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Flamengo 130 anos: como o clube de regatas passou a ser o time das multidões do futebol

Alberto Borgerth foi um dos responsáveis por um motim no Fluminense em 1911, e que seria fundamental para que o Flamengo se transformasse também em um time de futebol

Emanuel Colombari
EMANUEL COLOMBARI

14/11/2025 • 09:14 • Atualizado em 14/11/2025 • 09:14

Time de futebol do Fla nasceu em 1912 fundado por dissidentes do Fluminense

Time de futebol do Fla nasceu em 1912 fundado por dissidentes do Fluminense

Flamengo/Site oficial

Resumo

História do Flamengo apresenta conquistas marcantes, como o título mundial de 1981, três Libertadores e diversos campeonatos nacionais, com jogadores notáveis como Zico, Romário, Bebeto e outros protagonistas da trajetória vitoriosa do clube.

Fundação do futebol rubro-negro foi liderada por Alberto Borgerth em 1911, após divergências no Fluminense, resultando na criação do Departamento de Esportes Terrestres do Flamengo, com estreia no Campeonato Carioca em 1912 e participação de vários ex-jogadores do Flu.

Carreira de Alberto Borgerth inclui papel como atleta, árbitro, dirigente e presidente do Flamengo, atuação em congressos internacionais e contribuição decisiva para a candidatura do Brasil à Copa do Mundo de 1950, além de ser homenageado na Calçada da Fama do clube após sua morte em 1958.

Ao longo de 130 anos, o Clube de Regatas do Flamengo conquistou uma história de inquestionável sucesso no futebol brasileiro e mundial. Foi campeão mundial em 1981 e tricampeão da Libertadores, além de ter conquistado inúmeros títulos nacionais e estaduais. Ao longo de mais de um século, jogadores com Zico, Adílio, Nunes, Romário, Evaristo de Macedo, Andrade, Zagallo, Liminha, Tita, Doval, Bebeto, Mozer e Petkovic encantaram os gramados vestindo a alegria de ser rubro-negro.

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Mas nada disso seria possível se não fosse por Alberto Borgerth, um homem com o coração dividido. Nascido em 3 de dezembro de 1892, Alberto Borgerth era um atleta polivalente no começo do século XX: jogava futebol no Fluminense e remava no Flamengo. Ao mesmo tempo, estudava medicina.

Em 1911, Alberto Borgerth ajudou o Flu a conquistar o Campeonato Carioca com seis vitórias em seis jogos - na segunda delas, um 5 a 0 sobre o Rio Cricket, fez dois gols. Na decisão, em 1º de janeiro, o Flu venceu o America por 2 a 0, com gols de Gallo e Ernesto Paranhos. O time, comandado por Charles Williams, atuou com Baena; Píndaro e Nery; Lawrence, Amarante e Gallo; Oswaldo Gomes, Arnaldo, Ernesto Paranhos, Gustavo e James Calvert.

Mas nem tudo era festa nas Laranjeiras. No final daquele mesmo ano, Alberto Borgerth liderou um movimento de descontentes que provocou uma cisão no futebol do Fluminense. Os jogadores se dividiram entre os que pensavam em mudar de clube e os que pensavam em abandonar o futebol.

“Foi quando Alberto Borgerth, um dos jogadores do Fluminense, fez a proposta de criar uma seção de futebol no Flamengo, onde já era remador. A ideia foi aprovada e, no dia 8 de novembro daquele ano, foi criado o Departamento de Esportes Terrestres rubro-negro”, descreve o site do Flamengo.

O Flamengo vai a campo

Alberto Borgerth deixou o Flu em 1911 para fundar o futebol do Flamengo (Imagem: @Flamengo/Instagram)

Alberto Borgerth deixou o Flu em 1911 para fundar o futebol do Flamengo (Imagem: @Flamengo/Instagram)

Dito e feito. Em 1912, o Flamengo começava sua trajetória como time de futebol já vestindo rubro-negro, mas com as camisas “papagaio-vintém”. Depois de vários treinos na antiga Praia do Russel, a equipe estreou no Campeonato Carioca da LMSA (Liga Metropolitana de Sports Athléticos) em 3 de maio, enfrentando o frágil Mangueira.

