Rede multiclubes é uma tendência do futebol nos últimos anos: são empresas que possuem diversos times espalhados pelo mundo, como Grupo City e Red Bull, por exemplo. Desde o ano passado, surgiu a primeira rede multiclubes do Brasil: é a Squadra, que é dona de 5 times. O principal deles é o Londrina, que disputará o título da Série C neste sábado (25), contra a Ponte Preta.
Cada time tem uma função diferente dentro da rede multiclubes:
Londrina: principal time, que buscará os maiores resultados esportivos, para aumentar receita e dar mais exposição aos jogadores
Linense: segundo time mais importante, que também buscará resultados esportivos, mas em divisões menores
Ypiranga-BA, Conquista-BA e VF4-PB: times focados nas categorias de base, que eventualmente podem jogar campeonatos profissionais, mas só para dar experiência a jogadores muito jovens
O Londrina é SAF que pertence à Squadra. O Linense é uma S.A. da Squadra. O VF4, que foi criado pelo lateral Victor Ferraz, tem a Squadra como sócia majoritária. E no Ypiranga e no Conquista existem parcerias de gestão.
Quem comanda a Squadra?

Dado Cavalcanti, que já treinou muitos times importantes no Brasil, foi contratado para ser diretor da Squadra. Ele diz que vivia um momento de "desgaste e reflexão" com a carreira de técnico quando recebeu um convite. Guilherme Bellintani, ex-presidente do Bahia, que levou o Grupo City para o Tricolor, estava investindo para criar rede multiclubes e precisava de um braço direito.
Dado explica o que faz na Squadra: “Eu exerço uma função de gestão técnica. Não exerço uma função de gestão executiva. Não sou o responsável direto por contactar empresários ou trabalhar exclusivamente nas negociações de contratos. Mas tudo que está envolvido no futebol dos clubes, dentro do campo, passa por mim. Existe uma nuvem, uma caixa, acima de cada clube. E elas precisam se conectar a mim através dos responsáveis diretos pelo setor de futebol”.
Ou seja, cada time tem um executivo de futebol, que responde a Dado. E a partir das informações recebidas, ele tenta adotar padrões que façam os times evoluírem. Mas como ele explica, nem sempre é possível padronizar tudo: “Existe uma diferença muito grande entre um garoto que treina em Londrina, no mês de julho, com uma temperatura de 10 graus, em uma cidade muito desenvolvida, e realidade de um garoto que treina no Ypiranga-BA. Por exemplo, dentro da Vila Canária, um bairro pobre de Salvador, que quase sempre o sol está 33 graus”.
Nós queremos ir pelo mesmo caminho, mas não necessariamente fazendo as mesmas curvas. Existem curvas que em Londrina a gente faz um pouco mais fechada. Existem curvas no Ypiranga que a gente precisa fazer um pouquinho mais aberta
Exportadora de jogadores
Mas os jogadores não ficam só em um clube da rede. A grande vantagem desse grupo é ter a possibilidade de desenvolver um atleta em um time e depois repassar para outro, para que ele tenha mais visibilidade e seja negociado.
Aliás, é exatamente esse o desejo da rede multiclubes: virar a maior plataforma de exportação de atletas do Brasil. Não necessariamente em qualidade, mas em volume. O grupo pretende buscar jogadores que estão "fora do radar" e ainda podem ser desenvolvidos para futuras vendas. Bellintani explica que o objetivo não é concorrer com Flamengo ou Palmeiras, que já possuem categorias de base estabelecidas. Uma das estratégias é buscar jovens não aproveitados por esses times, recuperá-los e revendê-los. Nesse caso os times grandes vão funcionar mais como clientes, não como concorrentes.
