Celina Torrealba vê FID:RIO consolidar Rio como espaço de cultura e memória
Produtora Celina Torrealba destaca bastidores do FID 2026, com cinema de rua, memória histórica e intercâmbio artístico.

Sessões lotadas, debates que mobilizaram o público e experiências que aproximaram cinema, música, artes visuais e memória histórica marcaram a segunda edição do festival, segundo a produtora artística Celina Borges Torrealba Carpi.
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Ao longo de dez dias de programação, a segunda edição do FID:RIO – Festival Internacional de Artes e Cinema de Não Ficção reafirmou a proposta de ampliar os limites do cinema documental e transformar diferentes espaços culturais do Rio de Janeiro em ambientes de encontro, reflexão e criação. Mais do que reunir produções nacionais e internacionais, o festival consolidou-se como uma plataforma dedicada ao diálogo entre cinema, música, teatro, artes visuais e pensamento crítico, aproximando artistas, pesquisadores e o público em torno de temas que atravessam a memória, a identidade e a realidade contemporânea.
Para a produtora artística Celina Borges Torrealba Carpi, um dos principais resultados desta edição foi perceber que o público respondeu não apenas às exibições, mas também à oportunidade de compartilhar experiências e prolongar o debate para além da tela.
"O que mais nos marcou foi perceber que as pessoas queriam permanecer nos espaços do festival. Os debates continuavam muito depois do encerramento das sessões, o público fazia perguntas, compartilhava experiências e construía coletivamente novas leituras sobre os filmes. O FID:RIO nasceu justamente com esse propósito: transformar o cinema em um espaço de encontro e reflexão", destaca a cineasta.
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Cinema ocupa novos espaços e amplia o acesso à cultura
Entre os momentos mais simbólicos do festival esteve a exibição de Apopcalipse Segundo Baby, realizada na tradicional Banca do André, na Cinelândia. O cinema ao ar livre reuniu um público muito superior à capacidade prevista, com centenas de pessoas acompanhando a sessão, ocupando cadeiras, sentando-se no chão e acompanhando espontaneamente a projeção enquanto circulavam pela região central da cidade.
Segundo Celina, essa ocupação do espaço público sintetiza um dos princípios do festival:
"O cinema de rua talvez seja a forma mais democrática de acesso ao audiovisual. Quando ocupamos espaços públicos, aproximamos pessoas que muitas vezes não planejavam assistir a um filme, mas acabam participando da experiência, permanecendo para o debate e descobrindo novas formas de olhar para a realidade."
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A proposta dialoga com uma tendência observada internacionalmente de ampliar o acesso à cultura por meio da ocupação dos espaços urbanos e da aproximação entre manifestações artísticas e diferentes públicos, fortalecendo a participação cultural como elemento de cidadania.
Memória, democracia e direitos humanos atravessaram a programação
Outro aspecto marcante da edição foi a presença de obras que utilizaram arquivos históricos e testemunhos para estabelecer conexões entre acontecimentos do passado e desafios contemporâneos.
A exibição de Anistia 79, encerrando a programação na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), emocionou o público ao revisitar episódios da ditadura militar brasileira a partir de documentos históricos recuperados durante pesquisas realizadas no exterior. A sessão foi seguida por um debate que lotou o espaço e ampliou a discussão sobre memória, democracia e direitos humanos.
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A programação também apresentou instalações audiovisuais que aprofundaram esse diálogo. Em El Juicio, construído a partir das gravações originais do julgamento da junta militar argentina, o público pôde acompanhar, em formato expositivo contínuo, um dos principais registros históricos da redemocratização latino-americana. Já a instalação Mirante trouxe um olhar sensível sobre o cotidiano da sociedade cubana em meio às tensões políticas contemporâneas.
Para Celina Torrealba, essas obras demonstram como a não ficção ultrapassa o registro documental e se transforma em instrumento de reflexão social.
"A não ficção tem a capacidade de conectar diferentes tempos históricos e provocar perguntas que permanecem atuais. Quando colocamos essas obras em diálogo com o público, ampliamos a possibilidade de refletir sobre democracia, direitos humanos e as escolhas que fazemos como sociedade."
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Intercâmbio artístico fortalece o papel do FID:RIO na cultura latino-americana
Além das exibições cinematográficas, o festival reafirmou sua vocação multidisciplinar ao reunir artistas de diferentes linguagens. A participação da cineasta argentina Lucrecia Martel, que apresentou o documentário Nuestra Tierra e conduziu uma extensa masterclass aberta ao público, tornou-se um dos momentos mais aguardados da programação. Em um encontro marcado pela troca de experiências, Martel respondeu às perguntas dos participantes e promoveu uma reflexão sobre linguagem cinematográfica, memória e sociedade.
Outro destaque foi a apresentação da cantora argentina Julieta Laso, que realizou seu primeiro espetáculo no Rio de Janeiro. Reconhecida por aproximar tango, música popular latino-americana e questões sociais, a artista lotou o teatro do Centro Cultural da Justiça Federal em uma apresentação que evidenciou a proposta do festival de aproximar diferentes linguagens artísticas sob a perspectiva da não ficção.
Também integrou a programação o documentário Universo Circular, dirigido por Dácio Pinheiro e dedicado à trajetória da compositora Jocy de Oliveira. A obra, construída a partir de uma linguagem não cronológica, experimental e poética, motivou um debate sobre experimentação estética e novas formas de narrativa audiovisual.
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Segundo Celina Torrealba, esse diálogo entre cinema, música, teatro e artes visuais representa um dos principais legados da edição.

"O FID:RIO mostrou que a não ficção não pertence apenas ao cinema. Ela atravessa diferentes linguagens e cria conexões entre artistas, pesquisadores e público. Quando essas experiências se encontram, fortalecemos não apenas o audiovisual, mas todo um ecossistema cultural comprometido com a criação, a memória e o pensamento crítico."
Ao encerrar sua segunda edição, o FID:RIO consolida um modelo que combina exibição, formação, intercâmbio internacional e ocupação cultural da cidade. Mais do que apresentar obras, o festival reafirma o papel da arte como espaço de diálogo e evidencia uma tendência cada vez mais presente no cenário contemporâneo: a de que festivais culturais deixaram de ser apenas vitrines de produções para se tornarem plataformas permanentes de encontro, circulação de ideias e construção coletiva de conhecimento.
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