Julio Casares foi eleito presidente do São Paulo em 2020 para comandar o clube entre 2021 e 2023. Em dezembro de 2023, foi reeleito. Ao assumir, tinha uma dívida de mais de R$ 500 milhões, segundo o próprio dirigente.
“Imagine que eu assumi sem um patrocínio, sem bilheteria, sem perspectiva de janela de venda – era um elenco reduzidíssimo”, contou Casares em entrevista à Band.
Mas por que assumir um clube com uma dívida grande?
“Essa pergunta, eu me faço”, respondeu o dirigente.
Julio Casares assumiu o risco e pagou o preço. Em 2021, segundo ele, o clube tinha dois objetivos: equacionar a dívida e – o mais importante – reconectar o torcedor a um time competitivo.
Vieram títulos e a torcida também veio. Em 2024, a média de público do Tricolor foi de 45,6 mil torcedores em casa. E o clube comemorou diversos avanços nos bastidores.
“Venda de atletas, televisão, marketing com os patrocínios, tem a parte da bilheteria que hoje é muito forte, o sócio-torcedor”, listou Marcio Carlomagno, superintendente geral do São Paulo. “Você tem vários aspectos que destravaram o São Paulo. A recuperação no triênio da parte esportiva foi muito concentrada para isso. Por incrível que pareça, a chegada do metrô ao MorumBis destravou o clube e melhorou a nossa média de público. Em algum momento, o mercado de patrocínio mudou, chegaram as bets, e aí chegaram as SAFs e chegaram outros modelos de negócios em relação ao futebol brasileiros, e a gente chegou ao entendimento que o futebol vai passar por uma maré alta financeira, de receitas novas o tempo todo. Tem a Libra, a LFU, e com isso a gente começou, desde o ano passado, uma preparação para que o clube tenha e seja saudável para receber esse tipo de investimento.”
A saúde financeira, no entanto, ainda está distante. Na primeira quinzena de agosto, foi solicitado um novo empréstimo de R$ 50 milhões. Mas Julio Casares vê a movimentação com naturalidade.
“O São Paulo tem nessa gestão o compromisso de levar todos os contratos ao conselho deliberativo. Previamente nós temos uma autorização de pegar emprestado até R$ 205 milhões. Isso não significa que eu vou pegar R$ 205 milhões e dever mais R$ 400 (milhões). Não é, as pessoas não entendem. Então, nós temos outros empréstimos que vão vencendo, isso é fluxo. Eu tenho três ou quatro que venceram. Então, eu espero que a dívida bancária do São Paulo ao final do ano também diminua. Quando você pega R$ 50 (milhões), já venceram os outros R$ 50 (milhões) ou R$ 60 (milhões)”, diz o presidente.
“É como se fosse uma substituição de cédulas. Você quita e você faz um novo (empréstimo) para movimentação, Hoje o grande inimigo do São Paulo são os juros bancários. Então, essa equação do empréstimo é uma primeira exigência nossa de colocar tudo no conselho, por mais que traga desgaste com blogueiros que colocam ‘São Paulo deve’. Não é composição de dívida, pelo contrário. Às vezes R$ 50 (milhões), eu vou lá com R$ 20 (milhões) e liquido um outro empréstimo, fico com R$ 30 (milhões) porque eu acabou liquidando outros R$ 20 (milhões).”
Em dezembro de 2024, a dívida acumulada chegava a R$ 958 milhões, um aumento de 45% em relação ano de 2023. Agora, já passa de R$ 1 bilhão, e no primeiro semestre de 2025, de acordo com balanço do próprio clube, veio mais um déficit de R$ 31,8 milhões. E agora?
“É claro que o primeiro semestre é um período mais difícil, porque você não tem toda janela limpa. Se eu vender o jogador agora, seja qual for, por um valor médio, ele já tem uma recuperação nesse resultado. O que é importante é que ele tinha uma previsão de um déficit maior, próximo de R$ 45 milhões. O (déficit de) R$ 31 milhões não é para comemorar, mas é muito importante porque mostra que nós estamos melhorando a performance no orçamento. Eu tinha uma previsão de 45, deu 31; nós vamos agora reverter para que esse 31 vire 0, e aí comecemos a buscar um superávit”, disse Casares.
“Agora, o grande desafio do gestor – fale com qualquer presidente – é: como manter um clube competitivo? Antigamente, a gente dizia, quando um país era hiperinflacionário, ‘como segurar esse dragão da inflação’. Como segurar esse dragão do fortalecimento de um time?”, completou.
A dívida do São Paulo em detalhes
Não há respostas fáceis para domar este dragão. Mas há diagnósticos.
