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Marvin Gaye: morto pelo pai com arma comprada na véspera do aniversário

No aniversário da despedida do príncipe da Soul Music, relembre o contraste entre o topo das paradas e o abismo de uma relação familiar conturbada

Júlia Cabral
JÚLIA CABRAL

02/04/2026 • 10:24 • Atualizado em 02/04/2026 • 10:24

Marvin Gaye, príncipe do soul

Marvin Gaye, príncipe do soul

Marianna Diamos/Los Angeles Times

Abril guarda uma ironia cruel do mundo da música. Em 1984, Marvin Gaye, o homem que ensinou o mundo a entender as dores sociais em "What’s Going On" e a celebrar a intimidade em "Sexual Healing", foi assassinado no auge de um retorno triunfal. Mais do que a perda de um ícone, a morte do príncipe do soul foi o desfecho de uma melodia dissonante que ele carregava desde o berço: a busca incessante pela aprovação do mesmo pai que o matou.

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Marvin Gaye, soul singer, songwriter, and musician, in Los Angeles.

George Rose / Los Angeles Times

Entre o ápice e o abismo

Aquele início de 1984 deveria ser de celebração. Marvin havia acabado de atravessar os Estados Unidos em uma turnê extenuante, colhendo os frutos do álbum Midnight Love. O sucesso era estrondoso; os repasses financeiros e o reconhecimento por "Sexual Healing" devolviam ao artista o trono da R&B. Mas, por trás do glamour das luzes, o refúgio em Los Angeles escondia um homem fragilizado.

Entre o brilho da fama e o isolamento do quarto de hóspedes, Marvin lutava contra demônios internos — a depressão, a paranoia e o uso de cocaína que, segundo relatos da época, o transformavam em uma pessoa "bestial". Era uma alma dividida, como bem definiu o biógrafo David Ritz, tentando descansar no seio de uma família disfuncional e problemática.

Uma casa dividida

A relação com o patriarca, o pastor Marvin Gaye Sr., nunca foi preenchida pelo afeto. Alberta, a mãe que era o pilar emocional do cantor, descreveu com dor a lacuna que existia naquela casa:

Meu marido nunca quis Marvin e nunca gostou dele. Ele costumava dizer que não achava que era realmente seu filho

Essa rejeição silenciosa, que Marvin entendeu antes mesmo de envelhecer, culminou em uma discussão fútil sobre um documento de seguro em uma tarde de domingo. O que era apenas uma discussão verbal entre os pais escalou para uma briga física quando o músico interveio para proteger a mãe.

Marvin Gaye tomando café da manhã com sua mãe e seu irmão Frankie em Los  Angeles, 1978. Foto de Bruce Talamon. : r/OldSchoolCool

Marvin, a mãe e o irmão Frankie em Los Angeles

Em meio a empurrões e agressões, o pastor deixou o quarto e retornou com uma pistola Smith & Wesson .38 Special, dada de presente pelo próprio Marvin para que o pai pudesse se defender de assalto ou violência dentro de casa. Foram dois disparos. O primeiro, fatal, perfurou o coração do artista que tanto cantou sobre o amor. O segundo, à queima-roupa, selou o fim de uma era.

O pai de Marvin se arrependeu?

A cena que se seguiu foi de um horror indescritível. Alberta viu seu primogênito morrer enquanto o marido mergulhava no pranto ao perceber a extensão de seu ato. No tribunal, o pastor alegou medo e legítima defesa, afirmando que o filho vivia em paranoia. "Se eu pudesse trazê-lo de volta, eu o faria. Eu estava com medo dele", declarou em júri, embora a condenação por homicídio culposo tenha lhe rendido apenas uma pena suspensa e a solidão de um asilo até sua morte, em 1998.

Arquivo de marvin gaye - Página 2 de 2 - | Página 2

Hoje, quatro décadas depois, a imagem de Marvin Gaye transcende a tragédia de sua partida. Ele permanece como uma divindade da black music, um mestre da técnica que sabia ser, ao mesmo tempo, provocador e vulnerável. Se a vida de Marvin foi marcada por uma "intenção" profunda — como ele mesmo diria sobre sua arte —, seu legado é a prova de que a beleza de sua voz foi capaz de sobreviver até mesmo ao silêncio imposto pelo ódio. Marvin não resistiu aos ferimentos daquela tarde, mas sua música continua, integralmente, a nos curar.