Enredo
O Império Serrano apresentará no Carnaval 2026 o enredo “Ponciá Evaristo Flor do Mulungu”, desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves. A escola prestará homenagem à escritora Conceição Evaristo, referência da literatura negra brasileira, inspirando-se em suas “escrevivências”, conceito que une literatura e vivências das mulheres negras. A proposta é criar um conto poético que mistura personagens marcantes da autora com elementos biográficos, ressaltando a força de sua escrita na luta contra o racismo, as desigualdades sociais e a violência de gênero.
Comissão de frente
Desenho de mãe, o nascimento da minha escrita Ponciá-Evaristo se constrói a partir de suas referências fundadoras: a mãe, as tias, as mulheres do cotidiano, a ancestralidade e a escrita. É nesse conjunto de experiências femininas que a personagem se forma e encontra a origem de sua voz. Nesse ambiente, lavadeiras realizam o trabalho cotidiano. Uma delas desenha o sol no chão, em referência direta à mãe de Ponciá-Evaristo. Enquanto isso, a artista que representa a personagem observa atentamente a cena e, a partir dessa observação silenciosa e profunda, nasce sua paixão pela escrita. O ápice dramático da apresentação ocorre com a representação da dor materna. Um familiar desaparece em cena, simbolizando a violência que atravessa essas comunidades. As mães choram. Diante desse lamento coletivo, Oxum surge, enxuga as lágrimas e protege seu povo e suas crianças, reafirmando seu papel ancestral de cuidado, acolhimento e preservação da vida. Ao final, as mães se levantam e reafirmam o compromisso de não desistir e de continuar vivendo. Ponciá permanece observando, deixando claro que sua escrita nasce dessa vivência coletiva: da dor transformada em palavra, da memória ancestral e da resistência das mulheres negras.
Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira
O Mulungu ancestral e a flor do Mulungu Ancestral é a árvore sagrada que simboliza a memória profunda, a raiz africana e o tempo longo da diáspora. O mulungu é tronco, é chão, é abrigo. É a África que reúne os seus em seus galhos, sustentando vidas atravessadas pela violência da escravização, mas também pela permanência dos saberes ancestrais. Como árvore medicinal, o mulungu carrega a sabedoria do cuidado e da estratégia. Seu uso tradicional — que acalma, protege e silencia a opressão — remete às tecnologias de sobrevivência criadas pelos povos escravizados. É a ciência ancestral que opera na sutileza, no conhecimento do tempo certo e da resistência invisível. O Mestre-Sala, ao personificar esse tronco ancestral, guarda o axé, sustenta o ritmo e protege o caminho por onde a história vai passar, assim como suas funções culturais de cortejo e proteção ao pavilhão. Em cena, o Mulungu Ancestral é o guardião da memória: aquele que enraíza o desfile no tempo do ontem, assegurando que o futuro não se construa sem lembrar. Ele representa a força silenciosa que sustenta o povo, a estabilidade que permite o florescimento, o corpo que dança sem se romper, mesmo atravessado por séculos de violência estrutural.
Síntese da potência feminina negra e figura central da escrevivência-enredo, a Flor do Mulungu é estado de graça. É beleza que nasce da resistência. É a mulher negra que verte em leite a seiva que dá a vida. É criança, adulta e anciã ao mesmo tempo: flor do ontem–hoje–amanhã. A Flor do Mulungu enxerga o tudo e o nada. Ela carrega o axé da continuidade — de sua comunidade, de seu bem maior, de seu pavilhão. As flores de mulungu tornam-se porta-vozes de mulheres que transformam dor em linguagem, memória em escrita e vivência em pensamento. A flor não morre: ela se renova. Leva consigo a potência da vida e se torna força motriz de um povo que insiste em existir, amar e sonhar. Ao conduzir o pavilhão, a Flor do Mulungu afirma que a palavra escrita nasce da vida e que a vida, quando narrada por mulheres negras, transforma o mundo.
