
Lucas Lazarini morreu após luta de boxe
Arquivo Pessoal
Recentemente alguns casos de nocaute espantaram o mundo das lutas. O boxeador Lucas Lazarini chegou a morrer em Ponta Grossa. Alguns casos do MMA também preocuparam, inclusive o nocaute contra o brasileiro Bruno Blindado, que saiu de maca no último sábado (10), em evento do UFC. Diante disso, o neurocirurgião Raphael Bertani comentou quais são os principais riscos causados por golpes duros na cabeça.
Um simples nocaute não causa morte. Mas uma combinação de fatores pode resultar em uma tragédia. O tipo de golpe, a Síndrome do Segundo Impacto, detalhes pessoais da vítima e a falta de segurança dos eventos podem agravar os problemas.
Caso Lucas Lazarini
Lucas morreu uma semana depois de uma luta na Copa Paraná de Boxe Amador. Ele levou um golpe no rosto e caiu imediatamente. Teve que ser internado, sofreu uma hemorragia cerebral e não resistiu.
De acordo com o Raphael, que é neurocirurgião especializado em doenças da coluna e do cérebro, a fatalidade não aconteceu “apenas” pelo nocaute: "A consequência de um golpe na cabeça varia enormemente dependendo da força, localização do impacto, ângulo (golpes rotacionais costumam ser mais perigosos), e a capacidade do cérebro de absorver e se recuperar do trauma".
A esposa de Lucas, Isabela, disse à imprensa que um movimento brusco do pescoço foi determinante para a morte. Ela estava grávida de 2 meses. Então é provável que o golpe em Lucas tenho influenciado no desfecho trágico.
Outro fator que pode agravar um nocaute é a SSI (Síndrome do Segundo Impacto). Não está comprovado que Lucas sofreu isso, mas há registros de outros casos.
"A SSI ocorre quando um indivíduo sofre uma segunda concussão cerebral antes de ter se recuperado completamente de uma concussão anterior", explica Raphael.
Ele comentou que é possível Lucas tenha sofrido uma concussão anterior não diagnosticada, seja em lutas anteriores ou até em treinos. E assim nocaute teria sido o segundo impacto fatal.
Também é importante levar em conta a individualidade genética e fisiológica de cada atleta, que faz diferença nas consequências dos nocautes.
Prevenção e segurança
O caso de Bruno Blindado foi assustador na hora da luta, porque ele levou uma cotovelada e bateu a cabeça na proteção do octógono. Ainda saiu de maca, mas se recuperou rapidamente e não teve lesões graves.
É provável que Bruno tenha sido protegido por medidas de prevenção do UFC - a organização costuma suspender jogadores após as lutas, para fazer uma avaliação médica rigorosa e seguir protocolos em casos de concussão.
Durante a luta, outras medidas de prevenção são importantes, como a intervenção do árbitro, o atendimento médico rápido e o monitoramento imediato após o fim da luta.
Questionado se os eventos de boxe no Brasil são seguros, Raphael preferiu não generalizar: "A segurança provavelmente varia muito. Eventos maiores, sancionados por federações reconhecidas, tendem a seguir regulamentos mais estritos, exigindo ambulâncias no local, equipe médica qualificada, exames pré-luta e seguro para os atletas. No entanto, eventos menores, amadores ou em locais com menos estrutura podem não ter o mesmo nível de segurança, com fiscalização deficiente, falta de equipamento médico adequado ou profissionais menos experientes".
Polêmica sobre o capacete no boxe
Lutadores de boxe amador costumam usar capacetes nas lutas. Lucas utilizava o equipamento quando morreu. Mas essa prática foi excluída no boxe masculino da Olimpíada e tem sido alvo de questionamentos.
O capacete foi proibido na Olimpíada porque davam uma falsa sensação de segurança, gerando lutas mais agressivas.
E também há outros fatores para observar, segundo Raphael: "O capacete no boxe protege principalmente contra lesões superficiais, como cortes e lacerações. Mas ele é menos eficaz contra as forças rotacionais, que fazem o cérebro girar dentro do crânio e que são uma causa importante de concussões e lesões axonais difusas. O capacete não impede concussões".
Para Raphael, o fato de Lucas ter usado capacete e ainda assim ter sofrido um desfecho trágico reforça que o equipamento não é uma garantia contra lesões cerebrais graves ou fatais.
E a Demência Pugilística?
A consequência do nocaute pode acontecer até depois da carreira acabar. Muitos ex-lutadores sofreram com a chamada "Demência Pugilística", que é uma doença neurodegenerativa associada a traumas no crânio.
O nome correto é ETC (Encefalopatia Traumática Crônica) e pode causar problemas de memória, confusão, alterações de personalidade, comportamento impulsivo, depressão, agressividade, problemas motores (parkinsonismo) e, eventualmente, demência.
Esse problema tem sido cada vez mais reportado, mas Raphael entende que isso não significa necessariamente que mais lutadores estão sofrendo com ETC: "É difícil afirmar se a incidência real está aumentando ou se estamos apenas diagnosticando e reconhecendo melhor a condição devido à maior conscientização e melhores ferramentas diagnósticas"
De acordo com Raphael, existem estudos para mitigar o dano, mas a prevenção primária, que é evitar os golpes na cabeça, ainda é mais eficaz.


