
Comissão de frente do Salgueiro se apresenta na Marquês de Sapucaí
Fábio Motta/Estadão Conteúdo
Canto forte, bela plástica, evolução sem problemas e enredo claro. O Salgueiro que desfilou na madrugada desta terça-feira no Sambódromo do Rio de Janeiro deixou a pista como a escola com o maior número de credenciais para a conquista do título do Carnaval 2018. Condição, diga-se, obtida após a apresentação, e não antes, como em anos anteriores.
Em alguns Carnavais passados, a escola da Tijuca já era apontada como a mais cotada meses antes do desfile, mas perdia o título na avenida - às vezes nos primeiros metros dela. Dessa vez, o Sal pode ter garantido o título ao chegar na Praça da Apoteose, local da apuração desta quarta-feira.
Curiosamente, pouco se sabia do Salgueiro no Pré-Carnaval. Mineiramente, a escola fez pouco alarde de si mesma e do enredo sobre as matriarcas negras. Entre o povo do samba, um comentário era comum: "ninguém está falando do Salgueiro". Enquanto isso, a atenção estava voltada para os enredos engajados de Beija-Flor, Paraíso do Tuiuti e Mangueira. E é justamente a Estação Primeira a principal ameaça para os salgueirenses.
Mangueira
A escola do carnavalesco Leandro Vieira, este cada vez mais firme no posto informal de "O Cara" do Carnaval, fez uma ode aos foliões da rua, com uma crítica bem-humorada ao prefeito Marcelo Crivella. Este veio na Manga na forma de um boneco de Judas, em um carro alegórico. Questionado pela reportagem sobre a possível reação do prefeito, Vieira disparou: "eu estou cagando para o que Crivella pensa".
A Verde-e-Rosa, apesar de alguns problemas de evolução, está firme no páreo.
Tuiuti
Na mesma linha, a Tuiuti questionou o fim da escravidão, encerrada formalmente há 130 anos com a Lei Áurea. O carnavalesco Jack Vasconcelos fez o que há muitos anos não se via na Sapucaí: uma crítica ácida e direta, nomeando os alvos sem medo de chamar para a briga.
Corajosas, Mangueira e Tuiuti mostraram que as escolas podem ser relevantes e que é possível fazer com que as pessoas se identifiquem, formando um novo público para o samba.
Tudo depende do resultado de quarta. Se ao menos uma dessas vencer, ou terminar em uma boa colocação, a tendência é que a dose se repita em outras agremiações.
No entanto, a diferença entre as duas na classificação deve ser proporcionalmente menor que a distância entre suas comunidades, praticamente vizinhas no bairro de São Cristóvão. Com vantagem para a Mangueira.
Se voltar no Sábado das Campeãs, como uma das seis primeiras, a Tuiuti teria alcançado com folga a meta de simplesmente não cair. Mas a repercussão do desfile, sobre a escravidão e suas consequências, além das críticas a Temer e reformas, deixou integrantes da escola animados. Some-se a isso a apresentação em si, tranquila e sem problemas. Estas foram, inclusive, marcas das atuais campeãs Mocidade e Portela, só que sem o carisma e a criatividade das outras.
Mocidade
A escola de Padre Miguel mostrou um enredo às vezes mal resolvido, apesar da ótima e bem sacada sinopse, que rendeu o melhor samba da safra. Este, porém, não aconteceu como esperado, e, como um efeito dominó, pode ter causado uma contaminação em outros quesitos.
Portela
A Portela, contando a saga dos judeus que deixaram Pernambuco e ajudaram a fundar Nova York, passou sem problemas e com a precisão de quem aprendeu a ser regular. Foi-se o tempo em que a Águia criava expectativa por motivos pouco nobres. O samba, ainda que muito cantado, tem letra em conflito com o enredo.
Beija-Flor
Incluída no rol de escolas com enredos engajados, a Beija-Flor não deve brigar por título, e nem seria surpresa se voltasse a ficar fora das seis primeiras. O enredo, que pretendia bater forte na corrupção e suas consequências, acabou virando um grande ataque a "tudo que está aí". Mas o problema principal não foi a falta de contundência na crítica, mas a plástica. Os carros, por exemplo, foram concebidos em sua maioria para encenação de atos, com dramatizações, mas aparentemente sem preocupação estética.
O que faz a Deusa da Passarela ainda ser cotada para voltar no Sábado das Campeãs são os quesitos de chão. O belo samba foi berrado pela escola, em mais uma demonstração de força da turma de Nilópolis.
Vila Isabel pode brigar por um lugar no G6. Unidos da Tijuca, com um desfile leve e brincalhão, está na mesma disputa, assim como a União da Ilha. O mesmo vale para Imperatriz. Apesar da plástica pouco inspirada, passou bem com um samba que pode ter ganhado pelo menos mais um décima na avenida.
Presença garantida no Sábado nos últimos anos, a Grande Rio pode brigar para não cair, depois do problema com o carro alegórico na concentração. Nesta parte da tabela, os concorrentes são Império Serrano e São Clemente.
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