
Acidentes marcaram os dois dias de desfiles do Grupo Especial do Rio, como o que ocorreu em um dos carros da Unidos da Tijuca
Pilar Olivares/Reuters
Há quem diga que 2017 foi um Carnaval para se esquecer. Mas dificilmente a edição deste ano será apagada da memória de quem acompanha minimamente a festa. Muito por causa do título portelense, após jejum de 33 anos, mas também em grande parte pelos acidentes que marcaram os dois dias de desfiles do Grupo Especial do Rio. E não é exagero dizer que o Carnaval nunca mais será o mesmo.
Personalidades do samba ouvidas pelo Portal da Band são unânimes em afirmar que algo precisa ser feito, e que os acidentes servem de alerta para que o "maior espetáculo da Terra" tenha a segurança no mesmo nível que a fama e a beleza das alegorias e fantasias.
"As coisas precisam ser mudadas. Os caminhos para quem faz grandes alegorias tem que ser outro. Precisa ter mais segurança", diz Laíla, experiente diretor de Carnaval e Harmonia da Beija-Flor.
O dirigente aponta a falta de mão-de-obra especializada para cuidar da estrutura das alegorias como uma das carências. "Tem que contratar pessoas capacitadas para a montagem. Estão todos crescendo muito seus carros, mas não há um engenheiro. O meu 'engenheiro' é meu ferreiro", reclama Laíla.
'Engenheiro' ferreiro
Um dos carnavalescos da Unidos da Tijuca, Mauro Quintaes, que teve um dos carros envolvidos em um acidente, também denuncia a falta de engenheiros nas escolas. Em todas elas.
"É assim não só na Tijuca, mas em todas as escolas: quem faz a engenharia do Carnaval são os ferreiros. E que ninguém me desminta. Não venham com esse papo de que têm engenheiros. Não têm", diz Qiuntaes, enfático. "Não quero que esse episódio com a Tijuca abra para outros carnavalescos trazerem à luz a coisa de dizer 'trabalho com muita responsabilidade, tenho engenheiro'. Não vem com esse papo. Trabalha do mesmo jeito que nós trabalhamos", declarou.
A escola de Quintaes é conhecida como uma das mais profissionais, e possui na sua comissão de Carnaval um carnavalesco conhecido como um dos maiores conhecedores de ferragens, Helcio Paim. Alguns dos trabalhos mais elogiados de Paulo Barros na Tijuca teve Paim por trás. Por todos esses componentes, o acidente justamente com os tijucanos assombrou ainda mais o Carnaval.
As alegorias são vistoriadas e aprovadas pelo Crea e pelo Corpo de Bombeiros. Mas os acidentes sinalizam que falta algo.
"Vai haver uma fiscalização mais rigorosa, e acho isso muito benéfico. A maior festa popular do mundo não pode ter acidentes", prevê Quintaes.
O processo de escolha dos motoristas que guiam às cegas os carros na avenida também pode sofrer mudanças. Quem não acompanha Carnaval de perto descobriu, após o acidente com a alegoria da Tuiuti, que atropelou e imprensou mais 20 pessoas na armação, que são motoristas com habilitação para caminhões que ficam com a missão.
"Ele (Francisco de Assis Lopes, motorista da Tuiuti) disse q foi a primeira vez que dirigiu um carro alegórico. Não sei o que ele disse para o mecânico (responsável pela contratação). São coisas internas, nçao tenho certeza do que foi dito. E se ele falar que tem experiencia com carreto há 30 anos?", questionou o diretor de Carnaval da Tuiuti, Leandro Azevedo.
Muita gente
Motivo de críticas por alguns, a aglomeração de pessoas na concentração, sobretudo na curva para a Marquês de Sapucaí e na armação, passou dos limites, segundo alguns. É a opinião da carnavalesca Márcia Lage, que trabalha com o marido Renato Lage no Salgueiro.
"É inconcebível aquele emaranhado de gente", diz Márcia. O Salgueiro desfilou no mesmo domingo em que um carro da Paraíso do Tuiuti atropelou várias pessoas ao fazer uma ré na armação, deixando vinte feridos.
"Se passa um carro, não pode ter gente. Acho que vai ocorrer uma mudança para evitar que tragédias como essa não se repitam. Mas eu já previa. Foi uma tragédia anunciada. Carro não combina com essa multidão", diz.
Grande Carnaval x Carnaval grande
As escolas provavelmente terão suas alegorias passando por um olhar mais rigoroso - isso elas já devem ter aceitado. Mas não parecem dispostas a encolherem seus carros.
"O Carnaval é o maior espetáculo do mundo e há 40 anos, desde que frequento, vem dando certo", diz Francisco de Carvalho, o Chiquinho, presidente da Mangueira, refutando a ideia da encolhimento dos carros, mesma opinião do comandante da Tijuca, Fernando Horta.
"As escolas não devem diminuir o Carnaval, ele é gigante", declarou.
A diretoria da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) e as escolas devem debater as mudanças nos próximos dias, conforme Horta afirmou à reportagem. E logo podem ter que enfrentar um dilema imposto pela crise e os problemas enfrentados na avenida: fazer um grande Carnaval ou um Carnaval grande. Ou continuar tentando fazer os dois.
Veja imagens das musas do Carnaval do Rio:
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