Quando a temporada 2024 da Fórmula 4 Brasil terminou, Murilo Rocha havia sido responsável por quebrar um tabu. Embora a categoria fosse disputada apenas desde 2022, ele se tornou o primeiro piloto negro a participar de uma prova da competição. E não decepcionou: na rodada tripla do Autódromo de Interlagos que fechou o ano, conseguiu um nono lugar na última prova e somou dois pontos.
Um ano depois, Interlagos receberá novamente a última etapa da temporada da F-4 Brasil em dezembro. Desta vez, Murilo Rocha pode se tornar o primeiro piloto negro a se tornar campeão da disputa. Para isso, tem uma missão difícil: em três etapas, precisa tirar a vantagem de 83 pontos que Heitor Dall’Agnol tem na liderança do campeonato. Não é impossível.
A superação de Murilo no início da carreira
Aos 16 anos, Murilo já superou as dificuldades financeiras para custear a carreira e as manifestações racistas das quais foi alvo, e que tornaram a pauta antirracista um assunto bastante presente em sua trajetória. Ao seu lado, conta com o apoio dos pais: Mauro, ex-dono de equipe e preparador de motores de kart, e Gislane, que se afastou do ramo imobiliário para acompanhar o filho.
“Quando eu comecei, desde o início até hoje, meu pai sempre deixou claro para mim que ele ia se esforçar muito para dar condição para eu fazer o melhor, mas eu tinha que dar o 100% que eu tinha: me preparar fisicamente, mentalmente, para fazer o melhor que eu pudesse. Entregar o meu talento ao máximo”, contou Murilo em entrevista ao Band.com.br. “Então, acho que isso foi o fator primordial para eu estar hoje até onde eu estou.”
A rotina de Murilo
A rotina faz com que Murilo se divida em dois: a metade piloto e a metade adolescente. Quando não está viajando pelo Brasil ou até pelo exterior para competir, vai à escola em Sorocaba (SP) e aproveita o tempo livre para praticar exercícios e jogar videogame com os amigos. Fala pouco e escuta bastante, mas qualquer traço de timidez da metade adolescente vai embora na hora de falar sobre a metade piloto.
Pode ser que Murilo seja campeão da Fórmula 4 Brasil, ou pode ser que os rivais fiquem merecidamente com o título. Mas, aos poucos, ele vai traçando seu próprio caminho, ciente de que pode inspirar outros pilotos mais jovens no futuro.
“Nada é impossível”, diz. “Basta você ter força de vontade, ter determinação, dedicação, que você chega lá. Não importa a dificuldade que você tenha, a condição que você tenha para entrar, mas com dedicação e empenho, você consegue chegar lá.”
“Vai lá ver o moleque andando”

Kartódromo de Itu, onde tudo começo (Imagem: Divulgação)
Para falar do início da trajetória do Murilo, ninguém melhor que ele mesmo para contar a história.
“Quando eu nasci, meu pai já havia parado de trabalhar no ramo do automobilismo e tinha ido me migrado para a aviação, mas alguns equipamentos que usava na época ainda estavam na nossa casa. Com 4 anos, eu acabei vendo primeira vez um kart, e quando ele funcionou, eu até me assustei um pouco porque pegou barulho. Eu era muito novo ainda. A partir da segunda vez, já fui pegando o gosto, já não tinha tão medo do barulho. Até que, um dia na na quarta vez que eu vi o kart de novo, eu pedi para dar uma volta, experimentar como é que era.”
“Foi no quintal de casa mesmo, o kart tinha várias adaptações, porque eu era muito pequenininho: tinha pedal tudo retraído para trás, o menor banco possível. E ele (o pai) ia com uma corda atrás segurando. A minha primeira experiência foi no quintal, mais para sentir como é que era, mas não tinha muita noção do que era andar numa pista ainda.”
