Esporte na Band

Em 1994, Camarões enfrentou Brasil com fome, sem grana, e com ajuda de Spike Lee

Cineasta organizou festa em Los Angeles para arrecadar dinheiro para o time que estava sem uniforme, bolas, chuteiras e dinheiro

Paulo Guilherme Guri
PAULO GUILHERME GURI

02/12/2022 • 12:26 • Atualizado em 08/12/2022 • 13:36

Blog do Guri
Spike Lee, diretor de cinema, organizou uma festa em 1994 com renda para Camarões

Spike Lee, diretor de cinema, organizou uma festa em 1994 com renda para Camarões

Bob Strong/Reuters

Copa de 1994, nos Estados Unidos. O primeiro dia de cobertura da minha primeira Copa como jornalista foi de longe o mais louco de todos, digno de um roteiro de filme de Hollywood. Estava em Los Angeles e fui acompanhar o treino da seleção de Camarões na cidade de Oxnard. Seria o encontro com os “Leões Indomáveis”, que quatro anos antes tinham encantado o mundo com sua alegria e bom futebol. Mas o que eu encontrei foi um cenário bem diferente.

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Naquela Copa, Camarões seria um dos adversários do Brasil na primeira fase, ao lado da Rússia e da Suécia. A seleção camaronesa estava concentrada na cidade de Oxnard, na região da grande Los Angeles, e treinava em uma escola secundária típica norte-americana.

Assim que cheguei encontrei Jean-Pierre Tokoto, o chefe da delegação. Ele era um dos astros do time de Camarões na primeira participação da seleção em Copas, em 1982. Jogava com a camisa 10, era elegante e atuava sempre de cabeça erguida. Tokoto era também uma das figurinhas do álbum daquele Mundial. Continuava elegante.

Fui ver o treino. Lá estava o grande astro Roger Milla, o veterano artilheiro, na época com 42 anos. Milla ficava sentado em um canto, ninguém podia chegar perto. Conheci dois jornalistas franceses do L'Equipe que me ajudaram a entender o que rolava ali. “Está a maior crise aqui. O time não tem dinheiro, os jogadores estão cobrando para dar entrevistas. Milla só fala se alguém pagar", me explicou o colega francês.

Ao final do treino um jogador solta um palavrão em português. Era David Embé, que na época jogava no Belenenses, em Portugal, e tinha aprendido a linguagem da bola na nossa língua. Fui falar com ele, mas o Embé preferiu pedir ajuda a Emile M'Bouh, outro que já tinha jogado em Portugal e falava bem o português.

“Ô, brasileiro, tudo bem? Pois não, é o seguinte. A gente não tem chuteiras para treinar, falta uniforme, as bolas são emprestadas aqui pelo colégio americano e o dinheiro que nos prometeram, nada”, revelou M'Bouh.

O técnico de Camarões era Henri Michel, ex-treinador da seleção francesa. Ficou felizão de ver um jornalista brasileiro por ali, mas não queria dar nenhuma entrevista formal. Nem precisava. A crise escancarada pelos jogadores já era uma pauta e tanto.

Spike Lee fez a coisa certa

Na hora de ir embora, o jornalista francês veio me dar um toque: os jogadores Roger Milla, Oman Biyik e o goleiro Joseph-Antoine Bell iriam dar uma entrevista coletiva na loja do diretor de cinema Spike Lee na Rodeo Drive, a rua mais famosa de Los Angeles. Spike Lee soube que os “Leões Indomáveis” estavam famintos e resolveu ajudar.

Eu segui até lá e entrei na loja do famoso cineasta de Hollywood, na época famoso pelo filme “Faça a Coisa Certa”, sobre a questão dos negros e a violência que sofriam nos Estados Unidos. Spike Lee anunciou que organizou uma festa em um hotel de luxo para a alta burguesia negra norte-americana. O objetivo da festa era arrecadar dinheiro para os jogadores de Camarões.

Como o meu hotel era muito longe, fiz hora por ali e fui direto na tal festa. Os jogadores estavam todos lá. “Ô brasileiro, que bom que você veio!”, me abraçou o M'Bouh. O técnico Henri Michel já tinha tomado uns drinques a mais e veio me zoar. “E aí, brasileiro, seu fdp!”, disse em tom amistoso. Mulheres elegantes em roupas de luxo afro davam brilho à festa. Nem nos meus sonhos eu imaginei que Copa do Mundo teria tudo isso.

A campanha de Camarões naquela Copa foi um fiasco. Empatou na estreia com a Suécia por 2 a 2. Depois, contra o Brasil, levou um baile de Romário e Bebeto. A Seleção Brasileira venceu por 3 a 0. Camarões teve um jogador expulso, o zagueiro Rigobert Song, por um carrinho por trás em Bebeto. Song tinha 17 anos. Hoje ele é o técnico da Seleção de Camarões.

No último jogo da equipe africana naquela Copa, uma goleada sofrida para a Rússia por 6 a 1. O gol de Camarões foi marcado por Roger Milla, que se tornou o jogador mais velho a marcar em uma Copa do Mundo. Milla foi embora daquela Copa com o recorde e sem dar entrevista. Ninguém quis pagar.

Copa do Mundo de 1994

  • Período: 17 de junho a 17 de julho de 1994
  • País-sede: Estados Unidos
  • Campeão: Brasil
  • Vice-campeão: Itália
  • 3º lugar: Suécia
  • 4º lugar: Bulgária
  • Artilheiros: Stoichkov (Bulgária) e Salenko (Rússia), 6 gols
  • Participação do Brasil: tetracampeão após empatar com a Itália por 0 a 0 e vencer nos pênaltis por 4 a 3. O time era Taffarel; Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Branco; Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho; Bebeto e Romário.. O técnico era Carlos Alberto Parreira. Também jogaram Cafu, Ricardo Rocha, Leonardo, Raí, Müller, Paulo Sérgio e Viola.
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Final: Brasil 0 x 0 Itália (4 a 3 nos pênaltis)

  • Gols: Na decisão por pênaltis: Brasil 3 (Dunga, Branco e Romário) x Itália 2 (Albertini e Evani)
  • Brasil: Taffarel; Jorginho (Cafu), Aldair, Márcio Santos e Branco; Mauro Silva, Dunga, Mazinho e Zinho (Viola); Bebeto e Romário. Técnico: Carlos Alberto Parreira
  • Itália: Pagliuca; Mussi (Apolloni), Baresi, Maldini e Benarrivo; Berti, Dino Baggio (Evani), Albertini e Donadoni; Roberto Baggio e Massaro. Técnico: Arrigo Sacchi
  • Árbitro: Sandor Puhl (HUN)
  • Público: 94.194 pessoas
  • Local: Estádio Rose Bowl, em Pasadena

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