
Anthony Bourdain era chef, escritor e viajante incansável que morreu em 2018
Gabe Ulla/Eater.com
O ano era 2020. Eu estava começando a cozinhar despretensiosamente e um grande amigo me indicou ler “Cozinha Confidencial” e “Ao Ponto” do brilhante Anthony Bourdain, chef que se declarava escritor antes de cozinheiro. Me lambuzar naquelas páginas foi uma aula sobre os bastidores caóticos de restaurantes e também um frenesi existencial.
Bourdain não usava a culinária para exibir técnica ou “arrotar” regras, mas para nos lembrar de que comer, viajar e conviver com outros seres são, em sua essência, atos de humanidade. Ao longo de seus livros e programas de televisão, ele nos presenteou com verdades ácidas, poéticas e sem qualquer filtro — até dizer que não liga para comida orgânica ele disse. Os ensinamentos a seguir sintetizam o olhar afiado com que ele encarava o mundo e que podem te inspirar para uma nova percepção de vida:
Viaje para fora e retorne para si
Na juventude, quando o corpo aguenta o tranco e a mente carrega sede de aprendizado, o único caminho possível é ir longe. Para Bourdain, viajar para descobrir como os outros vivem, dormindo no chão se preciso, é a verdadeira escola da vida. A decisão de sair do sofá, cruzar a fronteira ou simplesmente atravessar o rio para experimentar a comida do vizinho nos tira do centro do universo e nos força a enxergar o mundo com os olhos do outro.
Se você tem 22 anos, está em boa forma física, tem sede de aprender e de se aprimorar, eu o encorajo a viajar – o mais longe e para todos os lugares possíveis
Há beleza nas marcas que a jornada deixa
A viagem de verdade nem sempre é bonita, performática ou confortável; às vezes ela dói, quebra expectativas e "parte o coração", como dizia Bourdain, mas é exatamente essa turbulência que nos transforma.
Mudar a percepção sobre a vida exige aceitar que as experiências deixam marcas na memória, na consciência e até no corpo. Fazer da jornada um processo de aprendizado é entender que, no fim das contas, o importante é passar pelos lugares de olhos abertos e viver para contar a história.
O que for mais chocante se torna a minha refeição de escolha
Comer junto é uma linguagem de amor
A comida nunca foi uma soma de nutrientes ou calorias. É um elemento importantíssimo para a cultura de um lugar e é também o que mantém a sociedade junta. Segundo Bourdain, sentar à mesa para compartilhar uma refeição com alguém pode revelar mais sobre o caráter dessa pessoa do que anos de conversa formal (e eu concordo!).
Existe algo de profundamente restaurador em comer em família ou entre amigos. A refeição compartilhada cria um escudo contra a solidão e o caos do mundo, provando que as melhores memórias quase nunca dependem da sofisticação do prato ou das estrelas de um restaurante.
A refeição perfeita, ou as melhores refeições, acontecem num contexto que frequentemente tem muito pouco a ver com a comida em si
A virtude da autonomia e da cozinha básica
Saber alimentar a si mesmo e a quem está ao seu redor é uma habilidade fundamental para a vida adulta, tão vital quanto aprender a cuidar do próprio dinheiro ou atravessar a rua sozinho, parafraseando Bourdain.
Essa busca por autonomia se estende às pequenas tarefas do cotidiano, como lavar a própria roupa e manter a casa em ordem. O chef dizia que que, quando terceirizamos os cuidados mais básicos do dia a dia, perdemos a conexão com a nossa própria rotina. Cozinhar o básico e cuidar do próprio espaço é o primeiro passo para a verdadeira independência. Corretíssimo!
Saber cuidar de si mesmo e fazer as próprias tarefas diárias, em vez de terceirizar tudo a empregadas, é onde reside a verdadeira autonomia do indivíduo
O mais pessoal é o mais criativo
Essa frase é do diretor de cinema Martin Scorsese — de quem Bourdain era fã assumido. Cinema e gastronomia são artes que harmonizam perfeitamente e, assim como o cineasta, o chef também acreditava na premissa de que a verdadeira arte nasce da autenticidade.
Para ele, existe uma desonestidade profunda na gastronomia feita por cozinheiros sem orgulho ou por chefs que tentam agradar a todos o tempo todo. Comida boa envolve riscos, exige posicionamento e reflete a história e a alma de quem a prepara.
A maneira como você prepara uma omelete revela seu caráter
Calce os sapatos do outro
Bourdain nos ensinou que a convivência humana não exige concordância irrestrita. Não é preciso concordar com os posicionamentos de alguém para gostar dessa pessoa ou respeitar a sua história. Nas relações interpessoais e no trabalho, a maturidade pede menos julgamento e mais discrição. Saber sentar no balcão de um bar local, beber com os moradores e ouvir sem querer impor certezas é a maior prova de sabedoria que alguém pode dar.
Se há algo que eu defendo, é o movimento. O mais longe que puder, o máximo que puder. Atravessar o oceano, ou simplesmente o rio. Na medida em que você consegue se colocar no lugar do outro, ou pelo menos experimentar a comida dele, é um benefício para todos
Viver sinceramente, não seriamente
O mundo está cheio de regras rígidas e cobranças, mas a existência fica bem mais leve quando abandonamos a idealização do controle. Bourdain defendia que há um valor quase terapêutico em beber uma cerveja sozinho em um bar decadente no meio da tarde ou em se permitir prazeres sem culpa. O que realmente importa é viver uma jornada motivada, do início ao fim, pela beleza da aventura humana.
Seu corpo não é um templo, é um parque de diversões; aproveite a viagem
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