Astro da Costa do Marfim escreve carta para irmã que faleceu aos 15 anos
Yan Diomandé foi eleito o melhor jogador da partida contra o Equador, na Copa do Mundo

Astro da Costa do Marfim publica carta emocionante para irmã que faleceu aos 15 anos
REUTERS/Luc Gnago
Em menos duas semanas, a Copa do Mundo já ofereceu aos milhares de apaixonados pelo futebol inúmeros momentos de emoção. Um deles envolve Yan Diomandé, atacante da Costa do Marfim, que foi eleito o melhor da partida contra o Equador, pela primeira rodada da fase de grupos da competição.
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Em uma longa carta publicada pela plataforma internacional 'The Players' Tribune', o atacante relembra o falecimento de sua irmã Roxane, aos 15 anos. Diomandé relembra a parceira com sua irmão ao longo da vida e como ela foi a grande incentivadora do seu sonho.
Na carta, o atacante do RB Leipzig, conta que passou por inúmeros testes em clubes europeus e norte-americanos, mas não conseguia oportunidades. No entanto, ela nunca deixou de acreditar no potencial dele, porém assinar com grandes clubes carrega um vazio.
“Você foi a única que nunca deixou de acreditar […] Foi naquela época em que eu ainda sentia emoções. Agora, não sinto nada. É como se eu nem fosse humano. Desde que você morreu, sou apenas um vazio.”
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Leia a carta completa:
Você se lembra de quando alguém me comprou uma camisa falsa do United e eu escrevi “Ronaldo 7” nas costas com uma caneta hidrográfica preta? Nós não sabíamos o que era ser rico ou pobre. Só conhecíamos a felicidade.
Você se lembra das 25 pessoas que dormiam em uma única casa lá em Abidjan? A mamãe queria assistir às suas novelas. Todo mundo queria assistir a filmes. Você se lembra de como eu sempre fingia estar dormindo e depois ia para a sala de TV depois da meia-noite? Eu colocava a TV bem baixinha. Tipo, só duas riscas de volume. Eu assistia ao futebol no escuro e sonhava.
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Você se lembra de quando os adultos me viram jogando futebol na terra e me deram o apelido de “Roberto Carlos” pela força com que eu chutava? E você se lembra de como, secretamente, eu ficava com muita raiva por causa disso, porque o CR7 era meu ídolo?
Você se lembra de quando fui jogar tão longe de casa? Eu tinha 9 anos. No Inter Foot Sud Comoé, lá perto da fronteira com Gana. Só um garotinho sozinho. Não sei se já te contei essa história, mas eu e as outras crianças íamos até a aldeia e roubávamos batatas porque estávamos com muita fome. Fazíamos um “assalto a banco”. Duas crianças distraíam o dono da loja, e outras 18 saíam correndo com duas batatas. Nem eram boas. Mas tinham um sabor incrível. Hahahah. Até hoje é meu prato favorito. Batatas cozidas com um pouco de óleo. Isso me lembra daquela época.
Você se lembra de quando ganhei meu primeiro par de chuteiras de verdade e dormia com elas? Quando estava crescendo, eu sempre jogava com aquelas chinelas brancas de plástico. Mesmo quando volto para casa agora, ainda jogo com elas. É a nossa tradição.
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Você se lembra de quando eu voltava para casa e você dizia aos meus amigos do bairro: “Por que vocês pararam de treinar? O Yan não vai comprar carros para vocês. Vocês precisam continuar se esforçando.” Você tinha 10 anos e já era minha agente.
Você se lembra de como a gente sentava e sonhava em nos mudar para a França? Como iríamos fazer compras, ter nosso próprio apartamento, e eu seria um jogador rico, com carros e uma casa grande, e você não precisaria se preocupar com nada. Você era a pessoa que sempre acreditou que eu poderia ser o próximo Cristiano, quando todos os outros riam.
Você se lembra de quando me mudei para os Estados Unidos para cursar o ensino médio, aos 15 anos, e senti tanta saudade de casa? Durante meses, eu não entendia o que ninguém dizia. Me colocaram sentado ao lado de um garoto francês, e ele tentava traduzir tudo o que o professor dizia. Você se lembra quando liguei para você dizendo: “Você não vai acreditar, as crianças aqui discutem com os professores.” Na nossa casa, você sabe, a gente nem ousaria piscar na frente dos mais velhos.
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Você se lembra de quando eu não conseguia acreditar que os garotos fumavam depois da escola? Você sempre dizia que parecia que eu estava em uma série de TV americana.
Você se lembra de quando me levaram para fazer testes no Bournemouth? No Chelsea, no Rangers, no Olympiacos, no Crystal Palace? O Eze e o Olise vieram falar comigo depois de um treino e disseram: ‘Ei, garoto, você é muito bom’… mas não me contrataram.
Nem mesmo os times reservas da MLS me quiseram. Eu nem sabia o motivo. Nunca me deram uma explicação. Os adultos cuidavam de tudo. Eles só me levavam para todo lado pela Europa, e todos continuavam dizendo não.
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Meu visto tinha expirado. Meu sonho tinha acabado. Me mandaram de volta para a África, e choramos juntos. Você foi a única que nunca deixou de acreditar. Algumas semanas depois, assinei com o Leganés, e choramos lágrimas diferentes.”
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