Quando o ator ajuda a formar médicos mais humanos

A experiência da atriz Adriana Silva mostra como o método vai além do ensino técnico e contribui para a empatia do futuro médico

PRISCILLA VIERROS

09/02/2026 • 18:08 • Atualizado em 09/02/2026 • 18:08

Adriana Silva em atuação como paciente simulado

Adriana Silva em atuação como paciente simulado

Divulgação/Arquivo pessoal

A simulação realista é uma metodologia cada vez mais presente na formação médica no Brasil e no mundo. Criada nos anos 1960 pelo neurologista norte-americano Howard S. Barrows, a técnica utiliza pacientes simulados (pessoas treinadas para representar casos clínicos de forma padronizada) como ferramenta para o ensino de habilidades essenciais, como comunicação, escuta ativa, empatia e tomada de decisão clínica. Mais do que treinar procedimentos, a proposta é preparar o estudante para lidar com pessoas reais, em contextos complexos e emocionalmente desafiadores.

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É nesse cenário que atua a atriz Adriana Silva, 50, que encontrou na simulação clínica uma extensão natural de sua trajetória artística. Com passagens pelo cinema, em produções como Carandiru e Garotas do ABC, e experiências em publicidade, Adriana construiu sua carreira principalmente no teatro infantil, onde passou cerca de dez anos viajando pelo país em projetos educativos. Hoje, integra programas de paciente simulado em empresas como Inima e Medcof, colaborando diretamente com a formação de futuros médicos.

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Para ela, a diferença entre o palco e a simulação clínica é fundamental. “No teatro, o erro vira improviso e faz parte do jogo cênico. Na simulação, a lógica é outra. Não existe plateia. A atuação acontece de forma individual, diretamente com o estudante”, explica. É o estudante quem conduz a consulta, faz as perguntas e precisa construir o raciocínio clínico. “Se ele não pergunta, o paciente simulado não entrega a resposta. É assim que acontece na vida real.”

Antes de cada atividade, os atores recebem roteiros clínicos detalhados, elaborados pela equipe pedagógica. Há espaço para criação, mas sempre dentro de parâmetros técnicos. “Recebemos o caso com antecedência, alinhamos com os professores e construímos o personagem, desde o figurino até a postura emocional”, conta Adriana. Segundo ela, apesar de existir um treinamento técnico específico para simular sintomas, o trabalho se apoia principalmente na formação profissional do ator e no alinhamento prévio com os docentes.

Entre os cenários mais desafiadores estão os de comunicação de más notícias. “É difícil, mas também muito potente. Consigo transmitir sofrimento sem gerar sofrimento no estudante”, afirma. Não é raro que os alunos esqueçam que estão diante de um ator. “Eles se envolvem emocionalmente, especialmente nessas aulas. Muitos choram junto.”

Ao longo do tempo, Adriana observa uma evolução clara nos estudantes. “É impressionante acompanhar quem está no início do curso, com dificuldade de fazer uma anamnese, e ver o amadurecimento, a segurança e o profissionalismo ao longo dos anos.”

Na avaliação dela, a presença do ator faz diferença em relação a bonecos ou manequins. “Empatia e acolhimento são fundamentais para um médico de excelência. Isso não se aprende só com simulação técnica. Com o paciente simulado, existe troca emocional. Levamos emoção e recebemos acolhimento.”

A metodologia, segundo Adriana, vem se expandindo para além da Medicina, alcançando cursos como Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição e até Direito. Apesar disso, ela destaca que o cuidado emocional com os próprios atores ainda é, em grande parte, uma responsabilidade individual.

Uma das simulações marcou sua vida de forma definitiva. Durante um caso de apendicite, uma estudante percebeu um nódulo em seu abdômen e alertou o professor. Orientada a procurar um médico, Adriana descobriu um câncer. “Operei, deu tudo certo. De certa forma, a simulação realista ultrapassou a sala de aula e foi fundamental no meu tratamento”, relata.

Para ela, esse episódio resume o impacto social do método. “A simulação forma médicos melhores, mais atentos e mais humanos. E, às vezes, transforma realidades que vão muito além do ensino.”

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