Copa do Mundo não mudará base do futebol nos EUA, avalia técnico brasileiro
Ex-jogador e treinador critica sistema pago e sem meritocracia que trava evolução do futebol nos Estados Unidos

Raphael Alves, treinador de futebol brasileiro, avalia futebol de base dos Estados Unidos
Arquivo pessoal
Os Estados Unidos foram até as oitavas de final da Copa do Mundo, quando perderam por 4 a 1 para a Bélgica, e novamente ficaram distantes de levantar o maior troféu do futebol mundial, conquistado pela Espanha em 19 de julho de 2026.
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Morando na Califórnia há 12 anos, o ex-jogador brasileiro Raphael Alves explica por que os norte-americanos, referência em tantos esportes, ainda ficam atrás de potências do futebol, como Brasil, Argentina, França, Espanha, Inglaterra, entre outros.
Atualmente treinador e diretor metodológico do clube de futebol Culture FC, localizado em Huntington Beach, na região de Orange County, Alves propõe uma reflexão estrutural sobre o modelo profissional e de formação de novos jogadores nos Estados Unidos.
Ele diz que, pela cultura e pelo sistema atual do futebol norte-americano, a Copa do Mundo não deve influenciar em praticamente nada o desenvolvimento da modalidade.
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“O futebol da forma como conhecemos nunca existirá nos EUA. (…) Se eu tivesse que escolher um motivo [para explicar o problema], com certeza seria o sistema do futebol daqui", afirma o treinador nascido em Santos (SP) e com passagens pelas categorias de base do próprio Santos e de clubes do interior paulista.
"Na minha opinião, a raiz do problema está no topo da pirâmide. Não existe um sistema baseado em mérito no nível profissional norte-americano. A Major League Soccer (MLS) não parece interessada em se fundir com outras ligas, nem em criar uma segunda, terceira ou quarta divisão, e esse mesmo modelo é replicado nas categorias de base, só que piorado”, acrescenta o ex-atleta, que hoje lidera o projeto dedicado à formação de jovens para o alto rendimento esportivo.
Sistema pago e fechado: o problema do futebol de base dos EUA

Arquivo pessoal
De acordo com o brasileiro, quase todos os esportes de formação nos EUA são pagos, com poucas opções acessíveis. Ele afirma que times considerados de elite podem custar entre US$ 10 mil e US$ 50 mil por ano (entre R$ 50 mil e R$ 250 mil, na cotação atual), somando taxas, viagens e torneios.
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Na visão de Raphael, essa lógica se estende ao profissional. Ele critica o fato de a MLS operar como liga fechada, sem acesso e rebaixamento, e reforça que o modelo é replicado na base, com múltiplas ligas que não se enfrentam entre si.
“Ninguém aceita ficar de fora por aqui. Se seu filho não é aceito em uma equipe da 'Liga A', outra deve aceitar. Caso os pais não tenham sucesso, eles passam para a ‘Liga B’. E assim sucessivamente, até que o filho seja ‘aceito’ em uma equipe", explica o treinador.
O resultado final é um sistema extremamente deficiente para a descoberta e o desenvolvimento de talentos. Afinal, um jogador que esteja fora da suposta ‘liga de elite’ sequer chegará a ser avaliado pelos olheiros de programas de nível nacional ou de futebol universitário das divisões mais elevadas - Raphael Alves.
Contraste com países tradicionais
Como contraponto, Raphael descreve que, em países como Brasil, Argentina ou nações europeias, a maioria das crianças começa em peladas informais e as mais talentosas migram para clubes organizados de bairros ou de cidades pequenas.
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Esses pequenos times, por sua vez, enfrentam grandes academias em ligas com acesso e rebaixamento, e academias oficiais de formação não cobram dos atletas, apoiando as famílias.
Para ele, o elemento comum nesses sistemas é a meritocracia esportiva, ausente no cenário norte-americano.
Dá para perceber onde o futebol de base se encontra por aqui? Falta-nos algo básico do esporte competitivo: a meritocracia - Raphael Alves.

Arquivo pessoal
Distância e exemplos "fakes" da seleção dos EUA
Enquanto dirigentes locais pedem "mais alguns anos" para alcançar o nível internacional, Raphael considera ilusória a ideia de que os Estados Unidos vão competir de igual para igual com países campeões mundiais.
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O treinador lembra que os destaques dos EUA na Copa do Mundo, como Malik Tillman e Folarin Balogun, tiveram formações europeias, na Alemanha e na Inglaterra, respectivamente, e que por isso assumem o protagonismo.
Raphael Alves observa ainda que, mesmo no futebol feminino, em que os Estados Unidos historicamente dominaram e possuem quatro títulos mundiais, outras nações já reduziram a distância, como a Espanha, a França e o Brasil, país-sede do próximo Mundial, no ano que vem.
Na avaliação do treinador, mudanças profundas e rápidas na base são essenciais para transformar o interesse despertado pela Copa em cultura e oportunidades reais para novas gerações de jogadores nos Estados Unidos.
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