
Vista geral dos anéis olímpicos em Cortina d'Ampezzo, na Itália
Jennifer Lorenzini/Reuters
A presença do Brasil em Jogos de Inverno desafia a lógica climática. Sem um único centímetro de neve natural para treinamento, a viabilidade do país em circuitos mundiais depende de uma gestão estratégica que envolve o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e as confederações de neve (CBDN) e gelo (CBDG). O sucesso desses atletas não é fruto do acaso, mas de uma estrutura complexa que converte leis de incentivo e repasses de loterias em equipamentos de alta performance situados a milhares de quilômetros de distância.
Da iniciativa individual ao projeto institucional
Até a década de 1990, o perfil do atleta de inverno brasileiro era restrito: indivíduos com dupla cidadania ou recursos próprios para custear temporadas no exterior. A virada de chave ocorreu com a Lei Agnelo/Piva, que destina parte da arrecadação das loterias federais ao esporte. Esse fluxo constante de capital permitiu a profissionalização, transformando o suporte básico em projetos de longo prazo, focados na detecção de talentos e na aquisição de tecnologia competitiva.
O ecossistema de financiamento
A sustentação de uma carreira no gelo depende de um "mix" de fontes de receita:
- Lei das Loterias: Principal fonte orçamentária para as confederações, custeando treinadores estrangeiros e logística macro.
- Bolsa Atleta: Verba direta do Governo Federal para o competidor, essencial para manutenção pessoal e itens de uso contínuo.
- Lei de Incentivo ao Esporte: Permite que empresas deduzam o Imposto de Renda para financiar equipes inteiras e projetos específicos.
- Patrocínio Privado: Embora escasso, cresce para atletas de elite (como Lucas Braathen), que trazem marcas globais para o ecossistema brasileiro.
Logística e estratégia de materiais
Como manter equipamentos que não podem ser usados no Brasil? A resposta é a descentralização logística:
Bases Estrangeiras: CBDN e CBDG mantêm centros de armazenamento na Itália, Suíça e EUA. Equipamentos pesados, como os trenós de Bobsled (que podem custar mais de 50 mil euros), raramente pisam em solo brasileiro para evitar custos de frete e deterioração climática.
Tecnologia de Transição: Para manter o ritmo no Brasil, investe-se em Rollerskis (esquis com rodas). Pistas como a de São Roque e o Parque Damha (São Carlos) são os laboratórios tropicais para modalidades como o Biatlo.
Parcerias Técnicas: É comum a compra de materiais de segunda mão de potências como o Canadá para categorias de base, enquanto a elite recebe equipamentos novos e trajes testados em túneis de vento para máxima aerodinâmica.
Resultados e marcos de gestão
O impacto dessa estrutura reflete-se no ranking mundial. Atletas como Nicole Silveira (Skeleton) e Jaqueline Mourão (Cross-Country) utilizam essa rede para acessar ceras de alta tecnologia e treinadores de ponta. A entrada de Lucas Pinheiro Braathen no time brasileiro elevou o patamar, unindo o apoio institucional do COB ao patrocínio de marcas gigantes como Red Bull e Atomic.
Curiosidades da operação "Inverno Tropical"
- Snow Farming: O financiamento cobre o acesso a neve "estocada" do inverno anterior na Europa, permitindo treinos antes da temporada começar.
- Burocracia de Fronteira: Devido às altas taxas de importação, muitos equipamentos técnicos viajam como "bagagem pessoal" dos atletas para garantir que peças de reposição cheguem às pistas sem retenções alfandegárias.
- Lâminas de Precisão: No Bobsled, as lâminas (runners) são trocadas conforme a temperatura exata do gelo, exigindo um arsenal de peças que acompanha a equipe em todas as etapas.
A viabilidade dos esportes de neve no Brasil é, acima de tudo, um caso de inteligência logística. O talento do atleta é o motor, mas a engrenagem que permite o deslizamento perfeito é construída por uma gestão que aprendeu a operar onde o frio é a única constante.
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