Carnaval

Escolas negam polarização, mas dão tom político no Sambódromo do Anhembi

Com narrativas opostas, ao menos dois enredos tratam de política na primeira noite de desfiles em SP

DO ESTADÃO CONTEÚDO

01/03/2019 • 11:56 • Atualizado em 01/03/2019 • 12:18

O Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, está preparado para os desfiles

O Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, está preparado para os desfiles

Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo

As escolas de samba de São Paulo negam qualquer intenção de reproduzir a polarização do universo político na avenida e não querem ouvir falar de direita ou esquerda. A tendência, pelo menos no Sambódromo do Anhembi, é de pouca crítica ou elogio ao atual governo e seus personagens.

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Ainda assim, com um pouco de atenção, é possível destacar uma curiosa sequência de desfiles na madrugada deste sábado, 2, no Carnaval de avenida em São Paulo. Às 2h30, a Acadêmicos do Tucuruvi entra no sambódromo com o enredo Liberdade - O Canto Retumbante de um Povo Heroico. Depois dela (às 3h35), será a vez da Acadêmicos do Tatuapé, com o enredo Bravos Guerreiros. Por Deus, Pela Honra, Pela Justiça e Pelos que Precisam de Nós.

As duas escolas de samba tratam de política, mas com narrativas opostas. Na Tucuruvi, por exemplo, o foco é nos movimentos sociais e em manifestações, como Parada Gay e greve dos professores (com destaque para o último carro, tratará do embate eleitoral entre “Ele Sim” e “Ele Não” - expressões usadas por detratores e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro durante a campanha, no ano passado).

Além disso, o samba da Tucuruvi traz referências a músicas de Caetano Veloso ("Caminhar contra o vento, eu vou...), Geraldo Vandré ("Quem sabe faz a hora, não espera acontecer..."), Chico Buarque ( "Apesar de você...") e ao cancioneiro da sambista Clara Nunes.

Já a Acadêmicos do Tatuapé segue pela linha do patriotismo e amor ao País: "Sou brasileiro…/Vou defender minha nação/Oh Pátria amada idolatrada não chores em vão/Sou brasileiro…". O presidente da escola, Eduardo dos Santos, nega qualquer intenção política no desfile da escola. "Não pode ter militância, não pode ter ideologia. Na escola, temos componentes de direita e de esquerda, o nosso papel social é abrigar todas as pessoas."

Outras

Às 23h15 desta sexta-feira, 1, a Colorado do Brás inicia a noite com o enredo Hakuna Matata Isso é Viver. A agremiação vem com um tema recorrente nas escolas de São Paulo, a cultura negra e a África - principalmente o Quênia. A Mancha Verde, que desfila à 1h25, também tem a cultura africana como ponto de partida. Ela vai falar do Congo e seus Orixás.

Segunda escola a desfilar, o Império da Casa Verde traz o momento mais pop do sambódromo, com o enredo O Império Contra-Ataca. Além da óbvia autoreferência, a escola vai brincar com a ideia de Star Wars ("Tudo vai se transformar, tudo pode acontecer/ Imperiano, que a força esteja com você"). Podemos esperar sabres de luz e até um Darth Vader na avenida. O desfile será todo pontuado por personagens e momentos cinematográficos.

Já a X-9 Paulistana, a penúltima na avenida, sofreu uma baixa de última hora. O homenageado pela escola, o sambista Arlindo Cruz, que completou 60 anos, não estará presente no desfile. Mesmo liberado pela equipe médica - ele sofreu um acidente vascular cerebral há dois anos, a família não trará Cruz para o desfile. "O maior entrave para a confirmação da viagem do artista para o desfile da escola de samba se deu em torno do custo da infraestrutura de equipes, médica, produção e de segurança, além de transporte e transfer especial para que todo esse trâmite fosse feito livre de perigo", diz a nota da família no perfil do Instagram de Babi Cruz, mulher de Arlindo.

Fé x ciência

A escola Tom Maior, que vem com o enredo Penso... Logo existo - As Interrogações do Nosso Imaginário em Busca do Inimaginável fecha a primeira noite de desfiles. A agremiação vai misturar religião com teoria da evolução no mesmo samba. A oposição entre fé e ciência deve encerrar o primeiro dia do Anhembi com alguma polêmica. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.