Esporte na Band

Desequilíbrio é a marca da elite do tênis atual: isso ajuda o esporte?

O abismo que separa Alcaraz e Sinner do resto do circuito nunca foi tão significativo

ANDRE CIRRI

24/04/2026 • 10:51 • Atualizado em 24/04/2026 • 10:51

Alcaraz e Sinner antes da final do US Open de 2025

Alcaraz e Sinner antes da final do US Open de 2025

Robert Deutsch/Imagn Images via REUTERS

Resumo

Desequilíbrio entre os principais jogadores do tênis mundial destaca a diferença de mais de 7 mil pontos entre Alexander Zverev, terceiro colocado, e Carlos Alcaraz, segundo do ranking, enquanto Jannik Sinner lidera com 13.350 pontos, demonstrando um domínio absoluto dos dois primeiros sobre o restante do circuito.

Comparação com temporadas anteriores revela redução na competitividade interna do top 10, com Sinner e Alcaraz concentrando mais de 52% das vitórias sobre jogadores do grupo, tornando-se quase intocáveis e conquistando 10 dos últimos 11 Grand Slams, além de ampliar a distância de pontos entre os melhores para níveis inéditos.

Rivalidade entre Sinner e Alcaraz impulsiona audiência e eleva o nível técnico, mas diminui a imprevisibilidade competitiva e o brilho dos demais jogadores, sendo consequência de talentos excepcionais considerados já entre os maiores da história, o que representa um privilégio para o esporte.

Eu, você, João Fonseca e todos os jogadores profissionais de tênis estamos mais próximos do 3º colocado do ranking mundial, Alexander Zverev, do que ele está do 2º colocado, Carlos Alcaraz.

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A distância escancara um desequilíbrio que faz muitos pensarem que este pode ser um dos top 10 mais fracos da história do tênis. Seriam os outros competidores realmente fracos ou apenas vítimas de um abismo inevitável criado por dois gênios?

O número 1 do ranking da ATP é Jannik Sinner, que reconquistou o posto há duas semanas após derrotar Alcaraz na final do Masters de Monte Carlo. O italiano lidera com 13.350 pontos. Logo atrás, Alcaraz aparece com 12.960 pontos, na segunda posição. Mais de sete mil pontos abaixo está Zverev, com 5.255.

Por enquanto, não há sinais de algum jogador capaz de desafiar os dois primeiros. A disputa entre eles domina os maiores torneios do circuito há três anos e esse padrão não parece estar prestes a terminar. Ao mesmo tempo em que uma rivalidade já histórica se consolida cada vez mais, o restante do circuito perde brilho e atenção, mostrando-se incapaz de impor um desafio real aos líderes.

Vale traçar uma comparação com uma temporada em que os dez primeiros do ranking eram ameaças constantes entre si, mesmo competindo com três dos maiores jogadores da história simultaneamente.

Em maio de 2012, o top 10 era composto, respectivamente, por Federer, Djokovic, Nadal, Murray, Ferrer, Tsonga, Berdych, Del Potro, Tipsarevic e Isner. Na temporada anterior, 2011, esse grupo somou 84 vitórias sobre jogadores do top 10: Djokovic teve 21, Nadal 16, Federer e Tsonga 10 cada, Murray e Ferrer 7, e Berdych 6. A distribuição de grandes vitórias era evidente, todos os melhores se desafiavam constantemente.

Já o atual top 10 somou 68 vitórias sobre jogadores desse grupo em 2025, sendo 19 de Sinner e 17 de Alcaraz — mais de 52% dessas vitórias concentradas em apenas dois jogadores. Sinner perdeu apenas quatro vezes para integrantes do top 10, todas para Alcaraz. O espanhol perdeu três vezes: duas para Sinner e uma para Djokovic. Os dois se tornaram praticamente intocáveis. Dos últimos 11 Grand Slams disputados, 10 foram conquistados por um integrante da dupla.

Em 2012, a maior diferença de pontos entre dois jogadores ranqueados entre os 10 melhores era de 2.570 pontos, entre o 4º e 5º colocado. Hoje, ela ultrapassa os 7000 pontos.

Afinal, isso ajuda o esporte?

As pessoas sempre buscam uma narrativa central, algo de destaque, e a rivalidade entre dois gênios como Alcaraz e Sinner é perfeita para a audiência. A final de Roland Garros de 2025, por exemplo, foi uma experiência que marcou o mundo do esporte. O duopólio eleva o nível exigido e, ainda que sem consistência, ocasionalmente vemos outros jogadores alcançarem esse patamar por uma ou outra partida.

Por outro lado, parte da imprevisibilidade competitiva se perde. O restante do circuito perde brilho e o restante dos jogadores podem ser rotulados de forma injusta como fracos.

Sinner e Alcaraz fazem um bem ao tênis que poucos imaginavam após quase duas décadas dominadas por Federer, Nadal e Djokovic. Jogadores especiais raramente prejudicam o esporte; o desequilíbrio atual é fruto de talentos que já entram na discussão sobre os maiores da história. Nada disso deve ser visto como negativo, mas sim como um privilégio.