Carnaval

Desfiles do Rio prometem ser os mais politizados desde os anos 80

Corte de verba gerou reclamação, mas também promoveu a volta dos enredos críticos

ROMULO TESI, DO RIO DE JANEIRO

11/02/2018 • 06:42 • Atualizado em 11/02/2018 • 06:42

A Portela foi a campeã do Carnaval carioca em 2017

A Portela foi a campeã do Carnaval carioca em 2017

Fernando Grilli/Riotur

Com 13 escolas de samba, o Grupo Especial do Rio de Janeiro abre seus desfiles na Marquês de Sapucaí neste domingo - quase oito meses depois de serem cancelados. Talvez nem todos lembrem, mas no dia 15 de junho do ano passado, a notícia era que a Liesa, por conta do corte de verba de 50% na verba da Prefeitura às agremiações, havia anunciado que, sem o dinheiro, não haveria Carnaval.

Compartilhar

Hoje, a algumas horas do Império Serrano entrar na avenida, a medida soa como um delírio non sense, ou até uma ameaça, como se fosse possível o Rio de Janeiro ficar sem seu maior evento, manifestação mais carioca de toda cultura da cidade.

A redução da verba aconteceu, e haverá desfiles, sim, talvez com alguns dos mesmos problemas de sempre. Mas, ainda que as escolas reclamem da falta de dinheiro, o corte teve ao menos uma consequência comemorada pelo povo do samba: uma safra de enredos críticos, que produzirão o Carnaval mais politizado dos últimos anos, como não se via desde a década de 80.

A Mangueira, inclusive, tirou da tesourada de Crivella a inspiração inicial para o enredo "Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco". Conclamando o povo da rua a pular Carnaval mesmo na pindaíba, o carnavalesco Leandro Vieira e a Verde-e-Rosa se transformaram em porta-vozes dos anseios de mudança dos amantes das escolas de samba. E Vieira nem esconde que trata Crivella como adversário.

Já a Beija-Flor fará uma crítica mais abrangente, em que os corruptos poderosos que drenam os recursos do povo e criam pobreza são os alvos principais. Os desvios da Petrobras, por exemplo, são tratados como causadores de miséria pelo comissão de carnavalescos da escola, que jogará luz nos marginalizados - o que, mesmo que involuntariamente, faça lembrar o histórico "Ratos e Urubus". Aqui, a crítica não é direta a Crivella, mas o trecho do samba "me chamas tanto de irmão e me abandonas ao léu" tem endereço certo.

Ainda nos enredos de protesto, a Paraíso do Tuiuti usa os 130 anos da Lei Áurea para questionar o fim da escravidão. Pelas fantasias divulgadas pela escola, inspiradas na reforma trabalhista e nos manifestantes que defendiam o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o carnavalesco Jack Vasconcelos tem uma resposta triste a dar aos brasileiros no desfile deste domingo.

Uma das atuais campeãs, a Portela levará para a Sapucaí um enredo que, na primeira leitura, sugere uma narrativa simples sobre os judeus que deixaram Pernambuco no século 17 e ajudaram a fundar Nova York. Mas a carnavalesca Rosa Magalhães vai usar a saga desse povo para falar também de xenofobia e intolerância.

Se a "revolta" é breve ou perene, depende de muita coisa, a começar por hoje. Dependendo das notas, a tendência é que as escolas apostem na crítica. Com dinheiro ou sem dinheiro.

Veja abaixo a ordem dos desfiles dos dois dias e os respectivos enredos.

Domingo – 11 de fevereiro1 – Império Serrano - O Império do Samba na rota da China, sobre o país asiático2 – São Clemente - Academicamente Popular, em homenagem aos 200 anos da Escola de Belas Artes3 – Vila Isabel - Corra que o futuro vem aí, sobre os inventores e suas criações4 – Paraíso do Tuiuti - Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?5 – Grande Rio - Vai para o trono ou não vai?, homenagem a Chacrinha6 – Mangueira - Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco7 – Mocidade - Namastê: a Estrela que habita em mim, saúda a que existe em você, sobre a Índia

Segunda-feira – 12 de fevereiro1 – Unidos da Tijuca - Um coração urbano: Miguel, arcanjo das artes, saúda o povo e pede passagem, homenagem ao ator Miguel Falabella2 – Portela - De Repente de Lá Pra Cá e Dirrepente de Cá Pra Lá3 – União da Ilha - Brasil bom de boca, sobre a culinária brasileira4 – Salgueiro - Senhoras do ventre do mundo, sobre as matriarcas negras5 – Imperatriz - Uma noite real no Museu Nacional, sobre o Museu da Quinta da Boa Vista6 – Beija-Flor - Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu