
Gabriel comenta que enfrenta desafios e busca inclusão na faculdade de Medicina
Divulgação/ Arquivo pessoal
A trajetória de Gabriel Passos, 41 anos, estudante do sexto período de Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, não começa com o sonho de infância comum a muitos futuros médicos. Pelo contrário: durante anos, a Medicina parecia um lugar distante e reservado a uma elite à qual ele não acreditava pertencer.
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Nascido em Colatina (ES) e criado em um contexto de baixa renda, Gabriel cresceu sem referências na área da saúde. “Eu nunca havia me imaginado médico. As pessoas que eu via nessa profissão eram filhos de gente rica. Então, na minha cabeça, aquilo não era para mim”, conta.
A mudança de rota veio apenas na vida adulta, em um momento de ruptura. Após enfrentar um quadro de depressão, ele se viu diante da necessidade de reconstruir o próprio propósito. Foi nesse período que tomou uma decisão que redefiniria sua história: doou um rim a um primo com doença renal.
“Eu salvei a vida dele. E aquilo mudou tudo. Foi ali que decidi que queria estudar Medicina para salvar mais vidas.”
Entre a obstinação e a aprovação
A escolha, no entanto, veio acompanhada de um contexto adverso. Gabriel começou a estudar para o vestibular no auge da pandemia de COVID-19, em um cenário de instabilidade financeira e familiar.
Com o irmão desempregado e o pai enfrentando o alcoolismo, a única renda da casa vinha da aposentadoria da mãe. Para complementar, os dois passaram a produzir e vender alimentos caseiros: caldos, feijoada e pães.
“Eu fazia as entregas de bicicleta. Estudava nos intervalos entre um trabalho e outro. Não era fácil, mas eu tinha certeza do que queria”, lembra.
A convicção era tamanha que ele nunca considerou outro curso. Mesmo diante das dúvidas da família, manteve uma meta única: Medicina. “Eu sempre dizia que era questão de tempo. Eu tinha disciplina e vontade.”
A aprovação na UFMG, uma das instituições mais concorridas do país, não veio com lágrimas, mas com um gesto direto e simbólico. “Eu gritei ‘consegui’ e dei um tapa na mesa. Foi um alívio, como se tivesse tirado um peso enorme das costas.”
A primeira pessoa a saber foi a mãe, figura central em toda a trajetória. “Ela acreditou em mim o tempo todo. E isso fez toda a diferença.”

Gabriel reforça que a mãe foi seu principal pilar de força I Divulgação/ Arquivo pessoal
Permanecer é mais difícil do que entrar
Se o acesso já foi desafiador, a permanência no curso revela novas camadas de desigualdade. Gabriel aponta que o curso de Medicina ainda é estruturalmente elitizado e que isso impacta diretamente estudantes de origem periférica.
“Enquanto alguns colegas participam de congressos caros, que contam pontos para a residência, outros não têm como pagar nem a inscrição. Isso cria uma desigualdade dentro da própria faculdade”, observa.
Além da questão financeira, há o fator etário. Gabriel ingressou aos 38 anos e hoje divide salas com colegas mais jovens. “Acompanhar o ritmo deles não é simples.”
Viver com autismo em um ambiente que não foi pensado para isso
O diagnóstico de autismo trouxe novas camadas de compreensão e também de desafios. Gabriel descreve sua experiência sensorial como uma sobrecarga constante.
“É como viver em um mundo onde luz, som e temperatura causam extremo incômodo. Meu cérebro capta tudo de forma exagerada, mas não consegue processar. Isso gera uma sobrecarga enorme.”
Situações cotidianas, como uma sala de aula cheia ou o barulho de páginas sendo viradas durante uma prova, tornam-se obstáculos reais. Durante o vestibular, sem saber ainda do diagnóstico, ele enfrentou o ENEM em uma sala comum.
“Eu ouvia tudo. Cada pacote de biscoito sendo aberto, cada folha sendo virada. Até hoje não sei como consegui fazer aquela prova.”
Na universidade, Gabriel encontrou suporte por meio do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão, responsável por intermediar demandas de estudantes com deficiência. Entre as adaptações que fazem diferença estão a realização de provas em salas separadas e o uso de abafadores de ruído.
Ainda assim, ele aponta lacunas importantes. “Falta preparo de muitos professores. Alguns são extremamente acolhedores, mas outros não entendem e, às vezes, até zombam de alunos autistas.”
A percepção de inclusão também varia entre os próprios estudantes. Segundo Gabriel, os que ingressaram por políticas de cotas tendem a demonstrar mais empatia no convívio.
Um sistema que ainda exige adaptação unilateral
Para Gabriel, o principal problema é estrutural: o sistema ainda exige que o estudante se adapte, em vez de se transformar para acolher diferentes perfis.
“Nós, autistas, vivemos em um mundo que não foi feito para nós. Estamos sempre nos adaptando para sobreviver. E muitos não conseguem. Os índices de suicídio entre autistas são muito altos.”
A carga horária intensa da Medicina, somada às demandas hospitalares, amplia o desgaste físico e cognitivo. “Eu vivo em um mundo que me é hostil o tempo todo. No fim do dia, estou exausto. Mas o amor pela Medicina me faz continuar.”
“Medicina é, antes de tudo, cuidado”
Ao olhar para o futuro, Gabriel já projeta sua atuação profissional: pretende seguir na área de Neurologia, com foco em atender pessoas autistas e suas famílias.
Mais do que uma escolha técnica, trata-se de um compromisso pessoal. “Quero ajudar pessoas como eu.”
Para que isso se torne realidade em escala maior, ele defende mudanças estruturais no ensino superior, especialmente na formação de professores.
“Muitos têm doutorado em áreas complexas, mas não sabem lidar com um aluno autista no dia a dia. Falta preparo. E essa realidade só tende a crescer.”
Aos jovens autistas que sonham com a carreira médica, Gabriel deixa um recado que sintetiza sua própria trajetória: “Medicina é cuidar, amar o próximo. Não é só curar o corpo, é acolher. Se esse é o seu sonho, faça tudo o que estiver ao seu alcance. E nunca perca isso de vista.”