Resultado: uma vitória por 16 a 2, com gols de Gustavo de Carvalho (cinco), Amarante (quatro), Arnaldo Guimarães (quatro), Alberto Borgerth (dois) e Gallo. Do time que atuou naquela goleada, pelo menos oito haviam atuado em 1911 pelo Fluminense: Baena, Píndaro, Nery, Gallo, Amarante, Arnaldo, Gustavo e Alberto Borgerth. Vale destacar que algumas fontes apontam para uma vitória por um placar mais modesto: 15 a 2.

O título na liga metropolitana ficou com o Paissandu, enquanto o Flamengo foi vice. Alberto Borgerth marcou 11 gols no torneio. Naquele ano, fora de campo, ele ainda foi eleito - enquanto representante do clube - para a comissão de futebol da liga. Nos anos seguintes, foi bicampeão carioca em 1914 e 1915.

Ao longo da trajetória nos gramados, Alberto Borgerth jamais defendeu a Seleção Brasileira, mas participou diretamente do primeiro título do Brasil: foi ele o árbitro da Copa Roca de 1914, quando a equipe nacional venceu a Argentina por 1 a 0 em Buenos Aires, graças ao gol de Rubens Salles. Curiosamente, Rubens Salles dividia com Sylvio Lagreca a função de treinador da equipe.

Alberto Borgerth se aposentou dos gramados em 1915, com 21 gols em 45 jogos pelo Flamengo, e foi seguir a carreira como médico, marcando o fim de um ciclo nas primeiras eras do futebol nacional.

“Justamente encerrava-se em 1915 o ciclo de ouro do chamado futebol intelectual, pois que é verdade que tanto o campeão paulista daquele ano, a Associação Atlética das Palmeiras, como o Flamengo, campeão carioca, tinham sua equipe constituída quase que totalmente de futebolistas já formados, ou futuros médicos, advogados e engenheiros. Aquele ano foi o fim dessa geração de intelectuais”, descreveu o Jornal dos Sports em 1958.

O crescimento do Flamengo

Obituário de Alberto Borgerth no Jornal dos Sports em 1958 (Imagem: Reprodução)

Obituário de Alberto Borgerth no Jornal dos Sports em 1958 (Imagem: Reprodução)

A partir daí, Alberto Borgerth teve também uma carreira bastante ativa como dirigente. Em 1927, teve uma breve passagem como presidente do próprio Flamengo. Anos depois, foi um dos representantes brasileiros no congresso responsável pelo Campeonato Sul-Americano de Seleções (atual Copa América) de 1942, quando o Brasil defendeu sua candidatura a sede da Copa do Mundo de 1950.

“Foi uma luta tremenda que os nossos delegados sustentaram para que o congresso apoiasse a candidatura do Brasil para a sede do próximo campeonato mundial. Os delegados da AFA usaram de todos os recursos para torpedear a candidatura da CBD”, descreveu também o Jornal dos Sports de 1958.

“Com calma extraordinária, o doutor Borgerth, finda a sessão, fez serenar o estado de espírito excitado dos seus companheiros. Nossa delegação voltou à carga e, até o fim do congresso, no dia seguinte, a situação melhorou muito a nosso favor.”

Paralelamente a isso, foi a partir da década de 1930 que o Flamengo deixou de ser uma potência do Rio de Janeiro - onde já era considerado o clube mais querido - e se tornou uma força de projeção nacional.

Com a fundação da Rádio Nacional em 1936, boa parte do Brasil passou a acompanhar as transmissões dos jogos do Rio. E se as transmissões ajudavam também a popularizar os rivais, o Flamengo ganhou terreno com o tricampeonato carioca em 1942, 1943 e 1944.

Alberto Borgerth morreu aos 65 anos, em 25 de novembro de 1958. Em 2000, foi homenageado com o nome na Calçada da Fama do Flamengo - clube que, a essa altura, já tinha a maior torcida do Brasil.

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