“O que acontece com o São Paulo é uma soma de problemas que se acumulam ao longo dos últimos 10, 15 anos, mais ou menos”, avalia César Grafietti, especialista em gestão e finanças do esporte.
“Para se manter forte, tentar se manter relevante, o clube gastou muito mais do que podia. E gastou lastreado em dívidas. E por quê? Teve muitos problemas de crescimento de receitas enquanto via seus adversários aumentarem essas linhas – o Palmeiras principalmente, e o Flamengo cresceu muito as receitas. Ele foi perdendo competitividade natural e foi buscando essa competividade no aumento do endividamento. Mas chega uma hora em que o endividamento fica impossível de ser gerido. Com R$ 1 bilhão de dívidas, isso custa pelo menos R$ 200 milhões por ano só de despesa financeira. O que acontece com o São Paulo é o erro normal de todo dirigente, ou da maior parte dos dirigentes amadores, que é gastar mais do que pode esperando as conquistas e acreditando que estas conquistas vão render frutos em dinheiro e resolver os problemas que foram criados.”
A dívida total do São Paulo pode ser dividida em quatro critérios. São R$ 440 milhões em despesas operacionais, R$ 320 milhões em impostos (sendo R$ 65 milhões em impostos anteriores à gestão atual), R$ 215 milhões para bancos e R$ 80 milhões para fundos de investimentos, criados para que o clube fugisse dos juros bancários.
“Nós temos dívidas com os empresários, intermediários, fornecedores, obrigações que são normais durante o decorrer do ano, e contratos que têm multas – as pessoas saíram daqui, ficaram as multas, negociações. Está tudo nesse bojo”, descreveu o superintendente Marcio Carlomagno.
“Nós estamos fazendo um trabalho árduo em relação a esta outra parte da dívida. Primeiro a gente equalizou os bancos, essa dívida financeira, porque juros estavam correndo a gente aos poucos. Então a gente estagnou com uma taxa de juros para que os bancos que queiram fazer negócio com o São Paulo têm que estar competitivos com a taxa que o fundo criou. Este foi o primeiro ponto, estagnou esse sangramento em relação às despesas financeiras bancárias. E agora, estamos fazendo um trabalho para que consiga uma negociação para que haja um deságio da outra parte da dívida.”
E o que entra nessa lista? “Tem de tudo”, diz Carlomagno. “Ex-treinadores, ex-jogadores, ações trabalhistas, fornecedor.”
Daniel Alves, Dorival Júnior e Luis Zubeldía são alguns dos credores desta fila, que não é pequena. Mesmo sem dinheiro próprio, o São Paulo está tentando abater os valores devidos com quem está na fila do caixa à espera de uma solução.
“Elas (dívidas) não são muitas. Mas com relação ao que elas existem, elas são um pouco pesadas. Na parte de futebol, são um pouco carregadas”, diz o superintendente. “Hoje, na casa de R$ 20 milhões a gente tem de processos trabalhistas rodando.”
‘Dívida é alta, mas não é catastrófica’
Qualquer dinheiro que pingue já tem destino certo.
“Você tem R$ 970 bilhões em dívida, que é alta, mas não é catastrófica. Se eu tenho um faturamento muito próximo disso – é um ano de faturamento –, essa comparação é importante para um processo de recuperação. Você tem efeito do dólar, você tem contratos renovados para o time ser competitivo”, explicou Julio Casares.
“Eu vou dar um exemplo: a cada jogador que você renova, e nós renovamos com o Alan Franco, o Pablo (Maia) e outros jogadores, você tem quase um outro investimento como se fosse uma aquisição, porque você também tem luvas na renovação. E quando você promove um jogador da base, que é seu patrimônio, ele sai de um salário de R$ 13 mil, R$ 14 mil, R$ 15 mil, para um salário de R$ 120 mil quando ele é aprovado, para que você tenha uma multa proporcional para segurar. Esse extrapolar da folha reflete na dívida, mas faz parte do negócio. O que nós precisamos fazer e estamos fazendo é ampliar a receita.”
Mas o sabor ainda é amargo: R$ 320 milhões em impostos. Um valor que pesa.
“São as obrigações, são vários impostos. Mas a gente já tem uma parte pacificada. Tem muito problema que veio da pandemia. Na pandemia não foi fácil conduzir, todo mundo sabe, não foi algo simples. Mas a gente está procurando não só os créditos tributários, com teses, com escritórios especializados, mas também pacificar essa outra parte tributária com programas melhores que hoje a Receita tem rodado”, explicou Carlomagno.
