Jogo Aberto

Tatuador tem linfoma desde 2007 e consegue "esmagar o câncer" com triatlo; conheça

Gustavo Teixeira já passou por todos sofrimentos da doença, mas hoje mostra a importância de sempre praticar esportes, além de doar sangue e órgãos

Allan Brito
ALLAN BRITO

28/06/2025 • 00:59 • Atualizado em 28/06/2025 • 00:59

Gustavo Teixeira vai disputar um Iron Man 70.3 e quer participar dos Jogos Olímpicos de Transplantados

Gustavo Teixeira vai disputar um Iron Man 70.3 e quer participar dos Jogos Olímpicos de Transplantados

Instagram @guteixeiratattoo

Quando alguém recebe o diagnóstico de câncer, pode passar por diversas fases. Gustavo Teixeira enfrentou quase todas: já recusou tratamento, já quis se matar, mas hoje é inspiração para quem enfrenta a doença. Ele entende que esses sofrimentos são inevitáveis, mas é possível ajudar as pessoas a superá-los rapidamente. E usa o esporte para isso, através do projeto "Esmagando o câncer no Triatlo" - o próximo objetivo dele é disputar o Iron Man 70.3 neste ano.

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Atenção: em caso de pensamentos suicidas, disque 188 e procure ajuda especializada com o CVV (Centro de Valorização da Vida), que funciona 24 horas por dia.

Gustavo é tatuador em São Caetano do Sul e esmaga o câncer todos os dias. Não está curado do linfoma que descobriu em 2007. Mas são quase 20 anos vivendo uma história que merece ser contada em detalhes, porque normalmente os filmes, séries e reportagens só abordam a parte cruel do tratamento contra o câncer. Existe um outro lado, que pode motivar pacientes oncológicos e incentivar as doações de sangue e de órgãos.

A descoberta do câncer

A forma como Gustavo descobriu o câncer já é uma história curiosa: em 2007, ele mostrou para todo mundo da escola a primeira tatuagem que fez. Um professor viu, percebeu algumas manchas no corpo dele e recomendou avaliação médica.

“Aquela mancha era só de limão no sol. Mas eu tinha um carocinho no pescoço. Minha mãe lembrou ali e falou para a médica. Ela mexeu e falou: ‘vamos fazer uma biópsia’. E aí começou realmente a loucura da minha vida”, lembrou ele em entrevista ao Band.com.br.

Gustavo tinha apenas 17 anos e estava com Linfoma de Hodgkin. Era um jovem muito interessado em tatuagem e esportes. E essas duas paixões salvaram a vida dele.

Sofrimento e volta por cima

A partir de 2007, Gustavo passou por aquelas fases: inicialmente não entendeu o problema. Depois se recusou a tratar. O “caroço” pequeno cresceu. Quando aceitou o tratamento, enfrentou um transplante de medula. E mesmo assim o câncer voltou. Então ele pensou em desistir da vida.

“Quando o câncer voltou, eu tinha que fazer outro transplante. E é muito sofrido fazer um transplante. Eu falei: ‘Não vou conseguir’. Eu voltei para casa totalmente descrente. Eu estava tão louco que coloquei uma arma na cabeça. Falei: ‘F…, não quero mais’”.

Mas Gustavo desistiu de desistir. A gratidão o salvou: “Eu tive um despertar: ‘calma, você tem muita coisa boa. Não faz isso. Você tem facilidade para passar pelo tratamento. Você tem família, tem amigos, tem o trabalho que você quer, a faculdade que você quer, namora… Você não tem a saúde que quer, mas você vai se matar? Cala boca e se trata’. E aí eu fui fazer o tratamento de novo”.

Esmagando o câncer

O amor pelo esporte sempre esteve presente na vida de Gustavo. Praticava futsal, handebol, ginástica olímpica e até surfava desde os 8 anos de idade. Mas conciliar esporte com quimioterapia ou imunoterapia sempre é um grande desafio.

Gustavo tentou desde quando estava internado: “Eu lembro que estava no hospital, pegava a garrafa de água e levantava. Era sofrido”.

No caso dele ainda surgiu mais um problema, a polineuropatia. É uma condição que, para ele, surgiu como efeito colateral dos remédios contra o câncer. Afeta os nervos, causando formigamento, cansaço e até paralisação de alguns movimentos.

“Eu fui no neurologista e falei que meu corpo travava quando ia fazer exercício. E aí eu desistia. Ele falou que, nesse momento, eu tinha que continuar fazendo exercício para ‘ensinar’ o mecanismo pro corpo”, conta.

Então mais uma vez Gustavo desistiu de desistir. Cada vez que a neuropatia atacava, ele “esmagava” de volta - primeiro com fisioterapia, acupuntura, RPG e pilates. Depois com exercícios na academia. E começou a fazer publicações no Instagram com a legenda “esmagando o câncer”. Viralizou. E rapidamente começou a sentir os efeitos positivos do exercício no tratamento, que são comprovados pela ciência.

Recentemente, pela primeira vez Gustavo conseguiu fazer um treino longo sem sentir os efeitos da neuropatia. Ficou emocionado e publicou no Instagram. Um treino específico na WiemsPro Brasil, com uma roupa de eletroestimulação muscular, tem sido um diferencial para essa evolução, segundo ele.

Mas por que esmagar o câncer com triatlo?

Qualquer esporte ajuda a “esmagar o câncer”. Caminhada, natação, ioga ou fazer qualquer tipo de fortalecimento muscular sempre será benéfico. Até na cama é possível levantar pequenos pesos, por exemplo. Assim o paciente terá mais força física para realizar os movimentos mais simples do dia a dia, além de obter melhoras no sono e na imunidade. Também ajuda para se recuperar melhor de uma cirurgia, algo comum nesses tratamentos.

Mas por que Gustavo resolveu nadar, correr e pedalar por quilômetros? É mais uma história que surgiu quase “do nada” e mudou a vida dele: “Eu falo que a gente tem que ficar atento a todas mensagens que o universo manda. Eu estava fazendo o tratamento um dia e escutei os enfermeiros falando que o HCor estava patrocinando uma atleta para os Jogos Olímpicos de Transplantados e que ela ganhou medalha de ouro. Eu falei: ‘O que tem de esporte nesses jogos? Eu quero participar'”.

Gustavo conta que viu a lista de jogos e perguntou qual era o mais difícil. Então ficou com o triatlo. A oncologista dele foi contra a ideia. Não recomendou. Mas Gustavo disse que ia fazer de qualquer forma e só pediu ajuda para se preparar da melhor forma.

Então Gustavo se preparou para as provas e tem buscado patrocínios para ajudar com os gastos. Mas enfrenta dificuldades para achar marcas que queiram se envolver. A Oakley e a Mombora estão com ele. Mas ele sente um receio geral e entende que é um desperdício: “Existe um público gigantesco de pessoas que têm câncer. As marcas estão deixando de olhar para muita gente. Elas podem ganhar dinheiro e mostrar que tudo é possível. Eu tento conversar, elas acham legal, mas no final é ‘depois a gente vê’”.

É preciso fazer adaptações?

Existem muitos tipos de câncer. Cada paciente é diferente. Então não há uma regra para se adaptar aos esportes. Mas é importante buscar recomendações clínicas. Alimentação, suplementação e até os remédios usados para cada terapia podem ser mudados. Também é importante fazer exames de sangue com frequência para avaliar os efeitos.

E Gustavo deixa claro que o mais importante é buscar aquilo que se encaixa na realidade de cada um: “Não é para comparar, tipo ‘o Gustavo tem tratamento de ponta e não está dentro da realidade’. É ver o que você pode fazer. Ver o seu tipo de esporte. É olha para você e ver o que é palpável”.

O agora, o futuro e a mensagem pra sempre

A preparação para o triatlo é apenas uma das várias atividades de Gustavo. Ele é um tatuador bem-sucedido, com estúdio próprio em São Caetano do Sul, especializado em tatuagens tribais. Tem uma marca de camisetas. Faz publicações frequentes no instagram @guteixeiratattoo, com 120 mil seguidores. E agora está finalizando o livro “Perspectiva Consciente”, que será lançado em breve. O objetivo é ajudar na parte psicológica dos leitores através da inspiração.

“Se em 2007 eu tivesse encontrado um Gustavo que mostrasse que era possível tudo isso, seria muito mais fácil. Eu ia saber que ia sofrer, mas ia ser mais rápido, porque ia mostrar que eu posso fazer tudo”, explica ele.

Outro projeto para o futuro próximo é a criação da Tattoo Run Fest, que vai reunir aquelas paixões de Gustavo: será uma corrida com ativações relacionadas a tatuagens e com mais atrações - show, sorteio e food trucks, por exemplo. Deve acontecer em outubro para abraçar a luta contra o câncer de mama também. "A gente está indo atrás dos patrocínios e mais conversas para fazer acontecer e divulgar mais a minha mensagem - doe sangue, doe plaquetas e doe medula".

No esporte, Gustavo treina todos dias. Durante a semana, faz duas horas de um dos três esportes do triatlo. E no final de semana tem treinos ainda mais longos. A próxima meta é completar o Iron Man 70.3, em setembro. Segundo ele, será o primeiro paciente com câncer a realizar esse feito. Depois ainda pretende disputar os Jogos Olímpicos de Transplantados.

No final das provas de triatlo Gustavo pretende exibir uma mensagem fundamental: “Vou fazer uma bandeira que já visualizo: ‘Doe sangue e doe órgãos’. Porque se eu estou vivo até aqui, é por causa das pessoas que doam. Eu posso estar com a cabeça boa, mas se não tiver essas pessoas, não tem o que fazer”.

A bandeira é importante, mas a vida de Gustavo já deixa essas mensagens bem claras. Pratique esportes. Doe sangue. Doe órgãos. Salve sua vida. Salve vidas. Sempre.

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