Mas existe um risco perigoso: se a Squadra vender demais os destaques, como ficarão os times que precisam de desempenho esportivo? Dado diz que esse é um dos grandes desafios da rede: "O nosso trabalho é não permitir que isso influencie no resultado esportivo. Vou dar um exemplo: tivemos muitas propostas pelo Iago Teles, que é o nosso jogador que se destacou na série C. É um extremo que faz gols, que joga 90 minutos e que não se machuca. Tivemos N propostas. Mas nós estabelecemos uma lógica de vender um jogador esse ano, para que não impactasse no equilíbrio do nosso elenco, em busca do objetivo principal, que era o acesso. Então nós vendemos o Pablo, que era um atacante também promissor, mais jovem que o Iago, que também vinha ganhando destaque, mas nós entendíamos que a ausência do Iago seria um pouco mais sentida".
Então entrou outro papel importante nesse processo: o Londrina buscou reposição para Pablo e conseguiu subir para a Série B.
Linense e a expansão da rede multiclubes
A Squadra tem a intenção de incluir mais clubes no grupo. Pretende inclusive ter times no Uruguai e em Portugal. Mas Dado diz que "isso já esteve mais perto de acontecer". O foco agora, além de manter o Londrina na Série B, é desenvolver o Linense, que ainda não deu um grande salto esportivo. E precisa ficar mais próximo do Londrina, de preferência na primeira divisão estadual.
"O trabalho do Linense iniciou bem depois do Londrina. Ele vive os momentos de incerteza do projeto que o Londrina viveu no passado. Nós aprendemos com o erro. Então nós entendemos que a montagem do elenco para a A2 vai ocorrer de uma maneira diferente. Os jogadores podem se apetecer de jogar pelo Linense e depois jogar uma Série B pelo Londrina. E estamos nesse processe de convencimento dos atletas", iniciou Dado.
Ele também explicou que o Linense precisa de mudanças estruturais: "Precisa melhorar nosso CT e promover impactos efetivos de longo prazo na administração do Linense".
Desafios na Série B
Dado Cavalcanti conhece bem as divisões de acesso. Agora o Londrina vai para a Série B e precisará se adaptar a um novo nível. Segundo o diretor, o regulamento é uma grande dificuldade nova.
"A Série B nos traz uma perspectiva mais de corrida de longa distância, uma corrida de resistência, de muita resiliência, porque não existe, em um campeonato de pontos corridos, uma equipe que não oscile. O time é muito propenso a oscilações, mas dentro de uma resistência, nós podemos chegar no final do campeonato bem colocados", observou ele.
A questão financeira é importante. Dado citou que as criações das ligas e os patrocínios das bets elevaram demais os investimentos dos times da Série B. Mas o Londrina não fará loucuras para chegar nesse nível.
"Agora é um momento de desaceleração. Existem clubes na B que o dinheiro já acabou. Há muito tempo a gente não via tanta recorrência de queixas de atraso de salário. Vários desses clubes fizeram investimentos descontroladamente. E no próximo ano vão sofrer muito. Então nós não podemos sair fazendo qualquer tipo de investimento. Precisamos diminuir essa janela de distância para os nossos adversários, mas não de forma irresponsável", pediu Dado.
Segundo o diretor, o Londrina subiu na Série C com a 12ª maior folha salarial. E o objetivo será fazer algo parecido na Série B, mas com os pés no chão: sem tanto dinheiro, a realidade do clube é inicialmente se firmar na competição: "O Londrina quer primeiro se consolidar. Se há algum legado que o Londrina pode deixar para outras equipes, é a prática de gestão sustentável e muito segura. Já provamos que não é só dinheiro que faz uma equipe vencer".
Portanto, por mais que se pareça com alguns pontos das grandes redes multiclubes mundiais, o Londrina tem pontos bem diferentes: não possui altos investimentos, pretende ser formadora e exportadora de jovens, e também desenvolve métodos próprios.
Dado confirma: "O que eu posso afirmar é que a plataforma do Grupo City serve de inspiração. Mas nós temos também o nosso trabalho. Nós temos também as nossas ferramentas. Mas nós criamos muita coisa internamente. Nós estabelecemos até vários caminhos opostos. Diferentes. Então serviu de inspiração. Mas temos também o nosso caminho a ser traçado".
Não perca nenhum lance!
Leia o melhor do esporte de graça, direto no seu e-mail
Selecione os seus temas favoritos:

