Carnaval

Apuração de 86 teve notas vandalizadas e ameaça a maestro da Tropicália

Muito antes do episódio de 2012, Carnaval de São Paulo teve sua 1ª grande confusão

ROMULO TESI, DE SÃO PAULO

13/02/2018 • 05:59 • Atualizado em 13/02/2018 • 05:59

Tumulto marcou a apuração do Carnaval 2012

Tumulto marcou a apuração do Carnaval 2012

Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

Já fazem parte do folclore do Carnaval de São Paulo as apurações marcadas por tumultos. Não por acaso, a leitura das notas atraem inclusive quem sequer já viu um desfile sequer na vida. Todos esperançosos por ver cenas como a de 2012, quando um integrante do Império de Casa de Verde invadiu o local da mesa da Liga SP e rasgou as notas. E aquela nem foi a primeira vez que tentaram melar um resultado com uma, digamos, intervenção violenta nas planilhas. Em 1986, tendo a velha rivalidade entre duas escolas como pano de fundo, as notas já tinham sido alvo da ira dos descontentes, motivando uma das mais longas apurações da história, com dois dias e três locais diferentes.O enredo desse bafafá histórico envolve duas das maiores agremiações paulistanas, a Polícia Militar e até o maestro Júlio Medaglia, autoridade brasileira em matéria de música, autor do arranjo de "Tropicália" e responsável por montar o júri daquele ano.Cheio de boas intenções, Medaglia reuniu mais nove personalidades do cenário artístico e intelectual de São Paulo - entre eles o ator Cacá Rosset, jurado de enredo, e o estilista Ronaldo Esper, que daria as notas de fantasia.A ideia era mudar também a forma de julgamento. E o maestro, jurado de melodia, decidiu por um método ortodoxo, pelo menos para o universo samba. Ele daria nota 5 para a primeira escola, e a partir daí a usaria para balizar os demais julgamentos. Não deu certo.O clima no ginásio do Pacaembu já era pesado quando o Camisa Verde de Branco recebeu um 9,2 em alegoria, dado pelo artista plástico Zélio Alves Pinto. No entanto, como o regulamento não previa notas fracionadas, instalou-se o primeiro impasse do dia: arredondar para 9 ou para 10?Sem esperar por uma solução e enfurecido, o então presidente do Camisa, Carlos Alberto Tobias, invadiu a área reservada da mesa apuradora e vandalizou a papelada com as notas. Dependendo da versão, Tuba, como era conhecido, teria apenas espalhado as folhas."Ele veio por trás da mesa, pegou os papéis e jogou todo para o alto", relembra Ricardo Campos, o Kaxitu, atualmente presidente da Fenasamba.

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Segundo o diretor de Harmonia da Vai-Vai, o veterano Fernando Penteado, elas foram mesmo rasgadas. Seja qual for a versão verdadeira, o certo é que foi a senha para se formar um tumulto no Ginásio do Pacaembu. Tudo isso com o combustível da rivalidade entre as comunidades do Bixiga e da Barra Funda."Eu não queria saber de ganhar. Eu queria era ficar na frente do Camisa. Se eles ficassem em 10º e nós em 9º, a gente fazia festa", relembra, aos risos, Penteado, que admite: brigou muito naquela quinta-feira pós-Carnaval.Decidiu-se então que as notas quebradas, se aparecessem, seriam arredondas para cima. A apuração foi reiniciada, quando a paz voltou a ser quebrada pela nota 5 de Medaglia para o Camisa em melodia. O tempo fechou de vez. Uma briga generalizada, com empurrões, palavrões, ameaças, tomou conta do local, precisando da intervenção enérgica dos policiais - com o reforço, 160 homens no total, pois os 80 agentes destacados para o Pacaembu não deram conta da fúria dos sambistas."Meu amigo e compadre estava descontente, mas faz parte da vida" pondera hoje Antônio Pereira da Silva Neto, o Zulu, na época diretor do Camisa e hoje responsável por ler as notas na apuração - inclusive a de 2012.10 campeãsNas mais de três horas que a confusão durou, com a contribuição dos torcedores, surgiram as mais variadas para resolver o impasse. Chegou-se a cogitar uma divisão maluca do título entre as 10 escolas, ideia que não prosperou. Os defensores da solução esquisita alegavam que o sigilo das notas já havia sido quebrado. Segundo relatos, o julgadores revelaram os números em entrevistas.Segundo reportagem da Folha de S. Paulo do dia seguinte, o presidente da Uesp (União das Escolas de Samba Paulistanas, entidade que organizava os desfiles na época, antes do nascimento da Liga), Eduardo de Oliveira, levou as urnas para o banheiro masculino do ginásio, para garantir que os papéis não sumissem no meio daquele quebra-pau. No fim, determinou que as notas fossem levadas para o 2º Batalhão de Choque da PM, no Centro. E os sambistas foram juntos - e de camburão, ainda que ninguém ficasse preso.Chá da pazNo batalhão, um comandante com jeitão de diplomata passou a mediar o conflito e tentar a acalmar os ânimos. Segundo a desconfiança de Penteado, com a ajuda de um aditivo."Ele deu um chazinho para a gente. Não sei o que tinha na bebida, mas todo mundo dormiu ali mesmo, em um sofá do batalhão. Quando a gente acordou, estava tudo mais calmo, e ainda ouvimos uma brincadeira do comandante. 'Tá vendo? Vocês são brabos e dormiu um no ombro do outro'", lembra Penteado.

Os brigões foram mandados para casa, e as escolas foram convocadas por telegrama para a continuação da apuração no dia seguinte, na sede da Federação Paulista de Futebol. Dessa vez, sem torcida.Com os ânimos acalmados e um forte reforço policial, a Uesp conseguiu encerrar a leitura das notas. E a Vai-Vai foi anunciada como campeã. O Camisa ficou com o vice-campeonato. Então, festa no Bixiga, certo? Nem tanto. "Já nem tinha clima para festejar muito", recorda-se Penteado."Se ganhou, teve méritos. Quem não consegui tem que ver o onde errou, voltar pra casa e fazer a coisa correta", pondera, hoje, Zulu.Representantes de seis escolas, entre elas a Rosas de Ouro e o próprio Camisa, descontentes com a Uesp, se desligaram da entidade e anunciaram que criariam uma nova. No mesmo ano nasceu a Liga, e o resto é história."Queriam me matar"Enquanto os dirigentes tentavam se entender, Medaglia era um dos principais alvos da ira dos sambistas, irritados com a nota 5 e o critério de julgamento."Imagina se eu dou 10 para a primeira escola que passa? Aí vem um samba melhor em seguida e não posso dar uma nota maior", defende-se Medaglia. E nem adiantava esperar todos os desfiles, já que envelopes eram lacrados e retirados pela polícia logo após a apresentação.

Os problemas de Medaglia, porém, não acabaram após a apuração - na verdade eles estavam apenas começando. O maestro relata que foi ameaçado e precisou de escolta policial 24 horas por dia."Fique duas semanas com a polícia na porta da minha. Queriam me matar", lembra Medaglia, que depois da traumatizante experiência nunca mais cogitou ser jurado em desfiles."Eles tratam as pessoas muito mal, e tem gente de alto nível que não se submete mais a essa humilhação. Você está lá para julgar, mas acaba sendo julgado", critica.