Grande, reserva localizada no município de Manicoré, no estado do Amazonas, ele enfrentou dificuldades.

A falta de ensino completo em sua região, a ausência de internet e a necessidade de ajudar a família na roça, além de cortar seringa com o pai, eram alguns obstáculos que o futuro médico precisaria enfrentar para realizar seu sonho. “Apesar de tudo, meus pais sempre acreditaram na educação e nos incentivavam com os estudos”, lembra.

Gabriel Gomes I Divulgação/Arquivo pessoal

Gabriel Gomes I Divulgação/Arquivo pessoal

Em 2006, ao concluir a oitava série, Gabriel se mudou para Manaus para continuar os estudos. Morando com a irmã e dividindo um quarto alugado, conseguiu trabalho como aprendiz de farmácia no Hospital Universitário Getúlio Vargas, local onde hoje realiza suas práticas de Medicina.

Sua trajetória passou por uma fase na Marinha do Brasil, onde ingressou após concurso em 2009, atuando no Batalhão de Operações Ribeirinhas, em Manaus, por cinco anos. Foi nesse período que começou a estudar para o Enem com colegas que compartilhavam o mesmo sonho.

O início da preparação não foi fácil. “Meu primeiro Enem foi um choque. Tirei 350 na redação e chorei. Os cursinhos presenciais eram caros, então comprei um cursinho on-line, que custava apenas R$ 12,99, e comecei a estudar em casa”, relata Gabriel.

Ele e sua esposa firmaram um acordo: ela trabalharia para sustentar a família, enquanto ele se dedicaria exclusivamente aos estudos. A chegada do filho, em 2018, trouxe novos desafios, mas não interrompeu seu foco.

A preparação exigiu aprendizado do zero, já que a base do ensino médio não havia lhe dado o conhecimento necessário. “Tive que aprender 90% do conteúdo do Enem do zero. No início, tinha medo de fazer simulados, mas depois percebi que resolver provas antigas era a melhor estratégia. Descobri que não precisava acertar as questões mais difíceis, só não errar as fáceis”, explica.

A persistência valeu a pena: em 2022, Gabriel foi aprovado em concursos para a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros do Amazonas, mas optou por seguir o sonho da Medicina ao ver seu nome na lista de matrícula da UFAM.

Hoje, Gabriel destaca a disciplina e a organização como pilares da sua conquista. Acordava às 4h30 para estudar antes de sua esposa sair para o trabalho e aproveitava os períodos em que o filho dormia para avançar nos estudos. Ele também enfatiza a importância de fazer redações e provas antigas desde o início da preparação.

Seu conselho para quem sonha em cursar Medicina: “Vá com calma. Faça provas antigas, treine redação e respeite seu tempo. Deus não permitirá que você entre antes do momento certo. Persistência e foco são essenciais”.

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