“E até que, com 5 anos, eu pedi para ir a primeira vez em uma pista mesmo, que era o Kartódromo de Itu, mas tinha uma uma regra que, pelo meu tamanho, eu não poderia andar - eu não tinha tanta experiência, era muito novo. Acabou que o administrador da pista fez um combinado comigo: se eu conseguisse funcionar o kart sozinho, eu podia dar uma volta na pista, só que sem ninguém me ajudar, sem ninguém mostrar a pista.” E aí meu pai até ficou bravo que o cara, falou: "Pô, era para você falar ‘não’, que não era para deixar”.
Aí eu fui, funcionei, saí, meu pai foi conversar numa loja de kart que tinha ali e me deixou andando sozinho. Não tinha ninguém. Aí, um preparador que era da época do meu pai perguntou para ele: "Cara, seu menino tinha andado alguma vez?". Ele falou: "Não, deve estar cortando pista, fazendo traçado errado". Ele falou: "Não, cara, ele está andando certinho na pista, tudo”. Meu pai não deu muita bola, e ele: "Vai lá ver o moleque andando, aí ele anda bem". Aí meu pai foi ver e falou: "Cara, ele leva jeito mesmo, mas leva jeito para andar sozinho”.
“Vamos embora?” “Não, vou correr”

Em pouco tempo, Murilo Rocha estava competindo no kart (Imagem: Acervo pessoal)
De fato, Murilo Rocha estava andando bem em uma pista na qual não corria contra ninguém. Então, o próximo passo foi natural: correr contra outros kartistas da mesma faixa etária.
Murilo gostou da primeira experiência. Mas esperou uma semana, esperou duas semanas… E nada de pilotar outra vez. Até que pediu para o pai levá-lo de novo ao kartódromo. Insistiu, conseguiu e gostou.
“Como meu pai não tinha muito tempo, como trabalhava muito, então ele acabou contratando esse preparador para cuidar de mim ali, ensinar mais, para me aperfeiçoar mais no mundo do kart. Eu comecei a fazer algumas corridas, algumas competições e aí fui para o Paulista com 8 anos de idade. Fui para o Paulista, que era 20, 20 karts. Já era um mundo bem diferente do que eu tava acostumado.”
“É engraçado que eu fiz os treinos tudo, evoluindo ali… Aí chegou na sexta-feira, que era o último treino, e no sábado era classificação e corrida, meu pai chegou na sexta e falou: ‘E aí, vamos embora?’. Eu falei: ‘Não, vou correr. Vou treinar, vou correr e vou fazer minha primeira corrida’. Aí ele falou: ‘Vai mesmo?’ ‘Vou.’ Aí eu fiz a primeira corrida e acho que fui terceiro.”
A partir daí, Murilo e a família entraram em sintonia.
“Depois dessa corrida, aí eu comecei a fazer campeonatos paulistas. Aí, fiz Granja Viana, KGV, Copa São Paulo. Aí, eu comecei e não parei mais. Meu pai já não tinha muito tempo, aí quem acompanhava mais era minha mãe depois de um tempo. E de lá para cá eu fui evoluindo, fui subindo de categoria, aí fiz meu primeiro ano de Rotax, que era um kart bem diferente, um motor dois tempos. Fui para a primeira vez para Europa, na França, correr um Mundial de Rotax.”
Foi a partir daí que Murilo teve as primeiras experiências de kart no exterior. Correu em pistas conhecidas, como Le Mans (Itália) e Lonato (Itália). Teve “tretas dentro da pista”, mas aprendeu. Voltou, subiu para a categoria Júnior Menor e teve que ficar três meses afastado das pistas após começar a sentir dores - descobriria uma fratura na costela. Voltou, nas próprias palavras, “melhor do que era antes”.
Aprendendo dentro e fora das pistas

Com o passar dos anos, Murilo absorveu conhecimento nos karts (Imagem: Acervo pessoal)
Apesar de disputar as primeiras provas na Europa entre 2018 e 2020, foi só a partir de 2023 que passou a competir no exterior por longos períodos. Aos 12 anos, precisou aprender mais ainda a bordo de karts mais complexos.
“Eu tive que aprender a guiar, (era) totalmente diferente pelas condições de pneu que tinha lá, era totalmente diferente o modo de trabalhar com a equipe - telemetria, tudo”, conta. “Peguei bastante bagagem. Era bem diferente: a telemetria, o modo de trabalhar. A gente acabava a corrida, descia para a fábrica, ficava ali com os mecânicos aprendendo tudo.”
Em 2024, subiu de categoria, de OK Júnior para OK. Teve um ano “de altos e baixos”, como descreveu, mas conseguiu resultados satisfatórios. E conseguiu absorver muito conhecimento.
“Quando você começa parece que é simples, né? É o piloto que tem que se achar na pista. Você não tem muita telemetria, mas quando você vai se aprofundando, fica um mundo complexo: tem telemetria, você entender de calibragem, de carburação, que é um fator primordial lá na Europa. A gente passa milhares de carburadores, milhares de motores, e você tem que ter o feeling muito rápido, porque lá são poucos treinos e a classificação é 5 minutos - você sai faltando 2 minutos, tem uma volta para virar. Então, cada vez que você vai subindo o seu nível, vai se aprofundar mais e vai ficando mais difícil. Mas com o tempo você vai pegando mais experiência.”
E se aprendeu nas pistas, também precisou se virar fora delas.
“Quando eu fui a primeira vez, eu fazia inglês, mas não sabia falar muito (outros idiomas além do português). Fui para a Espanha e lembro que eu chegava no restaurante e me dava branco de como pedir as coisas. Com a equipe, que era italiana, eu já conhecia alguns membros da equipe, mas não todos.”
“Então, eu tive que aprender tudo do zero. Mas eu acho que, com duas corridas que eu fiz lá, eu já estava sabendo falar a língua da equipe e aprendendo cada vez mais.”
Manifestações antirracistas

Murilo Rocha: “Não tem cor para você ser um piloto bom” (Imagem: Acervo pessoal)
Lewis Hamilton é uma das principais referências de Murilo Rocha nas pistas.
Dono de sete títulos mundiais de Fórmula 1, o primeiro deles conquistado antes mesmo de o brasileiro nascer, o britânico é uma personalidade com voz ativa em diversas questões também fora do automobilismo.
Ao longo da carreira, Hamilton já defendeu questões ligadas à diversidade no esporte, ao meio ambiente, à educação e aos direitos humanos. Mas como o único piloto negro da história da F1, o papel dele na luta antirracista virou referência.
Em 2020, Lewis Hamilton passou a se ajoelhar na cerimônia dos hinos em cada Grande Prêmio, repetindo o gesto adotado pelo ex-quarterback Colin Kaepernick na NFL em resposta à violência policial contra a população negra nos EUA. O piloto também passou a utilizar mensagens de apoio à campanha Black Lives Matter (ou, em inglês, “Vidas Negras Importam”), que ganhou força após a morte de George Floyd.
“Não tive contato com ele, mas eu sempre fiquei sabendo dessa causa, e eu sempre apoiei esse essa causa do combate ao racismo”, afirma Murilo.
Ainda no kart, Murilo Rocha não se furtou da luta contra o racismo e também endossou as manifestações. Em 2022, nas redes sociais, postou fotos com uma camiseta preta em apoio a Lewis Hamilton com a hashtag #BlackLivesMatter.
“Esse fim de semana vou correr apoiando o meu ídolo @LewisHamilton ! Obrigado por nos inspirar”, postou Murilo no Twitter. A mensagem ganhou 426 retuítes e 3 mil likes.
Hoje, Murilo é uma exceção no automobilismo do Brasil - um país no qual os negros equivalem a 55,4% da população, segundo dados do Censo de 2022. Mas apoia um esporte com oportunidades iguais para todos.
“A pauta racial para mim é o fator principal. Não tem cor para você ser um piloto bom. Então, se você é negro, se você é branco, tanto faz. O que importa é o seu amor pelo esporte e a sua dedicação”, diz.
“Acredito que o esporte não seja só para brancos e nem para negros. É para todas as classes. Acho que isso é para deixar claro que o esporte é para todos, não só para uma classe única”, acrescentou.
O capacete de Lewis Hamilton

Murilo aceitou se desfazer de capacete, mas não queria; por fim, consegui mantê-lo (Imagem: Acervo pessoal)
Lewis Hamilton acabaria cruzando o caminho de Murilo Rocha ainda no kart, mas de maneira inusitada e que acabou repercutindo entre o público.
Em 2021, o paulista disputou o Campeonato Brasileiro da modalidade no Kartódromo do Beto Carrero World, em Penha (SC). Na ocasião, viu na vitrine de uma loja do local um capacete idêntico ao de Hamilton. Na verdade, uma réplica do equipamento utilizado pelo ídolo na histórica vitória do GP de São Paulo daquele ano.
O capacete não estava à venda, apenas exposto. O pai tentou comprar, mas não conseguiu. E Murilo foi embora apenas lembrando do casco de Hamilton que viu em Santa Catarina.
Até que uma nova personagem entrou em cena. “Meu avô ficou sabendo dessa história do capacete, aí acabou comprando. Em um certo dia, ele me deu o capacete”, contou.
Murilo adorou a novidade. Como o capacete não era homologado para provas de kart, era utilizado apenas para correr em games. Para as competições, ele precisaria de outro casco em 2022.
Para comprar o novo capacete, precisaria de dinheiro. E de mais dinheiro para viabilizar a participação nos campeonatos de temporada. Foi então que o capacete de Lewis Hamilton veio novamente à tona.
“Quando ele (avô) me deu o capacete, eu estava com uma uma dificuldade de fazer o campeonato, então não tinha certeza se eu ia competir no ano seguinte. Aí acabou surgindo a ideia de rifar o capacete”, contou Murilo, que anunciou a rifa nas redes sociais. “E isso repercutiu muito. Teve milhares de pessoas que falaram para mim para não rifar e ficar com o capacete. Acabou que eu acabei arrecadando sem ter que me desfazer do capacete.”
O capacete de Lewis Hamilton está até hoje com Murilo Rocha como uma lembrança importante da carreira e da mobilização. Percebeu que tinha mais gente disposta a apoiá-lo.
“Muitos queriam que eu rifasse, mas a maioria não. Então, eu acabei ficando (com o capacete) para mim, e isso me ajudou bastante no ano seguinte”, diz. “No fundo, eu ia rifar porque eu sabia da necessidade, que eu precisava. Mas eu queria mesmo ficar (com o capacete) comigo, né? Porque é um capacete especial.”
A chegada à Fórmula 4 Brasil

Murilo Rocha na Fórmula 4 Brasil em 2025 (Imagem: Marcelo Machado de Melo/Vicar)
Em setembro de 2024, Murilo Rocha disputou o Mundial de kart na Inglaterra, terminando com a 39ª posição na classificação geral. Seria um bom final de temporada, mas veio a chance inédita de correr de monopostos, graças ao convite da Bassani Racing para correr as últimas corridas da Fórmula 4 Brasil.
Murilo testou em novembro, durante a etapa de Goiânia, mas não participou. A estreia veio apenas na rodada tripla que encerrou o campeonato no Autódromo de Interlagos, em dezembro - foram quatro corridas, mas a primeira foi uma compensação de uma corrida cancelada em novembro.
“Eu recebi uma oportunidade, que o meu pai me deu, para fazer uma etapa de fórmula, que foi o ano passado na Superfinal do Campeonato da Fórmula 4 Brasil. Foi uma semana bem diferente que eu estava acostumado”, contou.
Na melhor das três provas, conquistou um nono lugar, somando dois pontos. Deixou uma boa impressão e ganhou uma vaga para correr a temporada 2025 da Fórmula 4 Brasil com a Bassani.