Abre-alas
A alegoria “Consagração” sintetiza o primeiro capítulo do desfile, dialogando estética e conceitualmente com as alas apresentadas anteriormente. Ela representa a consagração da personagem central do enredo, Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu, a Nossa Senhora da Conceição e, consequentemente, a Oxum.Estruturado em duas partes, o carro apresenta, em sua porção frontal, a figura de Oxum e a força das águas doces — os Olhos-d’Água — concebidos como um grande assentamento simbólico da orixá. Já a parte traseira da alegoria retrata um grande festejo em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, ornamentado conforme as tradições populares do catolicismo, com destaque para a berlinda que conduz a imagem da santa.A estética da alegoria inspira-se nas religiões de matriz africana e no afro-catolicismo, expressão religiosa e cultural surgida do encontro entre o catolicismo europeu e as cosmologias africanas, especialmente bantu e iorubá. Mais do que um simples sincretismo, o afro-catolicismo consolidou-se como estratégia de resistência e preservação da ancestralidade negra frente à violência do sistema escravocrata. Nesse contexto, símbolos e santos católicos foram ressignificados a partir de valores africanos, mantendo vivos rituais, memórias e modos de existência.Figuras como Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora da Conceição e São Benedito tornaram-se referências centrais para comunidades negras, assim como as irmandades e as festas populares — entre elas Congadas, Reinados e Folias — que articulam fé, música, dança e oralidade.O nome do carro dialoga diretamente com esse momento de consagração da escritora homenageada pelo desfile. Entregue às palavras e ao axé das ancestrais, Conceição Evaristo, assim como Nossa Senhora da Conceição foi consagrada em seu batismo, tem essa consagração simbolicamente reafirmada pela escola. A autora surge em destaque na parte frontal da alegoria, representando a personagem-título do enredo e celebrando a união entre fé, ancestralidade e literatura.
Destaques Principais:
- Conceição Evaristo — Fantasia: Ponciá-Evaristo-Flor-do-Mulungu
- Diogo Ribeiro — Fantasia: Anjo anunciador dos festejos
Semi-destaques
- Fantasia: Fundamentos do Axé
Composições
- Significado: Santíssimos festejos
- Significado: Fiéis (Velha-Guarda)
Rainha de bateria
Quitéria Chagas
Samba-enredo
Compositores: Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romai, Marco Aurélio, Victor Mendes, Mateus Pranto e Gabriel Simões.
Sou eu, a Flor do Mulungu Brilham os olhos d’Água! Orayeyê! É de Mamãe Oxum!Sou Ponciá ConsagradaEntregue às palavrasE ao axé das ancestraisSe tempos atrásEcoavam vozes do porãoHoje reescrevo a história, poesia a despertar nas pretas mãosNos becos da minha memóriaMeu verbo é ouro de aluviãoMeu verso é barro de artesãoPra Folia de Reis, chamo vô e chamo tioNa Folia de Reis, vou vivendo por um “fio”Ô lê lê, lá vem batuque, pra congada começarAngorô, vira menino! Angorô, não vou virar! Não é fácil emergir nesse contrasteBenevuto, a maldade, não quer me ver sorrirNo refúgio desses becos e vielasDe mãos dadas com SabelaEu só quero ser felizO Rio que me acolheu me ensinou também a florirVi muita gente de lá no rosto negro do povo daquiSou eu quem dá voz à caneta que silencia o fuzilMe torno imortal no Livro BrasilMalungo! Que Negro- Estrela possa ser reconhecidoSem o choro de um futuro interrompidoPor todo preto, escreviver!"A gente combinamos de não morrer!" (Combinamos de não morrer!)Chamei Maria, preta velha jongueira…Vovó Joana, pra benzer Madureira Busquei Ivone pra matar essa saudade O negro é raiz da liberdade!É Kizomba de preta literatura!É escrita sem censura no Império a florescer!Casa de Preto também é Academia Serrinha… Ponciá Yalodê!
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