
Anéis olímpicos cobertos de neve em Cortina d'Ampezzo, Itália
Claudia Greco/Reuters
Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, que começam na próxima sexta-feira (6), estabelecem um marco na história do esporte ao oficializar a descentralização geográfica.
Diferente de edições passadas, onde uma cidade centralizava as operações, a candidatura italiana vencedora uniu Milão, metrópole financeira e da moda, à histórica estância de esqui de Cortina d'Ampezzo, nas Dolomitas. Essa escolha cria a primeira edição nomeada oficialmente por duas sedes, abrangendo uma vasta área no norte da Itália.
A engenharia da logística e o conceito de clusters
A distância de 400 quilômetros entre as duas cidades principais — um trajeto de aproximadamente cinco horas de carro — impôs a necessidade de um modelo logístico inovador. Para evitar deslocamentos inviáveis, a organização abandonou a ideia de uma Vila Olímpica única e adotou o sistema de clusters ou zonas de competição.
Nesse formato, atletas e delegações permanecem baseados na região específica onde ocorrem suas provas, deixando a grande movimentação entre sedes restrita a oficiais, mídia e espectadores. A conectividade do evento dependerá da modernização ferroviária, especialmente dos trens de alta velocidade que ligam Milão a Verona e Veneza, além de melhorias nas estradas que levam aos centros de montanha.
Trajetória da candidatura e a Agenda 2020
A escolha da Itália como sede ocorreu em 2019, durante a 134ª Sessão do COI, onde a proposta de Milão-Cortina superou a candidatura sueca de Estocolmo e Åre. A vitória consolidou o eixo Lombardia-Vêneto-Trentino e marcou o retorno dos Jogos ao território italiano vinte anos após Turim 2006.
O projeto foi desenhado sob as diretrizes da Agenda 2020 do COI, focada em sustentabilidade e redução de custos, utilizando 93% de instalações já existentes ou temporárias para evitar a construção de infraestruturas sem uso futuro, os chamados "elefantes brancos".
Distribuição das modalidades pelas zonas de competição
O cluster de Milão, por sua característica urbana e plana, concentrará os esportes de gelo indoor, como o hóquei no gelo, a patinação artística e a patinação de velocidade em pista curta. É também na capital da Lombardia que o Estádio Giuseppe Meazza receberá a cerimônia de abertura. Já o cluster de Cortina d'Ampezzo focará no esqui alpino feminino, no curling e nas provas de deslizamento, como bobsleigh e luge, utilizando a tradicional pista Olympia delle Tofane e o centro Eugenio Monti.
Outras regiões fundamentais completam o mapa dos Jogos. O cluster de Val di Fiemme, em Trento, será o coração das disciplinas nórdicas, incluindo o salto de esqui e o esqui cross-country. Simultaneamente, o cluster de Valtellina abrigará o esqui alpino masculino na pista Stelvio em Bormio, enquanto as competições de snowboard e estilo livre ocorrerão em Livigno. O encerramento do evento terá um cenário histórico: a Arena de Verona, um anfiteatro romano que simbolizará a união final de todas as frentes de competição.
Desafios operacionais e inovações do modelo
A dispersão geográfica traz fatos inéditos, como a gestão de vilas olímpicas descentralizadas e o uso da South Tyrol Arena, em Anterselva, para o biatlo. Um dos pontos de maior debate foi a reconstrução da pista de bobsleigh em Cortina d'Ampezzo, devido aos altos custos e impactos ambientais, chegando a ser cogitado o uso de pistas na Áustria ou Suíça — o que seria algo inédito. No entanto, o governo italiano optou por manter a prova no país.
Além disso, a expectativa pelo retorno dos jogadores da NHL ao hóquei olímpico deve aumentar a complexidade de segurança e logística em Milão. Ao final, Milão-Cortina 2026 será o teste real para o modelo de megaeventos sustentáveis, onde a eficiência da conexão entre os Alpes e as planícies será mais importante do que a construção de novos monumentos esportivos.
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