“Consegui ali aprender bastante, com poucos treinos que tinha. Fórmula era um mundo diferente de freada, de tudo. A pista é bem maior, a reação é mais lenta do que o kart, mas em velocidade você está maior. E aí fui bem, consegui um resultado OK”, lembra.
“O principal fator do fórmula é você cada vez mais saber o limite que você tem e cada vez melhorar mais, porque os tempos ali são muito próximos. Além do mental, do preparo físico, já muda bastante a força G, o pescoço. Fez bem eu ter feito a última etapa para saber e chegar mais forte para esse ano.”
A adaptação ao carro de fórmula não foi difícil. Desde as primeiras experiências, Murilo já conseguiu se entender com as novidades.
“Eu não treinava antes, só no simulador. Mas acho que o que me ajudou bastante foi o simulador. O timing da embreagem, para você ter uma ideia, nas minhas primeiras teste de largada, eu acertei todas de primeira, porque eu havia treinado no simulador tudo”, conta. “A partir da minha primeira corrida, eu comecei a treinar um pouco mais. A gente sabe que é a condição de ter testes extras é bem difícil, mas eu acho que o simulador ajudou bastante.”
Logo mostrou serviço. Na primeira etapa, também em Interlagos, venceu a segunda corrida da rodada tripla. Na segunda, em Mogi Guaçu (SP), um terceiro lugar. Na terceira, também no Velocitta, mais dois pódios. Na quarta, novamente no interior paulista, um segundo lugar. Somou 116 pontos, atrás apenas de Heitor Dall’Agnol (199) e Filippo Fiorentino (120).
“A gente vem construindo resultados bons. Algumas dificuldades aí nessa temporada, contratempos, mas a gente está cada vez mais somando pontos. Sabemos que é difícil, tem etapas que não funcionam - acerto de carro, setup e tudo - mas a gente vem cada vez mais evoluindo”, analisou.
Colegas e rivais

Amizades? Só fora do automobilismo, diz Murilo Rocha (Imagem: Luca Bassani/Vicar)
Ao longo da temporada 2025, a Fórmula 4 Brasil teve 17 pilotos na pista. A Bassani tem cinco: Pedro Lins, Renzo Barbuy, Christian Helou e Pedro Lima, além do próprio Murilo. Três deles - Rocha, Lins e Lima - entre os cinco primeiros do campeonato.
Assim, muitas vezes, o seu adversário pode estar no box ao lado. Assim, o automobilismo nem sempre pode ser o melhor cenário para se fazer amigos - mesmo entre pilotos de 15 ou 16 anos, ainda no auge da adolescência.
“Eu converso com os companheiros de equipe, com alguns (pilotos), mas dizer que eu tenho amigo, não”, conta Murilo, que deixa a amizade para o lado de fora dos circuitos. “Nunca fui um uma pessoa que nunca tive amigos, cara - não porque eu não me dou bem, mas nunca tive.”
E fora do automobilismo? No tempo livre, Murilo se reúne com os amigos para… Jogos de corridas.
“Eu tenho outros amigos que jogam fora (das pistas) comigo, mas que não é do automobilismo. Joga simulador mesmo. Mas amigo (no automobilismo) não, nenhum.”
E desses amigos “de fora”, será que algum deles já mostrou algum talento diferenciado para ir junto para as pistas? “Não”, sorri Murilo, em tom de brincadeira. “Só eu mesmo.
Mas se Murilo não tem amigos entre os jovens no automobilismo, tem uma boa relação com nomes mais experientes. E tem aproveitado para receber conselhos e absorver aprendizado.
“Eu já conversei com vários, mas um em quem eu me espelho muito é o Gaetano de Mauro também. No kart, quando eu andava na Granja Viana, ele andava de Shifter, e ele já me deu vários conselhos também. Hoje corre na Stock, então a gente está no mesmo final de semana”
“Tem também o Djalma (Fogaça), que mora ali em Sorocaba, que era piloto do meu pai também - meu pai já foi mecânico dele, então ele já me deu milhares de conselhos também. E o Fábio Fogaça também.”