Planos para 2030
Diante disso tudo, existe saída para o São Paulo? Qual é a perspectiva?
“Acho que o maior desafio do São Paulo neste ano e no próximo ano é colocar tudo que nós temos propagados no fluxo de caixa”, acredita Marcio Carlomagno.
“Nós estamos fazendo um plano diretor para 2030, que é o ano do centenário do São Paulo. Ou seja, o marketing do São Paulo, de forma inédita, fez inúmeros contratos até 2030 com grandes reajustes, e alguns até passam de 2030. Isso tem dois aspectos: o longo prazo, então nós acreditamos que até 2030 nós vamos reduzir a dívida (...). Eu acredito que, se nós tivermos um bom trabalho, nós podemos reduzir em 30%, em 40%. Tem que ser sincero, não adianta. Essa dívida não é pagável de uma vez só, porque eu vou sacrificar o time, eu tenho que manter a competitividade. E essa dívida, no primeiro momento, é equilibrar – nós conseguimos equilibrar, mesmo com efeito do dólar, nominalmente ela caiu. Quando você faz isso a 2030 com receita proporcionalmente maior – alguns contratos, nós temos patrocinador, a LiveNation de shows, tem aluguel de estádio – o torcedor precisa entender que nós precisamos fazer dinheiro”, argumenta o presidente Julio Casares.
“Até 2030, essa equação de crescimento exponencial da receita, de uma ação estratégica na base, e isso vai acontecer, e de uma operação para estancar as despesas, sempre com elenco promovendo a base, e fazendo um elenco competitivo para que você não perca receita de público, de bilheteria, de audiência, de competitividade... Nós acreditamos que chegar a 2030 com uma redução de 30% (na dívida) é possível.”
Se essa projeção se confirmar, a dívida do São Paulo vai estar em 2030 igual à dívida quando Julio Casares assumiu a presidência - só que quase uma década depois.
“Hoje o jogador já chega na minha base como uma pizza. Ele tem 20%, o empresário tem 10%. Ele já vem todo retalhado. Mas o jogador é bom, eu tenho que por lá, ou outro (clube) leva”, diz Casares. “Hoje o empresário do futebol põe 10%, 20%, e não põe nada de dinheiro, ele tira. Então, vou inverter: vou colocar alguém que ponha dinheiro e quem sabe a gente evolua para um formato que nós estamos desenhando ainda. Pode ser um fundo, pode ser um valor, uma questão operacional de um acordo operacional. E unindo tudo isso para que a gente possa melhorar os atletas nível A, que são os atletas que eu chamo de semipronto: ele com 16, 17 anos, mais um ano, ele tem uma performance e vai jogar na Barra Funda (CT do time principal), vai ser integrado à Barra Funda, e vai dar grandes alegrias dentro do campo e fora do campo”, projeta Julio Casares. “É um projeto que, quando anunciado, será muito importante para a história do São Paulo.”
Se vai conseguir equilíbrio, não dá para saber. Mas é o que os dirigentes estão tentando.
“Ela (a receita) está na casa dos R$ 900 milhões também. A gente em o objetivo de chegar na receita de R$ 1 bilhão, esse é o nosso objetivo, e aí a gente equalizar ela com todo o endividamento”, diz Marcio Carlomagno.
Com a eliminação nas oitavas de final da Copa do Brasil diante do Athletico Paranaense, mais de R$ 5 milhões voaram. Na Libertadores, mesmo no sofrimento dos pênaltis, o Tricolor acumulou R$ 30 milhões em premiação. E só no jogo da volta contra o Atlético Nacional, cerca de R$ 4 milhões de bilheteria. Mas veio a eliminação para a LDU e as chances de ir às semifinais ruiu os planos, inclusive financeiros. R$ 13 milhões deixaram de entrar nos cofres. E o público tão fiel, chateado, andou diminuindo presença em asa.
“A solução do São Paulo hoje seria uma mudança drástica e completa de gestão, seja de pessoas, seja de comportamentos. Mas necessariamente buscar investidores para uma SAF, que mude a qualidade de gestão geral do clube, o patamar do clube. Que pague as dívidas, que coloque dinheiro para investimento, que reestruture o clube, que volte a usar tudo que tem de potencial – sua grande torcida, sua formação, um bom estádio, um estádio que leva muita gente – para fazer dinheiro e esse dinheiro retroalimentar a estrutura”, acredita César Grafietti.
A bola que entra, a bola que sai: a engenharia financeira depende do que acontece em campo, mas também pelos corredores do MorumBis, que poucos conseguem acessar ou entender.
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