
Jesus Cristo da Mangueira: negro, de cabelo descolorido e com o corpo crivado de balas
Ricardo Moraes/Reuters
O Carnaval 2020 prometeu e cumpriu: os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro tiveram momentos de crítica social ou política, mais ou menos explícitas, em pelo menos sete agremiações. Os alvos foram a intolerância religiosa, machismo, violência e o presidente Jair Bolsonaro, entre outros. Relembre:
MangueiraA Verde e Rosa já tinha de partida um enredo polêmico: Jesus Cristo no morro da Mangueira. Na comissão de frente, o protagonista do enredo foi vítima de violência policial. Em um carro alegórico, a escola trouxe a escultura de um menino crucificado: negro, de cabelo descolorido, com o corpo perfurado por balas; preso na cruz, uma placa com a palavra “negro”. A imagem marcou o Carnaval 2020 e motivou reação do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ): “não basta homenagear bandido. Tem que colocá-lo no lugar de Jesus Cristo”.
Paraíso do TuiutiNo último carro – um grande “altar” com a imagem de São Sebastião sem as flechas -, os componentes traziam pequenos cartazes com números da “batalha diária” dos cariocas, como dados sobre feminicídios, crianças mortas por bala perdida e homofobia.
Grande RioNa comissão de frente, um elemento cenográfico exibiu uma mensagem tirada da letra do samba da escola deste ano: “respeita meu axé” – verso que vem em sequência de outro: “eu respeito seu amém, numa mensagem contra a intolerância religiosa. No terceiro tripé, esculturas inspiradas na obra “Três Orixás”, da pintora Djanira da Motta e Silva, não estavam ali por acaso: o quadro foi retirado do Palácio do Planalto antes do presidente Jair Bolsonaro tomar pose. O enredo da escola foi Joãozinho da Gomeia, o “Rei do Candomblé”.
União da IlhaEscola fez uma série de críticas sociais em todo o seu desfile, sem, no entanto, apontar alvos específicos. O abre-alas, uma grande favela cenográfica, tinha helicópteros “sobrevoando” as casas. Em seguida, um assalto, com um ônibus real, foi encenado. Mas o que mais chamou atenção foi um carro alegórico com vários vasos sanitários, cuja mensagem era a de que as autoridades defecam sobre o povo pobre.
São ClementeDe longe, a escola que contou com maior número de elementos críticos – o enredo foi sobre os chamados “contos do vigários”. Interpretado pelo humorista Marcelo Adnet, que também um dos autores do samba, o presidente Jair Bolsonaro foi o principal alvo das brincadeiras. Destaque em um carro, Adnet cruzou a avenida jogando laranjas para o público, imitando os gestos de arma com a mão e até fazendo flexões. Famosas notícias falsas, as fake News, também foram satirizadas.
MocidadeNo desfile dedicado a Elza Soares, a escola aproveitou para fazer campanha forte contra a violência contra a mulher e pelo feminismo. O carro “O circo da vida: apanhou à beça, mas é dura na queda” trouxe mensagem contra os sofrimentos pelos quais a cantora passou: misoginia, moralismo, elitismo, sexismo, hipocrisia e racismo. Na última alegoria, onde Elza desfilou, componentes trouxeram bandeiras de movimentos de defesa de minorias. Na traseira, uma frase retirada de uma música do seu último álbum: “nós não vamos sucumbir”. O desfile foi assinado pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, conhecido pela Carnaval do Paraíso do Tuiuti de 2018, sobre a escravidão.
AcessoNa Série A, na sexta-feira, 21, a Acadêmicos de Vigário Geral desfilou com uma escultura de um palhaço Bozo com faixa presidencial, numa referência a Bolsonaro – o nome do personagem costuma ser usado por adversários para se referir ao presidente da República.
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