Dá para burlar o antidoping? Entenda como funciona e veja os mitos
Testes surpresa, fiscalização e coleta: presidente da ABCD revela os bastidores do controle no futebol

O jogo termina, mas nem todos os jogadores estão liberados para ir embora. Um deles pode ser informado, ainda no caminho para o vestiário, que foi selecionado para o controle de dopagem.
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A partir dali, começa um processo cercado de regras, fiscalização e procedimentos que podem durar horas.
Mas quem escolhe o atleta? Dá para trocar uma amostra? Um jogador pode ser testado nas férias? E é realmente possível burlar o sistema?

Para responder a essas perguntas, o band.com.br entrevistou Adriana Taboza, presidente da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), que detalhou os bastidores dos testes e derrubou alguns dos principais mitos sobre o tema.
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Sorteio não é a única forma de escolher um jogador
Durante muito tempo, o exame antidoping no futebol ficou diretamente associado ao sorteio. O modelo ainda existe, mas não é a única maneira de definir quem será testado.
Segundo Adriana, os controles direcionados ganharam espaço e levam em consideração diferentes fatores de risco.
“São muitos os critérios de análise de risco que a gente utiliza para direcionar um teste em determinado momento naquele atleta especificamente.”
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Histórico de exames, momento da competição e características do jogador podem entrar nessa avaliação.
O ex-jogador Leandro Guerreiro, que atuou pelo São Paulo, viveu uma situação curiosa em 2006. Em entrevista à Band, ele contou ter sido selecionado para o antidoping em 11 partidas consecutivas.
Segundo o ex-atleta, naquela época a escolha podia ocorrer por sorteio ou também envolver indicação do adversário.
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O jogador foi escolhido. O que acontece?
Em testes realizados durante competições, a notificação normalmente ocorre depois da partida.
Assim que é comunicado, o jogador passa a ficar sob supervisão de um agente antidopagem e precisa permanecer dentro do campo visual do oficial até fornecer a amostra.
“Esse processo tem início no momento da notificação e só é finalizado depois que o atleta fornece essa amostra”, explicou Adriana.
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Na prática, o caminho funciona assim:
- o jogador é informado de que foi selecionado para o controle;
- passa a ser acompanhado por um agente antidopagem;
- permanece sob supervisão até fornecer a amostra;
- na coleta de urina, o oficial acompanha visualmente o procedimento;
- o atleta acompanha a amostra até o lacre;
- o material segue com cadeia de custódia até o laboratório;
- o jogador só é liberado após a conclusão do procedimento.
A lógica é semelhante fora de competição. A diferença é que a abordagem pode acontecer no centro de treinamento, em hotel, na residência ou em outros locais.
Pode ficar horas esperando
Se a coleta for de sangue, o procedimento costuma ser mais rápido, salvo situações específicas, como exames relacionados ao passaporte biológico.
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No caso da urina, porém, o jogador pode precisar esperar bastante.
Após uma partida, a desidratação pode dificultar a coleta. O atleta então se hidrata moderadamente até conseguir fornecer uma amostra válida.
“Pode ser imediatamente, pode demorar uma hora, duas horas, seis horas”, afirmou Adriana.
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Antes de assumir a presidência da ABCD, ela também trabalhou como oficial de controle de dopagem e contou já ter esperado seis horas por um atleta.
E compromissos posteriores não encerram o procedimento. O oficial pode precisar acompanhar o jogador até um hospital ou até mesmo lidar com situações em que a delegação tem voo marcado.
Dá para trocar a amostra?
A possibilidade de fraudar um exame antidoping aparece com frequência no imaginário popular — e também na ficção.
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Na série Jogada de Risco, do Globoplay, o personagem Luan passa mal após misturar substâncias na véspera de uma partida decisiva. Diante do risco de o teste apontar uma irregularidade, pessoas ligadas à gestão do atleta tentam manipular o controle para garantir sua presença em campo.
Em uma das cenas, que repercutiu entre o público da série, o companheiro de quarto Geraldo fornece a própria urina, que Luan tenta apresentar como se fosse sua.
A situação levantada pela produção também abre uma dúvida fora da ficção: seria possível fazer algo parecido em um controle antidopagem real?
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Pelos protocolos atuais, a tentativa encontraria uma barreira logo no momento da coleta.
Na amostra de urina, o oficial precisa acompanhar visualmente todo o procedimento.
“O oficial precisa ver a urina saindo do corpo do atleta e entrando no copo coletor”, explicou Adriana.
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Ou seja: o jogador não entra sozinho no banheiro e simplesmente retorna com o recipiente cheio.
Depois da coleta, o próprio atleta acompanha sua amostra até o lacre. A partir dali, começa uma cadeia de custódia que registra os locais e etapas pelos quais o material passa até chegar ao laboratório.
“Hoje não existe a possibilidade de a gente ter eventualmente uma fraude nesse processo que não fique registrada”, afirmou.
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Qualquer tentativa de fugir da supervisão, se recusar a fornecer a amostra ou interferir no procedimento também pode configurar uma violação das regras antidopagem.
Nem férias deixam o jogador fora do controle
Um atleta não precisa estar disputando uma partida para ser testado.
Ele pode passar pelo controle durante as férias, enquanto está lesionado ou fora de competição.
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Adriana resumiu a lógica com uma frase:
“O atleta é atleta, ele não está atleta.”
Dependendo da estratégia e das informações disponíveis, o exame também pode acontecer em horários pouco convencionais. Durante a entrevista, Adriana citou o caso recente de um atleta de outra modalidade que foi testado às 3h da manhã.
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A lógica é preservar o efeito surpresa e permitir que a fiscalização acompanhe situações consideradas relevantes dentro da estratégia antidopagem.
Um remédio comum pode gerar problema?
Sim.
Substâncias proibidas pelo esporte não estão restritas a produtos criados especificamente para aumentar o desempenho.
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Elas podem aparecer em medicamentos utilizados no cotidiano.
Segundo Adriana, a lista de substâncias proibidas reúne mais de 400 itens.
Por isso, o cuidado também envolve médicos, preparadores físicos e outros profissionais próximos ao jogador.
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“O atleta é responsável por tudo que é encontrado no seu corpo”, explicou.
Esse é o princípio da responsabilidade estrita.
Mesmo quando existe alegação de desconhecimento ou contaminação, a presença da substância precisa ser analisada dentro das regras antidopagem.
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O maior mito sobre doping
Para Adriana, um dos principais mitos que ainda precisam ser derrubados não está relacionado à coleta.
É a ideia de que todo atleta de alto rendimento precisa utilizar alguma substância proibida para chegar ao topo.
“É uma frase tão antiga, ela diz tão pouco do esforço dos atletas”, afirmou.
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Na avaliação da presidente da ABCD, essa percepção ainda carrega muito do imaginário construído pelos grandes escândalos de doping das décadas passadas.
Hoje, atletas de alto rendimento são testados repetidamente e em diferentes situações.
Para ela, o sistema existe não apenas para identificar quem viola as regras, mas também para proteger quem compete de maneira limpa.
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“Mais do que proteger resultados, a antidopagem está aqui para proteger a saúde do atleta, a saúde do ambiente esportivo e o jogo limpo.”
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