R$ 20 mil de folha e 2,5 mil torcedores em ônibus: final da várzea em SP vira Libertadores
Jardim Verônia leva 50 ônibus à decisão da Pioneer e mobiliza um bairro inteiro em busca do título

Cinquenta ônibus, 2,5 mil torcedores e praticamente um bairro inteiro mobilizado por uma partida de futebol. O cenário poderia ser de uma decisão de Libertadores, mas sairá de Ermelino Matarazzo, na zona leste de São Paulo, rumo a uma das principais finais da várzea brasileira.
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Neste domingo (27), o Jardim Verônia enfrenta o Real Madruga, às 13h, na Arena Inamar, em Diadema, na decisão da Super Copa Pioneer. Pela primeira vez na final do torneio, o clube transformou a classificação em uma operação que envolve moradores, comerciantes, patrocinadores e até nomes conhecidos fora do futebol amador.
Fundado em 26 de novembro de 1962, o Verônia chega à decisão carregando uma história que se confunde com a própria comunidade. E os 50 ônibus ajudam a explicar o tamanho dessa relação.
De 10 para 50 ônibus
A mobilização não nasceu nesta edição da Pioneer. Em 2022, quando conquistou a Copa da Paz, o Jardim Verônia levou dez ônibus de torcedores para acompanhar a equipe.
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Dois anos depois, o número dobrou. Foram 20 veículos para uma partida da Copa Macaco Louco contra o Marconi, depois de uma provocação entre as torcidas sobre quem conseguiria levar mais gente.
Agora, para a primeira final de Super Copa Pioneer de sua história, o clube decidiu mais do que dobrar a operação.
“A gente colocou o desafio dos 50 ônibus. Dividimos por ruas: cada rua ficou com um ônibus, com uma família responsável. Foi assim que conseguimos organizar tudo”, contou Gustavo Ventura, integrante da organização do Jardim Verônia, à Band.
A procura extrapolou os limites de Ermelino Matarazzo. Segundo Gustavo, houve até torcedor saindo de Carapicuíba para garantir lugar na caravana.
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Dos 3,3 mil ingressos destinados ao Jardim Verônia, cerca de 2,5 mil serão utilizados por pessoas que viajarão nos ônibus. O torcedor se apresenta na sede do clube e recebe a entrada durante o trajeto até Diadema.
Como o Jardim Verônia conseguiu 50 ônibus?
Colocar tanta gente na estrada também exigiu dinheiro. Cada ônibus custa, segundo Gustavo, entre R$ 1.250 e R$ 1.300.
O plano inicial envolveu comerciantes e empresas. O clube criou uma camisa especial, ofereceu espaço aos patrocinadores e destinou parte da arrecadação ao transporte da torcida. Cerca de 25 empresas aderiram ao projeto.
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Foi quando a mobilização ganhou dois reforços importantes.
“O Toguro nasceu e foi criado aqui no Jardim Verônia. Ele perguntou do que a gente precisava e quanto custava. Falamos que cada ônibus ficava entre R$ 1.250 e R$ 1.300. Ele fez um Pix para dez ônibus e depois fez a ponte com a Cimed”, relatou Gustavo.
Segundo o integrante do clube, a Cimed entrou na mobilização com outros 20 ônibus. Somados aos veículos que o próprio Verônia já havia conseguido por meio dos patrocinadores, o número ultrapassou a meta inicial. O valor correspondente aos cinco ônibus excedentes foi destinado à preparação da festa da torcida.
Um bairro que cresceu junto com o clube
A relação entre Jardim Verônia e a comunidade vai além dos domingos de futebol.
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O clube mantém o projeto Apostando no Futuro, que recebe crianças a partir dos seis anos e utiliza o futebol como porta de entrada. A comunidade também recebeu atividades como jiu-jítsu, capoeira e muay thai em iniciativas desenvolvidas com apoio do poder público.
O próprio Gustavo viveu essa relação antes de fazer parte da organização do clube.
“Eu mesmo aprendi a tocar cavaquinho e banjo em um projeto social do Jardim Verônia, entre 2012 e 2015. Se eu quisesse ter seguido como músico, tinha uma base por causa do projeto”, disse.
Essa presença ajuda a explicar por que a decisão mobilizou até quem não acompanha todos os jogos. Entre os ingressos separados pelo clube estão entradas destinadas à velha guarda, incluindo torcedores que acompanharam os primeiros títulos do Verônia, e familiares dos jogadores.
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Os próprios atletas também terão contato com a mobilização antes da partida. O elenco não ficará concentrado em um hotel. Os jogadores passarão pela sede, tomarão café no clube e acompanharão de perto a movimentação dos torcedores antes da viagem para a Arena Inamar.
Super Copa Pioneer é o 'Mundial' da várzea
Criada em 2016, a Super Copa Pioneer cresceu e ganhou espaço entre as principais competições do futebol amador. O torneio reúne equipes de diferentes regiões e também atrai jogadores com passagem pelo futebol profissional.
A edição de 2026 contou com nomes conhecidos do torcedor. Pará, campeão da Libertadores por Santos e Flamengo, defendeu o MEC. André Santos, Wellington Paulista e Leandro Damião também participaram da competição. No Jardim Verônia, Nunes e Luís Felipe estão entre os atletas com experiência no futebol profissional.
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Para quem está dentro do clube, porém, existe uma maneira mais simples de dimensionar a importância da Pioneer.
“Para a gente, a Copa da Paz é como se fosse a Libertadores. A Pioneer é o Mundial. É o campeonato que todo mundo quer ganhar”, resumiu Gustavo.
O Verônia conquistou a Copa da Paz em 2022, a Copa Martins Neto em 2023 e a Copa Macaco Louco em 2024. A galeria também guarda conquistas mais antigas, como a Copa Negritude e títulos do tradicional torneio Primeiro de Maio, disputado em Ermelino Matarazzo.
A Pioneer é uma das taças que ainda faltam.
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Várzea movimenta dinheiro e abre portas
A estrutura também mostra como parte da várzea mudou nos últimos anos. No Jardim Verônia, os jogadores recebem por partida. A folha de um jogo gira entre R$ 15 mil e R$ 20 mil, segundo Gustavo.
O clube encontra nas camisas uma de suas principais fontes de receita. Em um período recente de 30 dias, o Verônia afirma ter movimentado cerca de R$ 125 mil com vendas. A campanha na Pioneer também trouxe quase 30 mil novos seguidores ao perfil da equipe no Instagram.
O futebol amador ainda serve como vitrine para quem tenta voltar ou chegar ao profissional. Gustavo cita jogadores que deixaram o Verônia após boas campanhas para buscar espaço em clubes do país.
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A profissionalização das principais competições também atingiu a disciplina. Segundo o dirigente, episódios de violência podem gerar punições que acompanham clubes e torcidas em diferentes torneios, aumentando o prejuízo esportivo para quem se envolve em confusões.
64 anos em direção a Diadema
A história do Jardim Verônia começou em 1962 e atravessou diferentes gerações da zona leste. Vieram títulos regionais, decisões no Pacaembu, conquistas tradicionais da várzea e uma relação que transformou o clube em ponto de encontro do bairro.
Neste domingo, parte dessa história caberá em 50 ônibus.
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De crianças dos projetos sociais a torcedores que acompanharam os primeiros títulos, o Jardim Verônia levará diferentes gerações para Diadema. Do outro lado estará o Real Madruga. Em jogo, um troféu que o clube ainda não tem.
Para quem vive o Verônia, o “Mundial” da várzea.
