Carnaval

Com Barros e nova cara, Portela se reinventa e encerra jejum

Escola "larga a cruz" de insucessos, afasta imagem de arcaica e ganha campeonato com técnica de escola moderna

ROMULO TESI, DO RIO DE JANEIRO

02/03/2017 • 03:25 • Atualizado em 02/03/2017 • 05:31

Festa na quadra da Portela: escola não era campeã do Carnaval do Rio de Janeiro desde 1984

Festa na quadra da Portela: escola não era campeã do Carnaval do Rio de Janeiro desde 1984

Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo

Na concentração da Portela, momentos antes do desfile campeão, um componente diz para outro: "Só a gente passar limpo". Não havia sinal de vibração com a infortúnio alheio ou regozijo. A notícia do acidente com o carro da Unidos da Tijuca chegava aos poucos. Na verdade, o clima é de responsabilidade ampliada. A escola já era favorita antes do Carnaval, e se preparava para confirmar a expectativa. Ao final do desfile, a águia chegou à Apoteose da mesma forma como saiu da Avenida Presidente Vargas: com pinta e gritos de campeã. Nesta quarta-feira, as notas confirmaram o 22º título, após 33 anos de espera.

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Para vencer, uma Portela como há muito não se via cruzou a Sapucaí. Sem erros, perfeita tecnicamente, sem clarões, com samba, canto e enredo claro sobre rios. O chão portelense é forte e pisa firme, e chegou ao dia do desfile sabendo o que tinha que fazer, como os componentes que conversavam na concentração. "A Portela desfilou certinha, sem alarde", avaliou Monarco ao Portal da Band, ainda na terça-feira de Carnaval, antes do resultado.

A imagem de diretores de harmonia conduzindo a escola com semblante tranquilo, sem tensões, nem de longe lembravam a história recente da escola, que chegou a ser motivo de chacota por sucessivas falhas.

As crianças

Como um time de futebol, o título deste ano pode rejuvenescer a escola. "As crianças estavam crescendo sem ver a Portela campeã", lembrou Serginho Procópio, ex-presidente, membro da Velha Guarda e filho de Osmar do Cavaco. "Agora isso é história", completou.

A mudança de ares que deu no título deste ano, e o fim do jejum (de 47 anos, se for contado apenas as conquistas não divididas) começou com o que muitos classificam como revolução. Sob a liderança de Marcos Falcon, um grupo de portelenses que militavam na escola fez a águia reagir a partir de 2013.

Falcon morreu no ano passado, assassinado em plena campanha para vereador do Rio de Janeiro. Mas antes deixou um inegável legado. A Portela da chacota pelas falhas e pela falta de títulos recentes não existe mais. "A Portela não vai mais carregar a cruz do jejum", gritou um emocionado Luis Carlos Magalhães, presidente da escola, que assumiu após a morte de Falcon e a quem dedicou a conquista.

Barros

Coube a Falcon, por exemplo, a contratação de Paulo Barros. "Não lembro de ter um carnavalesco tão de ponta como o Paulo Barros na Portela", diz Marcelo Moura, um dos fundadores da Guerreiros da Águia, torcida organizada portelense.

Barros acabou sendo outro pilar da virada da águia. O carnavalesco, que acaba de faturar seu quarto título, ainda divide opiniões. E assim foi quando contratado em 2015. O artista vinha de um desfile contestado plasticamente pela Mocidade, com inovações de gosto duvidoso, como o fogo na saia da porta-bandeira Lucinha Nobre. Com essas credenciais, Barros chegou à Portela cercado de dúvidas, principalmente pelo choque da tradição da escola com o modernismo do carnavalesco.

No entanto, logo no primeiro ano, a Portela chegou à Apoteose como em 2017, favorita ao título. Até a Mangueira passar em seguida e quebrar a banca. Este ano o clássico se repetiu, mas quem levou a melhor foi a águia. Não por acaso, um confiante Barros bradou após a escola tomar a avenida: "chupa essa manga!"

"Paulo Barros fez com um casamento bonito com a Portela", diz Monarco, 70 anos de escola. O sambista ressalta que o carnavalesco não mexeu nas tradições mais sagradas da escola, mas que a Portela é muito mais moderna do que a fama sugere.

"A Portela é uma escola jovem, inovadora. Esse negócio de escola muito tradicional é de fora para dentro. Ela acompanha a evolução do mundo", diz o compositor. Tá certo, mestre, mas hoje foi dia do mundo acompanhar a Portela.

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