As pistas e os estudos
Fora das pistas, Murilo Rocha tem uma rotina comum a vários outros adolescentes. E não só nos games.
Aos 16 anos, estuda o primeiro ano do ensino médio em Sorocaba (SP), onde continua morando com a família. No tempo livre, treina triatlo para ganhar condicionamento físico e faz aulas de teatro.
Mas as provas de kart muitas vezes alteram a agenda. E a partir das primeiras competições no exterior, o jovem precisou começar a se adaptar.
“Hoje a minha agenda é bem cheia, de treinos de fórmula, preparação para o fórmula, preparação para o triatlo, escola também”, conta. “Quando eu estava na Europa, eu praticamente não tinha aula, e quando eu chegava da Europa, tinha que fazer as provas na escola. Mas tem vezes que eu não consigo ir para a escola, e quando eu volto, eu tenho que fazer tudo que é prova, completar a apostila. Fica meio corrido, mas no final eu consigo conciliar o esporte com o estudo também.”
Consegue, é claro. Mas em um ritmo diferente dos colegas de sala de aula. “A professora chega, a coordenadora fala: "Você tem que fazer a prova em uma semana, e são 15 provas”, conta, rindo.
No ritmo tradicional, Murilo completará o ensino médio no final de 2027 - quando, se tudo der certo, já estará correndo no exterior. Mas mantém os pés no chão e inclui uma faculdade de engenharia nos planos para os próximos anos.
“Meu pai sempre deixou bem claro que eu tinha que conciliar estudo primeiro, depois vem a profissão e depois o lazer. Então eu penso em fazer uma faculdade de engenharia, porque eu gosto de mecânica, e tem que conciliar, dar o máximo em tudo que for fazer”, avisa.
Futuro

Murilo Rocha quer correr no exterior em 2026 (Imagem: Luca Bassani/Vicar)
Em meio à equilibrada disputa, ninguém sabe quem terminará a temporada 2025 da Fórmula 4 Brasil com o título. Mas Murilo Rocha já sonha alto e mira uma vaga em competições no exterior em 2026.
“A gente tem em mente fazer o campeonato da Fórmula 4 lá fora”, contou. “A gente está correndo atrás de patrocínio, de tudo, já vendo, analisando algumas possibilidades em algumas equipes. Mas o objetivo é ir para fora para se destacar e conseguir ir subindo de Fórmula 4, Freca e Fórmula 3 também.”
E se a trilha da Fórmula 1 não se abrir, não tem problema: Murilo não descarta correr em carros de turismo ou em protótipos, por exemplo.
“Eu sempre tive dois objetivos e dois sonhos. Um, é claro, a Fórmula 1. E eu sempre gostei de GT, DTM, GT3, Porsche. Então, se surgir uma oportunidade para andar de Porsche ou protótipo, eu vou. Eu abraço o que vier e eu acho que é uma categoria muito interessante, muito legal, é um mundo diferente. Acho que, hoje, o mundo da GT3 fora do Brasil é muito competitivo. Você vê muitos pilotos que abriram mão de ir para a Fórmula 1 para andar numa Porsche que hoje fazem sua carreira brilhante no mundo do turismo.”
Mas antes de tudo isso, vem a Fórmula 4 Brasil. E ele não se intimida com o fato de estar na temporada de estreia. Para Murilo, a chance de disputar o título é real.
“Cara, eu esperava estar brigando (pelo título), porque eu vim muito com a cabeça preparada, porque eu queria brigar esse ano. ‘Ah, esse ano é o rookie e tem que estar ali’... Não, eu vim esse ano para ganhar, não vim para ficar ali no meio do pelotão. Para mim, o que importa é ganhar, não importa se é o primeiro ano ou o segundo ano”, garante.
“Sempre, na minha carreira, a minha estreia tem que ser muito boa, para já mostrar para eles o que eu sou sou capaz de fazer para ganhar a corrida. Então, eu acho que eu vim com a cabeça, sim, para ser campeão.”

