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Por que brasileiros continuam se transferindo para Rússia e Ucrânia? Entenda

Para especialistas, a explicação vai além das vantagens financeiras

Por Redação
REDAÇÃO

12/09/2025 • 16:49 • Atualizado em 12/09/2025 • 16:49

Destaque do Flamengo, Gerson foi para o Zenit

Destaque do Flamengo, Gerson foi para o Zenit

REUTERS/Daniel Gollan

Chegou a 23 o número de atletas brasileiros que se transferiram para o futebol russo e ucraniano nesta janela de transferências atual, mesmo com a guerra que acontece nos países. Não é fácil explicar essa grande quantidade. A vantagem financeira é clara, mas existem outros pontos.

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Para a Ucrânia, foram 14 brasileiros transferidos. E para a Rússia, 9. No total, são 62 brasileiros atuando na elite do futebol dos dois países, sendo 34 na Ucrânia e 22 na Rússia. O número total de estrangeiros é ainda maior: são 120 no total atuando no país ucraniano, e outros 168 na nação russa, refletindo que, a guerra, não foi um empecilho para esses profissionais.

A Guerra na Ucrânia começou em fevereiro de 2022, quando tropas russas invadiram localidades próximas à capital ucraniana Kiev. Imediatamente após a invasão, a FIFA e a UEFA suspenderam todos os clubes do país de competições internacionais, algo que perdura até hoje, e essa decisão impactou diretamente nas finanças, já que as transferências internacionais despencaram, e muitos atletas rescindiram seus contratos.

Com isso, os investimentos da liga russa caíram de 6ª para 12ª em gastos com transferências, mas permaneceram altos. Tanto é assim que, desde o início dos conflitos, há três anos e meio, os clubes do país gastaram mais de R$ 4 bilhões gastos em transferências. O destaque principal desta janela foi a ida do volante Gerson para o Zenit, numa das três maiores transações do futebol brasileiro nesta temporada, por 25 milhões de euros. Já no começo do ano, a principal negociação se deu com o atacante Luiz Henrique, que deixou o Botafogo para o próprio Zenit, por 35 milhões de euros.

Para Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana, comandada pelo cantor Jay-Z, e que gerencia a carreira de centenas de atletas, o interesse de atletas pelo futebol russo pesa pelas questões financeiras. "Atleta profissional é também uma pessoa, tem sentimentos, sonhos, mas lida com sua carreira de forma pragmática. Ela tem "prazo de validade", e curto, e os benefícios monetários apresentados pelos times russos ainda são estratosféricos. Para os brasileiros, ganhar em quatro, cinco anos, o que ganhariam em 15 aqui, especialmente se o atleta não é alvo dos principais clubes das principais ligas europeias, a alternativa russa é muito interessante. A lógica é muito simples", diz.

Já a Ucrânia, que foi invadida e vive constantemente ainda sofrendo ataques por parte de tropas russas, os investimentos são menores, mas continuam existindo. A diferença é que o país não foi impactado pelas normas da Fifa e UEFA e continuam disputando as principais competições europeias, como a Champions League.

"Acredito que essa ida de atletas brasileiros para lá vai além das questões financeiras, mas também de tradição e do fato dos clubes ucranianos estarem disputando os principais campeonatos do mundo, entre eles, claro, a Champions, que possui total visibilidade. É verdade que os salários e premiações que as equipes ofertam são tentadoras, e as condições do país e de estrutura são tão ricas quanto de outros países europeus, e isso é relevado pelos profissionais que lá estão", aponta Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management Brasil, especializada no gerenciamento da carreira de atletas e técnicos, entre eles de Simone Inzaghi, Lukaku e Vitor Reis.

Fiorito complementa: "Além disso, ao longo das últimas décadas, vimos dezenas de jogadores que até não consideramos ter o perfil de atuar por lá, com uma cultura e uma temperatura extremamente distintas. O frio extremo, com neve, em boa parte do ano, e a ausência da família, por exemplo, são fatores determinantes para o sucesso ou fracasso de muitos deles, mas ao mesmo tempo temos um histórico interessante de jogadores que pra lá foram e por muito tempo ficaram, inclusive com retornos em outros períodos, e acho que isso, mais uma vez falando, não se deve apenas ao fator financeiro, mas também às disputas de competições importantes, e até migrarem para outros centros maiores, justamente pelo fato de, na Rússia, terem essa visibilidade global."

Nas últimas semanas, o Shakhtar Donetsk, um dos principais time do país, tirou do futebol brasileiro o atacante Luca Meriles, do Santos, por 12 mi de euros; o atacante Lucas Ferreira, do São Paulo, por 10 mi de euros, assim como o meia Isaque, do Fluminense, pelos mesmos 10 milhões.

O desempenho de Luca Meirelles chamou a atenção da plataforma E-Scout, sistema de avaliações de jogadores, especializada em futebol de base no Brasil, onde recebeu 64 pontos de 100 possíveis na avaliação geral. O relatório destaca atributos físicos e cognitivos, como resistência, mobilidade, leitura de jogo e troca de ritmo. Ofensivamente, a finalização e a condução de bola se sobressaem, reforçando seu perfil de atacante letal dentro da área.

Segundo Thiago Freitas, da Roc Nation Sports no Brasil, tanto Zenit quanto o Shakhtar foram muito bem sucedido nas suas histórias recentes com atletas brasileiros. "A combinação das suas características, técnicas e pessoais, com as dos atletas russos e de outras repúblicas da antiga União Soviética, rendeu títulos e um ambiente que consideram único, uma "fórmula". Além disso, brasileiros capazes de serem decisivos na liga russa custam muito menos do que atletas europeus das países que são os principais formadores", analisa.

Talita Garcez, sócia do Garcez Advogados e Associados, escritório especializado em Direito Desportivo, explica o que atrai os jogadores para o país: “O futebol ainda é um dos esportes favoritos na Rússia, com isso as propostas costumam ter atrativos financeiros benéficos aos atletas brasileiros. Mesmo com o conflito entre Rússia e Ucrânia, o futebol continua vivo nesses países e, muitas vezes, essa transferência de atletas brasileiros para lá pode servir como uma porta de entrada para o futebol europeu. Além disso, a visibilidade internacional proporcionada por campeonatos locais, a possibilidade de disputar competições continentais, bem como a valorização da carreira por atuar em um cenário de maior competitividade, são fatores que pesam na decisão. Para muitos jogadores, trata-se não apenas de uma oportunidade de crescimento profissional, mas também de estabilidade financeira em um mercado que, apesar das adversidades externas, ainda investe no esporte."

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